Novidades

Ser boa pessoa



Crônica da escritora convidada Estela Santos.

Definitivamente eu nunca entendi o que realmente é parecer uma boa pessoa. Você fala para sua amiga que saiu para jantar com fulano de tal e ela diz: “ah, ele parece ser uma boa pessoa”. Você termina com seu namorado, seus familiares dizem: “poxa, mas ele parecia ser uma boa pessoa, tadinho”.

“oun, ele é mesmo lindo!”. Na verdade não é. A tia, para não magoar a sobrinha ou chateá-la, vai dizer: “ele é tão boa pessoa, querida”.Afinal, o que é parecer uma boa pessoa? Ser bonito? Ter uma boa profissão? Ser rico? Ser simpático? Sorrir pra todos mesmo de mau humor? Eu juro, por mais que eu tente entender, não consigo. Não tem sentido, ou melhor, tem. Mas não um sentido positivo.

Dizer que um sujeito é boa pessoa, nada mais é que uma tentativa de dar fim a uma suposta tristeza ou decepção do outro diante uma tragédia, perda ou acontecimento qualquer. Antônio morreu: “poxa, ele era uma boa pessoa”. Mariana cortou amizade com Alice: “ah, ela era tão boa pessoa”. Isso é bem irônico. Convenhamos, não é o melhor a dizer.

Tais palavrinhas também podem ter por finalidade adjetivar alguém de uma forma não verídica. Escondendo o que você pensa sobre determinada pessoa. Olívia mostra a sua tia uma foto nova do namorado e diz: “oun, ele é mesmo lindo!”. Na verdade não é. A tia, para não magoar a sobrinha ou chateá-la, vai dizer: “ele é tão boa pessoa, querida”.

Dizer que alguém é ou era uma boa pessoa é algo tão insignificante quanto colecionar chaves, ver horóscopo para tentar descobrir o que vai acontecer em relação à vida amorosa, ou gastar seus minutos – preciosos ou não – assistindo Zorra Total. Não tem sentido. Não dá boa qualidade a ninguém.

Quando o sujeito é realmente digno de elogio, admiração e respeito, ele não é chamado de boa pessoa. Você não vê por aí ninguém falando que o Woody Allen é uma boa pessoa, que João Gilberto é uma boa pessoa ou que Chet Baker era uma boa pessoa. Eles merecem denominações melhores. São geniais. E não ouse criticá-los, não pra mim, não perto de mim.

Ser intitulado como “boa pessoa” é algo ofensivo, de uma forma disfarçada, digamos assim, mas é.

Pensando bem, é uma boa ferramenta. Dá para usá-la sem ser inconveniente, ninguém consegue perceber seu tom de ofensa. Pode ser um recurso. Se souber usá-lo, claro.

Agora, no final desta crônica, você aliviado por finalmente terminar de ler minhas abobrinhas, vai dizer: “é, a Estela é uma boa pessoa”.

Biografia
Estela Santos, 20 anos, estudante de Letras na Universidade Estadual de Maringá.
Blog Twitter @_estelasantos Facebook

* Créditos da imagem: Olhares.pt
Falar com...um OLHAR, por ROD COSTA

Nenhum comentário