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Das noites de calor que vivi na infância


Crônica de Giovana Damaceno!

Uma simples caminhada de trinta minutos pelas ruas do bairro numa noite de muito calor me levou a uma viagem até mais de trinta anos atrás. Não me lembro de dias tão acalorados naquele tempo, mas, sim, de temperaturas quentes toleráveis e mesmo agradáveis; algo que não é possível nos dias de hoje. Quando faz calor, faz muito calor.
Em quase todas aquelas noites quentes, seu Zé Mula trazia sua cadeira de madeira para a calçada e ali ficava, sozinho, quieto, em meio às sombras das folhas das árvores
Naqueles dias de criança, em que a gente ficava de short e camiseta de malha de algodão – às vezes de calcinha mesmo – tomávamos banho às quatro, cinco da tarde, e curtíamos o anoitecer. Brincávamos na calçada de casa ou na de vizinhos que, como hoje, colocavam suas cadeiras do lado de fora para aproveitar melhor a fresca, como se dizia.

Na casa colada à minha morava o seu Zé, mais conhecido como Zé da Mula ou Zé Mula, apelido dado por algo de que a vizinhança não gostava e que não me recordo. Talvez nunca tenha sabido o porquê. Em quase todas aquelas noites quentes, seu Zé Mula trazia sua cadeira de madeira para a calçada e ali ficava, sozinho, quieto, em meio às sombras das folhas das árvores, abaixo da luz do poste. Só tenho seu Zé em minha memória já velho; para a minha tenra idade – cerca de sete anos – ele era bem velho. Alto, corpulento, cabeça grande. Os cabelos totalmente brancos, volumosos e penteados para trás, davam a impressão de que sua cabeça era ainda maior. O rosto dele sumiu dos meus registros, mas a voz ainda ecoa na lembrança.

De todas as pessoas da rua que se deixavam ficar nas noites quentes, seu Zé é quem me retorna sempre. Minha melhor amiga da época, a Claudinha, era também minha companheira na calçada e ficávamos em torno dele, tagarelando, e o tirávamos do silêncio. Ele falava com calma, respondia a tudo o que perguntávamos, ria, dava bronca quando exagerávamos nas brincadeiras ou falávamos algo impróprio para nossa idade. Sei muito pouco do seu Zé, apesar dessa convivência tão próxima. Morreu faz tempo. Mudei-me daquela casa um ano depois e recebo notícias da família de vez em quando.

Quantos atualmente não têm mais o prazer de circular pelo bairro à noite e ver gente nas ruas, sentadas nas calçadas, papeando, com suas crianças em correria. Trocam lanches, bebidas, combinam pequenos eventos. Quanta gente sequer conheceu isso. Era o que pensava enquanto fazia a minha obrigatória caminhada diária de trinta minutos. E acabei por reduzir o ritmo para observar e desfrutar das próprias recordações. Por enquanto ainda me é permitido ver o mundo de tão perto, sem lamentar um passado que não volta. O pressente ainda é um presente.

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Foto: Banco de Imagens Gratuitas: http://www.morguefile.com

2 comentários:

  1. Nossa!!!!Me deu uma saudade da minha infância, lendo seu belíssimo texto.Eu também tive este privilégio,viajei longe.Parabéns!!!

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  2. Belo texto, me trouxe algumas recordações, de coisas que sinto muita falta! Muito bonito texto! Várias recordações em minha mente. Pessoas queridas que já se foram. Foi uma leitura muito gostosa. Parabéns Giovana.

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