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ela, você





Conto de rogério fernandes.


e quando você voltar, traga flores e algumas bebidas, enfeite nunca é demais e álcool distrai a gente. algumas rosas colombianas, daquelas que eu lhe dei, traga qualquer bebida, cerveja, pode ser, é tão alegre isso e o momento que podemos curtir até de madrugada deve ser regado de nós dois. olha que o tempo é tão largo, mas não quero que atrase, vou passar um café enquanto isso, vou lhe contar estórias tão tolas e repetidas, promete que vai rir, não repara na casa, tem gente que é um discurso só, porta batendo, janelas abertas, quenem aquela canção, aquela que diz eu poderia abrir as portas que dão pra dentro, engraçado porta abrir pra dentro, vem logo, fiquei com vergonha de você um pouco antes, e agora?, agora tô leve, camisa branca, calça de linho lavada, banho tomado, água fresca. vergonha do quê? já lhe sabia de tanto tempo, seu cabelo mudou, eu mudei?, tá mais gordo, meio bobo com essa barriga, bobo, bobo, fica aqui de lado, quero lhe ver da janela, quando sair, vá pela trilha de pedra, aquela ali, que pinta a grama verde de cinza, não vá escorregar com esse sapatinho liso.

gosto de ver você de longe, saindo de casa, voltando, escondida com os pedaços de coisa que tem na rua, passeando a esquina, atrás de um poste pichado, não a vejo, atravessando a rua, um carro vem, outro vai, você espera, caminha, passa, arremete. sumiu já no horizonte tapado pelos prédios. volto para dentro, a janela aberta enfeita o quarto, algumas faixas de algodão, engraçado e infinito, com seus furinhos de múmia. quando ela chegar vou colocar aquele disco que ela gosta para poder conversar, a conversa sai mais fácil com uma voz de mulher cantando ao fundo da voz principal de mulher explicando o mundo. mas não quero falar do que fiz, ela insiste. se ela insistir, brigo. olha, veja bem, o que fiz, fiz, não renego, mas passou. viro gato e silêncio.

café, café, café. antes de tudo um café, vou preparar daquele jeito que ela ensinou, lembro que prometi nunca mais fazer, aqui sozinho, mas é como se não estivesse. tô sempre com tanta gente aqui, nesse sopro de coisas que faço, visto o coração de um menino e danço. agora não vai demorar muito.

em torno do meu quarto, seguindo até a cozinha é uma viagem tranquila, tropeço pouco, como daquela vez em que saímos juntos para a praia e não quis nadar, tinha medo do mar e você nem ligou, ficamos de mãos dadas pela areia suja de preto e réveillon, murmuramos infinidades de rezas, nossa senhora daqui, lá iá lá iá dali. não sou religioso, mas ouvi iemanjá naquela noite. ela me falava que eu ficaria assim, velho, pele caída e tosse curta, também falou que você remoçaria, feito um rebobinar de fita, atravessando o tempo com a sua beleza ferida, aquela vozinha dizendo, olha, olha você, aperta a mão, acende a vela, acorda de manhã. todos dormiam naquela noite, a cidade toda, que bobos, menos ela e eu, aquele olho grande e verde que espreitava a madrugada, você pelada, engraçadinha, o vestidinho amarelo no chão, sujo de areia, eu queimado, picado pelos mosquitos, bêbado, bêbado...

foi quando? ontem? dez anos, eu não sei contar, fui sempre péssimo em matemática, ela também, cheia de anotações na bolsa e calculadora, cadê a cafeteira? cheia de responsabilidades, e eu, barco bêbado que não sabe navegar, pique de artista, ela que disse, barco ancorado no engano, vou fazer o café bem fraquinho. eu, as vezes, penso que você está aqui, ela, você, você, ela. não quero mais cigarro, café combina com cigarro, e um pouco de luz nessa sala, abro a cortina, esparramo luz no chão manchado, é tudo tão vermelho. na última vez, você veio com o nosso mais velho. cadê ele?

minha mãe, eu me lembro, gostava de lhe ver solta em casa, fazendo as coisas, as crianças perdidas e nuas, escorregando pelo quintal, entre as lamas do chão, verdejando como seus olhos, uma esperança, aquela sua voz de reclamação começou por ali, escondida, ares de sinhazinha, dona de tanta coisa minha, o meu sim e não, minha comida e bebida, meu levantar e dormir, cansei e fui. o sol se escondeu e fui com ele, a velha não soube de mim, que pena, ninava aquela senhora nos meus dias bons, e ela me ninava também, podia ser eu, pedaço daquela mulher, sendo assim tão triste? muita vez minha mãe perguntava por mim, tenho certeza, outras, sólida de tocar o caminho, resignava.

fui correr, não o mundo, fui correr vida, matéria de sobrevivência, conheci outra e outra, esqueci de você, as vezes encontrava você em um bater de tempestade, imensa neblina pagã. a emissão de culpa, a anestesia do amor passado, tudo agitei no frasco do coração, que é casa perdida, sem morador algum. será que é digno de nota a minha estória?

pouco importa, tenho aqui nas mãos as mesmas coisas de sempre, você disse, ela disse, e tudo dá volta, como os aparelhos de respirar. engraçadas as luzes e o tremor de elevador constante no coração. que dizer? como disse a canção, toma cuidado, o homem vem aí. eu vim, e a anestesia desse tempo de constante sempre, debaixo do barro do chão da pista onde se dança, suspira uma sustança sustentada por um sopro divino que sobe pelos pés da gente e de repente se lança pela sanfona afora até o coração do menino e me faz lembrar que eu morri.

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Crédito da imagem: olhares.pt
A VIDA É CURTA..., por Maria Júlia Tigeleiro

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