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Estrago despropositado


Crônica de Andressa Barichello.

Tomada 220, aparelho bivolt com a chave no 110. Para meu deslumbramento o depilador funcionou em altíssima velocidade por 05 segundos - até um estalo seguido de um profundo silencio e da completa estagnação de suas esganadas pinças . Aqueles foram os últimos 5 segundos de vida útil daquele torturador elétrico. E a recém iniciada eternidade de sua vida inútil fez com que eu me sentisse a pior pessoa do universo nos 5 segundos subsequentes ao estrago. Pudesse voltar 10 segundos no tempo, e o irreversível seria evitado. Posicionei a chave na voltagem correta e liguei e desliguei o aparelho outras vinte vezes, na esperança de que voltasse a funcionar. Só faltou pedir perdão. Como é bom ser perdoado, não é? Mas o maldito não tem coração - mesmo. Para tentar aplacar a dor do meu arrependimento perante o ato irre sponsável, insistia em repetir: "não foi de propósito, não foi de propósito, não foi de propósito”. Quando finalmente aceitei que nada mais poderia ser feito, desejei intensamente tivesse sido “de propósito”. Se era para tomar um prejuízo de R$200 em menos de 5 segundos que ao menos fosse com o (manifesto) propósito de inutilizar para sempre aquele pequeno serviçal da ditadura estética. Quantas vezes ao usá-lo tive vontade de atirá-lo contra a parede. Quanta dor o desgraçadinho já havia me causado. Podia sucumbir à minha sanha destruidora, render uma deliciosa risada de doida varrida, mas não - foi detonado sem nenhuma intenção em um 17 de novembro qualquer, e como desforra ainda deixou o seu serviço para ser feito pela gilete, minha inimiga nº 01. A afirmação “não foi de prop ósito” deveria ser prenuncio de desassossego eterno ao invés de escusa anunciada. Nunca mais me peça desculpas dizendo que não fez de propósito. Nada mais triste que um estrago despropositado. Engordar 10kg comendo qualquer coisa por ansiedade sem nem sentir o gosto. Ir a uma festa por osmose e lá ensurdecer ouvindo rap, quando ama pagode. Beijar sem estar a fim. Tem coisa pior? Felicidade é quando a gente faz por querer, deliberadamente. Felicidade é quando a gente estuda, trabalha, casa – e vive - de propósito! E com propósito, claro. Se não for de caso pensado, a dor, quando vem, é gratuita. E não fosse para ficar linda, honestamente eu nunca teria comprado um depilador.

Biografia
Andressa Barichello, 24 anos. Paulistana de nascença, curitibana pelo acaso. Advogada por profissão, escrevinhadora por ofício. Apaixonada pela poesia que se faz com as letras (e seu sentido outro) para celebrar a poesia constante que é a vida (e seu mistério). Venceu o 4º Concurso de Poesias Minimalistas "Poetizar o Mundo". Fanpage



Créditos da imagem? Olhares.pt
pernas!, pro Ana Catarina D Oliveira

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