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o enforcado



Poesia de Rogério Fernandes

se quando estiver presa ao momento de seus catorze anos com tanta fé em seus amores e livre com suas roupas coloridas amanhecida sob a pele do fascinante amante e o tempo regurgitar outros catorze tempos em cima e encontrar afinal outra que lhe ensine o que terapias transcendentais ou paraísos temporários não puderam e se no corredor do hospital tiver vontade de fugir para casa, mas, antes, adormecer por doze horas, e acompanhar o sol nascer enquanto outra de você retorna bêbada, num fundo de mar salgado demais. se, justamente você, aprender enquanto mente ao telefone sobre a cicatriz em sua nuca, como se soubesse o som de alguns pássaros e mesmo se insistir nas cores que são e somem,assim, se acima da multidão da pequena loja de horrores [as preces numa entorpecida e concentrada sala] insistirem em chupar suas calmaria se a alegria for por demais [alucinaste, pagaste as contas, comeste a comida sem sal, cortaste as unhas, aprendeste a dançar] em seus catorze anos rezamos. e todos aqueles soldados que perderam as armas na lama e os feriados que deixamos de visitar seus pais, se o ocaso a fizer mudar de deus e esconder todos os livros atrás da cortina e atacar com palavras duras os pastores de sua consciência e a criança que fora sua primavera operar demasiado o gozo de seu outono e o sangue e o semáforo e a prata e todos os outros momentos em que adormeceu no cinema. se quando gostar do meu papo, minha sanha, meus olhos, os restos que levo, as miçangas que lhe darei de presente, o livro do outro, os cabelos da antiga noiva, o terno azul, as alfazemas, o lábio perfurado, as pedras, o truco mal jogado, o beijo de /outrora e quando, e se houver, paz naquele quarto, enquanto lhe perfuram a mente com dentes horrendos e o seu verbo elétrico salpicar verbos intransitivo se o trânsito de seu último diálogo não for mais do que aquilo sobre o que nunca falamos. se quando lembrarmos do enforcado em seus doze suspiros sobre o tapete vermelho e as outras cartas da ilusão e você acender um cigarro e pegar um ônibus para um bairro o mais distante e lá sentir outra aparência, numa dor tranquila, [se, em lágrimas, seus olhos sentirem saudades] já terão partido. as cores, seu pai morto no longo adeus daquele tempo.as dores, sua noite selvagem não termina. e, ah, minha dor, tranquilize seu coração fleumático, não cruze as pernas em seu cubículo das nove às seis. se depois [foram tantos anos] as situações do metrô, com tantas pernas,e as mensagens dos acalantos que não formaram nascentes em seu coração... misteriosamente desperta em silêncio e não reconhece o cheiro de seu café o  gosto de sua maçã, as marcas na bunda, o corte de cabelo, o saldo no banco. se quando estiver presa ao momento de sua luta e o cruel demônio que lhe chama pelo nome em frente ao espelho lhe cegar, devolva a gentileza com um beijo.

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Créditos da imagem: olhares.pt

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