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O inesperado sorriso de Sofia




Conto de Adriano Moreira


Seis horas da manhã. Sofia levanta-se. É hora de ir trabalhar. Veste sua roupa. Toma seu café apressada,apanha sua bolsa de couro com alça longa.Calça seu sapato de salto e salta porta a fora.Dirige-se até a garagem.Entra no carro.Liga-o e acelera pela rua silenciosa. A manhã mostra-se levemente fria. É outono.Sofia abre sua bolsa.Apanha um cigarro.Acende-o.Suga-o incessante.Semblante sério,preocupada.Para no sinal. Fumando angustiada. No caro ao lado um homem a olha atento. Pisca, sorri. Sofia ali rígida, séria, contida. Abre o sinal, 06h30min. Sofia está atrasada,acelera um pouco mais.O homem a segue com seu carro vermelho.Outra vez fecha-se o sinal.Novamente o carro do homem para ao seu lado.Sofia acaba de acender outro cigarro.Sinal vermelho.Carro vermelho.Olhos vermelhos de sono.O homem acena.Sofia disfarça.Olha para o outro lado.O homem joga um cartão por sua janela.Cai aos pés de Sofia. Sinal verde. Sofia arranca. O homem arranca. Perdem-se entre o intenso frenesi. Sofia chega ao trabalho. Entra em sua sala. Acende outro cigarro. Abre a janela. Boceja. Suspira. Liga o computador. Pensa em acender outro cigarro. Não acende. Olha para o quadro na parede. Olha para a janela. Olha em seu relógio. 07h00min. Vai ao banheiro. Pega uma revista. Lembra-se do carro vermelho, do homem, do cartão que ela não pegou. Dirige-se ao estacionamento. Pega o cartão no tapete do carro. Alexandre. Advogado.Telefone,endereço e um leve perfume.

Sofia guarda o cartão em seu bolso. Volta ao consultório. Alguém liga. Ela pensa. É ele.Mas não pode, como? Não pode! Não pode! Atende. Engano. Sofia gostaria que fosse ele, mas não é. Não poderia ser.A secretária entra.Anuncia um paciente.Sofia o recebe. Sisuda. Semblante cansado. Psiquiatra renomada Sofia atende inúmeros pacientes em seu consultório. 12h00min horas. Sofia vai almoçar.Um filé de peixe.Um arroz integral. Salada. Um suco natural no restaurante da esquina. Sai do estabelecimento e dirige-se a praça. Senta-se. Acende um cigarro. Olha o lago e as árvores altivas.

14h00min horas. Volta ao consultório. 16h00min horas. Uma pausa. 30 minutos. Um cigarro. Uma lembrança. 17h30min. Sofia vai embora. Entra no carro. Ganha a avenida. Segue seu rumo. Para em um café. Olha o relógio 18h:30mim. Toma um cafezinho, suspira, paga, pega a chave do carro e sai. Passa em uma padaria próxima a sua casa. Compra pães, geleia,  frutas. Chega em casa. Guarda o carro na garagem, entra, joga sua bolsa e as compras no sofá. Vai tirando a roupa. Despida, liga o chuveiro. Uma bela ducha para relaxar. Banheira, espuma, aromatizantes. Agora esta pronta. Sofia senta-se à cadeira junto à mesa e toma seu café sossegadamente. Sua mente, não mente. O homem, o carro vermelho, o sorriso, o aceno. Correu até a sala onde jaz sua calça jeans atirada sobre o tapete tibetano. Enfiou a mão no bolso e tirou o cartão de seu interior. Estava amassado, quase ilegível. Um frio abrupto brotou em seu corpo. - Meu Deus!- Exclamou Sofia, como vou localizá-lo. O número, o endereço. Que tola eu fui, deveria tê-lo guardado em minha bolsa.

Uma desilusão total toma conta de Sofia. Um leve pranto, um desalento, um arrependimento como nunca antes havia sentido.

Sofia tenta um número. Chama. Alguém atende. Marcos mecânico. Responde a voz masculina um tanto irritada. Desculpe-me foi engano diz Sofia desligando o celular.

Outra tentativa. Chama Marcelo motoboy. Desculpe-me engano! Gerson vendedor. Rudinei pintor. Milton corretor e, assim, sucessivamente. Sofia tentava desordenadamente identificar o número do homem do carro vermelho que, agora, tanto atormentava sua mente. Sabia apena chamar-se Alexandre e que era advogado.
Sofia pensou em deitar-se um pouco para descansar. Mas antes, nova tentativa. Caixa de mensagem. Sofia, cansada, adormeceu.

Uma hora depois toca o celular de Sofia. Ela não houve a chamada. Dorme pesadamente, ali mesmo, na poltrona da sala de estar em meio a grandes e largas almofadas listadas e fofas. Acorda duas horas depois. Dirige-se a seu quarto. Deita-se em sua cama. Olha o celular. Uma chamada não atendida. -Meu Deus! -Quem será? pensa Sofia.

Retorna a ligação. Rapidamente alguém atende. Alô! voz masculina. Sofia após um breve silêncio e um rápido calafrio responde.

-Por gentileza quem fala?

-Alexandre! - responde a voz do outro lado da linha.

-Alexandre? - Exclama Sofia aturdida.

-Sim! - Responde novamente.

-Você é advogado?
-Sou! - Mas quem esta falando, por favor?

Sofia sente-se levitar. Seu coração acelera. Sua frio. Fica perplexa. Muda. Respira fundo e então continua. Alô... alô...eu sou Sofia a moça a qual você jogou um cartão outro dia pela manhã no sinal, lembra? Você tem um carro vermelho não é mesmo? Eu vi no cartão, seu nome é Alexandre e é advogado. Você seguiu-me até um certo ponto e depois... então resolvi ligar.

- Perdoe-me Sofia sinto muito deve ser engano. Apena uma mera coincidência. Sou casado. Minha esposa chama-se Marta e tenho dois filhos. Além disso, não tenho nenhum carro vermelho. Enfim, desculpe-me.

Até logo!

Sofia sentiu um vazio imenso. Solidão, vergonha e seus olhos entristecidos choram em silêncio nostálgico.
Tudo tão efêmero. Quase inacreditável.

Sofia deitada em sua cama lembra-se de tudo saudosa e perplexa. Espia a hora, 22h40min. É hora de dormir. Amanhã tudo inicia novamente bem cedinho. Boceja, cansada e inesperadamente sorri levemente. Em sua casa, em sua cama, em seu quarto. Sofia exausta entrega-se ao sono e o cansaço persistente. Dorme angelicalmente esperando por um novo dia. Quem sabe uma nova história. Um novo final. Um novo começo. Afinal, tudo foi exatamente como não deveria ser. Ou será que foi ao contrário?

*

Biografia
Adriano Moreira, poeta e escritor (contos e crônicas) desde a adolescência.
Textos publicados em antologias nacionais e internacionais. Além de premiações
Em concursos literários e publicações em alternativos culturais pelo país...
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