I Concurso Literário Benfazeja
em torno do que amamos: livros e literatura

Salve Jorge




Conto de Marcelo Souza

O bafo de deus cavalga sobre os capins, faz rima de assobio sobre as campinas, flutua sobre a lagoa. Os sapos cantam o "Salve, uai! Vai, não vai!?" e o "Foi, não foi, oi, oi?!" Coaxam no limo o sapo barrigudo e o sapo-boi... Vento alazão. Galopa veloz sobre a terra seca e sobre os riachos. A crina vermelha lambendo o horizonte. Puseram fogo na mata, ou é o sol que correu pra se esconder trá-os-montes? Os olhos em brasa assustando as crianças. Mãe-preta sabe quem está por chegar. Os bicos dos peitos da negrinha estão duros. Vontade de ver o patrão, fazê-lo gemer. Machucar a cara do algoz, estapeá-lo. Dar com amor o que receberam todos com dor. Sorriso branco, pele preta. Capitão do mato solta o chicote, baixa a cabeça. Peça castigo, peça! Os pretos mais velhos colocaram alecrim na palha do pito. O incenso improvisado vai benzer a Casa-Grande. As matronas enlouquecidas rezam o terço. Os tambores, mais tarde, vão ecoar na sua cabeça. Até o padre na capela sabe que é santo aquele rito. Tudo convida, mas poucos hão de se chegar. Hoje é dia de fogueirão! Capoeira no escuro! O Maculelê rasga o ar. Palmas ecoam de Aruanda. Preta bonita lavou vestido com água de lavanda. Bate palma menino. Hoje o tempo é senhor! Lá vem facão, mas não quer matar. Jogo de homens pra esquecer a dor. (-Olha o dragão, olha o dragão passando rente!) Mas ninguém foge do dragão que mora dentro da gente! Jorge, guerreiro, é o chefe da brincadeira. Homem feito, homem forte, também quer brincar. Cavaleiro de lança forte, vai lutar-brincar sem medo da morte. Vida boa, meu amigo! Os moleques vestem camisa, procuram abrigo. As jabuticabeiras ficam vazias, nem se mexem. Remoinho. Rodamoinho. Roda a saia, pretinha. Ciranda! É fim de tarde, e o vento da monção anuncia: Venham meus pretos! Hoje é dia! Hoje, no barracão, vai ter poesia!

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Créditos da imagem: Olhares.pt
Capoeira., por Denise Benevides

Um comentário:

  1. Delicadeza esse conto sentido da terra e do fogo. Da vontade de rodar ciranda e esperar São Jorge matar o dragão do dia-a-dia.

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