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Velhos corsários, novos glossários


Conto de Gil Rosza.

Então ele disse_ Cê tá de sacanagem! Foi quando finalmente sacou que por baixo do meu saiote inofensivo de senhor respeitável, havia um bucaneiro! Nem mesmo a barba grisalha espetada de dias sem fazer e as grandes olheiras de panda, conseguiram fazê-lo acreditar que guardo no bolso uma bandeira negra com um crânio cinzento e duas tíbias cruzadas. Acho que não esperava que revelasse meu cínico descaso por algumas coisas que o Século XX costumava cultuar como valor durável e que hoje as vejo virando sabão em pó barato escorrendo pelo ralo.

Quando me perguntou se eu não tinha medo destas coisas, antes muito valiosas se perderem pra sempre num mundo cada dia mais baumanamente líquido, respondi que já tive sim esse medo, já quis que essas coisas durassem pra sempre, mas que hoje não me importava mais, afinal, diluir é uma das funções do tempo. Na prática, quase tudo já havia mesmo se perdido há tempos. Talvez seja boa coisa aceitar que algumas destas ficarão melhor em seus túmulos digitais, arquivadas sem empoeirar, bem diagramadas em verbetes linkadosna Wikipédia.

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