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Contos Fantásticos: Natal




Pequena antologia de Contos Fantásticos, selecionados por Liliana Novais

O Natal está à porta e como era de esperar, nós aqui na Benfazeja, lançamos o desafio de escreverem contos de Natal e de fantasia. E os resultados foram surpreendentes. Parabéns a todos os que enviaram. Os Contos que recebemos eram bons, mas como é habitual tivemos de fazer uma selecção.

Esta é uma época de amor e de felicidade. Uma época da família. Esperemos que gostem e Boas Festas.

Divirtam-se com aqueles que amam. Até para o ano.

Tema de janeiro: mundos pós-apocalipse. Saiba com enviar.



In Memoriam por Alex Costa

Era manhã de domingo. O sol fazia-se claro lá fora, mas dentro da velha casa, José sabia que seria difícil reascender a luz que um dia brilhou, e com o nada, apagou-se. A casa era de dois andares, e toda vez que olhava àquela escada, sentia um peso nas pernas, sentia que precisava evitar subir e sentir-se ainda mais culpado. Morava apenas com Rosília, sua esposa, que com o tempo também deixou-se tomar pela frieza que existia naqueles móveis, naquela casa, naquela escada. Era manhã de natal. Todos eram iguais. Porquê aquele não seria também?

Era nove e meia da manhã quando soou o badalar da campainha da porta da frente. Dona Rosília de pronto foi atender. Era uma vizinha já conhecida por ser fofoqueira, mas dessa vez tinha ido apenas avisar que desde a noite anterior que havia percebido que a janela do quartinho lá cima estava aberta, então levantou-se três vezes durante a noite para verificar se haviam fechado, mas nada. Então resolveu ir avisar, com medo de ter sido ladrão.

Dona Rosília agradeceu pela preocupação mas ficou surpresa com a informação. Haviam fechado o quartinho e muito bem fechado, e agora deveria estar repleto de poeira, caixas velhas e boas e saudosas recordações. De todo modo, foi avisar a Seu José, e este mostrou-se também preocupado com o acontecido. Mas teria realmente que subir até lá? Não gostava nem de pensar nisso! Era manhã de natal. Ao longo do dia foi juntando forças, pensando tristemente em ir fechar a velha janela, em rever objetos antigos, em ter que lhe doer no peito a saudade. Já chegava tardinha quando decidiu subir. Foi vagarosamente, com quem se esconde de algo ou alguém, entrou sorrateiramente no quarto.

A janela estava mesmo aberta. Soprava um vento morno que invadia todo o recinto, e era bom. Tentou não olhar para os lados, nem para a cama, nem para os porta-retratos, nem para a mochilinha ainda com os materiais escolares da última vez que foi usada, nem para o quadro da formatura do ABC, nada, apenas tentou. Fechou a janela olhando para a rua, então fechou. Virou-se vagarosamente e tudo que queria era sair correndo dali, algo estava doendo. Deu então três passos lentos na direção da porta, ainda tentando não olhar para os lados, vã tentativa.

Sob a cama, estava um papel amarelado, com letra meio borrada. Pensou em seguir em frente, apenas sair, mas pensou no que poderia estar escrito naquele papel, na boa parte que poderia reviver sofregamente por dois minutos. Então de um impulso foi até a cama e com as pernas anestesiadas, parou e pegou o papel. Era uma carta, com assunto novo, em um papel velho. Antes mesmo de começar a ler, sentou-se na cama, com as mãos trêmulas segurando a carta, sussurrou as poucas palavras que flutuavam entre as linhas e assim diziam:

“ Pai,

Escrevo-lhe esta para lembra-lo o quão curta é a vida, pois até parece que foi ontem que eu estava ai com vocês, ou antes de ontem, sei lá, nem sei quanto tempo já estou aqui mas a saudade é imensa e intensa.
Tanto que mamãe avisou, pediu pra eu não ir, mas Joana me convenceu de última hora e acabei indo, aliás, o senhor nem sabe, mas no dia anterior ao acidente tive minha primeira vez, e poxa, foi super legal, tanto que queria ter contado ao senhor, mas a distância e o orgulho de ambas as partes não deixaram, foi sem camisinha mas não por falta de orientação, mamãe sempre me disse que quando acontecesse era pra eu me prevenir, mas agora não importa, nada importa mais...

Na manhã do meu último aniversário, vi a porta do quartinho abrir vagarosamente, pensei que era mamãe, mas a pessoa não entrou, e sem coragem de entrar, voltou da porta e, ali fiquei pensando se teria sido o senhor que queria falar algo, me dar os parabéns, até hoje não sei.

Mamãe tinha me falado que o senhor queria que eu voltasse a estudar, e eu até estava disposto a voltar no semestre seguinte, ela deve ter falar ao senhor, e ela também me disse que o senhor queria que eu tirasse minha carta de habilitação, mas eu recusei por que nunca manobrei um carro ou uma moto antes, queria ter aprendido com você, pena que não tivemos tempo.

Nada mais importa, mas sempre tive vontade de lhe dizer que, em Agosto de 1977, lhe fiz um presente para o dia dos pais na escola, pena que não pude lhe entregar pois naquele dia o senhor chegou um tanto bêbado em casa e me chamou de um nome feio, hoje não tão feio, pois eu cresci, mas eu era apenas uma criança, e assustado, corri para o quarto e chorei, o senhor não foi até lá.

Finalizo cá esta, com muita vontade de estar ai e lhe dar um abraço, lhe dizer coisas que eu sempre quis, mas nunca tive coragem...

Uma última nota papai, o presente de agosto ainda está na última gaveta da mesinha no quartinho, pegue-o, ainda é seu, desculpe pela letra tremida na foto, letra de criança, criança que estava feliz por ter uma foto com o melhor pai do mundo !

Ainda te amo meu velho...”

Sentiu então um suave toque no rosto, com a forma de um beijo, por cima das lágrimas. Sentiu um vento morno tocar-lhe a face, então levantou-se ainda trêmulo, e dirigiu-se para fechar mais uma vez a velha janela, naquela manhã de natal.
Biografia
Alex Bezerra Costa, 19 anos, residente da cidade de Fortaleza/Ce.
Estudante o curso de Letras/Português da Universidade Estadual do Ceará.
Até o momento, tem um texto publicado em uma antologia de contos 'Magia e Encantamento' da camara brasileira de jovens escritores (cbje), conto este nomeado 'A morte de Heloísa’.




Sobre renas, trenós e uma noite de Natal mal dormida por Mateus Lima


Já tinha se passado cerca de uma hora desde que todos se cumprimentaram e foram para seus aposentos. A casa estava mergulhada na mais completa escuridão e o silêncio reinava majestoso. Maurício, porém, não conseguia dormir. Permanecia na cama virando-se de um lado para o outro. Ele devia ter comido demais na ceia e estava enfrentando agora problemas de digestão.

Passaram-se mais cinco minutos até que então ele decidiu descer para tomar água e respirar, pois além de tudo o quarto estava abafado. O calor de Dezembro é mesmo insuportável. O lençol da cama já estava molhado de suor. Levantou, tateando o chão em busca de suas sandálias. Achou melhor não ligar a luz, porque não queria correr o risco de acordar seu primo Fred com quem estava dividindo o quarto.

Depois de ter encontrado as sandálias se dirigiu até a porta, destrancando-a com todo cuidado. Ao sair do quarto, Maurício se deparou com um pequeno desafio: chegar até a escada, sem esbarrar em nada, pois o corredor estava totalmente escuro. Com as mãos nas paredes, ele conseguiu chegar à altura da escada, descer foi tranquilo, o corrimão facilitava.

Já no térreo, acendeu a luz da cozinha, pois não havia mais o risco de acordar alguém. Todos estavam alojados no andar de cima divididos entre os quatro cômodos.

Maurício abriu a geladeira, dentre todas aquelas coisas ali dentro – que eram muitas – tudo o que ele mais queria era água. Depois de saciada a sede, decidiu sentar um pouco no sofá da sala. Apagou a luz da cozinha e se dirigiu até lá. As luzes da árvore de Natal iluminavam razoavelmente o ambiente. Logo Maurício se sentiu melhor. Ficou por um bom tempo olhando a árvore que ele tanto já ajudou sua Mãe a armar em um passado não tão distante, riu dessa lembrança e teve saudade de quando era criança, da magia que o Natal trazia, do quanto ele costumava ficar contente nessa época do ano. Saudade de acreditar em Papai Noel, duendes, renas e trenós encantados. Com estes pensamentos, Maurício percebeu o sono se aproximando, não viu problema em se deitar ali mesmo no sofá já que estava bem mais aconchegante e fresco do que seu quarto, além de não querer refazer todo aquele percurso às escuras. Ele, então, foi adormecendo aos poucos. Em estado de transe pré-sono, Maurício pareceu ter ouvido vozes que vinham da cozinha. Estranhas vozes que sussurravam em uma língua desconhecida, enquanto, ao mesmo tempo, riam com escárnio. Ele próprio julgando já estar sonhando não deu importância e deixou-se levar pelo sono, adormecendo por completo.

Ao acordar no dia seguinte, – antes de todos da casa – Maurício encontrou um saco de cor muito bonita do seu lado. Por um momento achou que tinha dormido em cima de algum dos presentes de seus familiares, mas então avistou seu nome escrito em belas letras cursivas, pendurado ao seco por uma fita dourada. Pensou se tratar de alguma brincadeira de sua Mãe ou de seu Pai. Mas não poderia ser. A troca dos presentes fora no dia anterior e ele já tinha ganhado todos que deveria ganhar. Louco de curiosidade e um pouco assustado começou a abrir o saco.

Quando Maurício viu o que estava dentro do saco ficou ainda mais intrigado e assustado. Era um punhal de um tom de prata muito reluzente. Havia escrito na lâmina: North Pole. Keep the faith.

Que espécie de brincadeira é essa? – Maurício pensou. No saco havia ainda um bilhete. O papel era vermelho e as belas letras foram escritas com tinta cor de prata. Maurício sentia-se nervoso, quando começou a ler.

Meu querido e doce Maurício, agora é minha vez de enfim escrever-te. Já se passaram 10 anos desde que você parou de acreditar que eu viria e isso me deixaria triste se você não fosse quem você é.

Estive em sua casa na noite passada, você dormia em frente à árvore de Natal! (Que maldade, Maurício, você tem deixado sua Mãe armá-la sozinha). Não quis acordar-te e por isso, estou deixando este bilhete. Preciso te dizer que você é o escolhido. Dentre tantos outros jovens de sua idade a estrela polar me levou até você. Por algum motivo que desconhecemos.

Há 121 anos, eu tinha a sua idade. Recebi um presente natalino dentro de um saco cor de luar. Não acreditei quando vi, pois não era comum receber punhais de presente. Fiquei assustado. Não entendi absolutamente nada. O bilhete, entretanto, me explicava tudo. Eu era o escolhido. Nos cinco dias que se passaram eu tomei a decisão mais importante de toda a minha existência. Eu Abri mão da vida que levava. Deixei até mesmo minha família pra trás para que o destino pudesse ser cumprido. Tudo pelo bem maior, como havia escrito no bilhete. Eu sabia o que fazer com o punhal. E fiz.

Esses 121 anos foram de extrema felicidade e realização para mim. Nunca me arrependi de ter feito essa escolha. Mas agora minha alma precisa partir. Você deve ocupar meu lugar. Não se assuste assim. No fundo, você ainda acredita. Sabe que eu sou real. Você sabe o que fazer com o punhal e tem cinco dias para pensar. O destino te concedeu uma dádiva muito grande, Maurício. Essa é a sua missão. Mantenha a fé. Seja corajoso. Pelo bem maior.

Papai Noel.

Maurício terminou de ler, sua cabeça e seu estômago o golpeavam com pontadas violentas.
Ele? O escolhido? por quê? Foi até cozinha, bebeu água. Respirou findo. Já sabia o que fazer. Aquilo não poderia ser brincadeira. Ele nunca deixou de acreditar mesmo. Manteria a fé.

Os cincos dias passaram muito rápido. A decisão de Maurício já estava tomada, mas ele gostaria de passar mais um tempinho com a família. Só sentia medo quando se lembrava da dor que eles sentiriam.

Especialmente sua Mãe. Mas pensava no bilhete: pelo bem maior e logo a coragem voltava. Era ano novo, o pretexto perfeito para Maurício abraçar e beijar todos sem parecer que fosse uma despedida.

Depois das 00:00hrs, ele se refugiou em seu quarto. Pegou o saco que estava embaixo de sua cama, tirou de dentro o bilhete e o punhal. Leu mais uma vez, respirou fundo. Não havia dúvidas. Era mesmo o destino dele.

– Pelo bem maior – Disse em voz alta e cravou o punhal na garganta.

A dor foi intensa, houve sangue, e o grito cortante de Maurício ecoou por toda a casa.

De repente, uma fumaça preta começou a devorar todo o quarto e duas criaturas de aparências repugnantes apareceram dela. Elas carregavam pequenos chifres na cabeça e exalavam um cheiro muito forte de enxofre. Riam descontroladamente enquanto dançavam ao redor de Maurício que a essa altura estava ajoelhado no chão, com as duas mãos na garganta tentando inutilmente estancar o sangue que já havia se espalhado piso do quarto.

– Como você pôde acreditar?! – Zombou uma das criaturas.

– Papai Noel não existe, pequeno tolinho! – Revelou a outra.

Maurício, então, se lembrou das duas vozes estranhas da noite de Natal. O ar começou a faltar, a dor tomou proporções desmedidas. Ele quis gritar por socorro, mas já era tarde, sua voz não saía. As vistas escureceram e então ele expirou.

O corpo de Maurício só foi encontrado no dia seguinte. Quando seu primo Fred entrou no quarto, havia muito sangue. Junto do corpo encontrava-se uma grande faca comum da cozinha de sua Mãe. O punhal havia desaparecido, assim como o bilhete. Nunca se soube o real motivo de tamanha desgraça.

Para Maurício uma lição: O inferno não é o Pólo norte.

Biografia
Estudante de Letras Vernáculas. Baiano. 19 anos. Apaixonado por Literatura, Música e Teatro. Filho de Apolo.
Dono do blog O pierrot.
http://odocepierrot.blogspot.com.br/


O pinheiro de natal por Rui Sampaio.

Em uma noite muito feliz nasceu o pequeno rei chamado Jesus. O menino havia nascido no meio das vacas, ovelhas e cavalos em um lugar chamado “estábulo”. O pequeno rei que acabava de nascer dormia nos braços da sua mãe Maria.

Naquela noite feliz em que Jesus vinha ao mundo ele fora visitado por três reis que lhe presentearam com ricos tesouros que haviam levado. Perto do estabulo tinha três arvores que viam o que acontecia ali, a mais alta delas teve uma ideia, ela também queria presentear Jesus.

A árvore mais alta das três era uma laranjeira. Ela estava repleta de laranjas e daria seus frutos de presente para o rei e todos aqueles que fossem lhe visitar. Ela julgava que seu presente seria o melhor de todos porque laranja era uma fruta saborosa e saudável.

A segunda arvore era um coqueiro. Além de seus frutos ele também iria dar de presente ao pequeno rei suas folhas enormes para Maria abanar Jesus e refresca-lo do calor. Faltava agora à terceira arvore dar o seu presente e as outras duas estavam doidas para saber o que seria.

A terceira arvore era um pinheiro. Ele era pequeno e frágil e achava que não tinha nada para dar ao rei Jesus. As outras duas arvores começaram a rir do pequeno pinheiro.

O pinheiro começou a chorar dizendo:

─ Eu não sou nada, não tenho nada para dar.

Então uma voz misteriosa disse para ele:

─ Eu sou o senhor da natureza e na minha criação nada é inútil, todos temos algo para dar.

─ Mas eu não sou tão pequeno e frágil.

─ Você é mais forte do que pensa, basta acreditar.

O pequeno pinheiro começou a pensar no que o Senhor da Natureza tinha lhe dito. Ela queria ser útil em alguma coisa, ter algo para dar e em pensamento começou a pedir a ajuda do Senhor da Natureza.

Na outra noite o pinheiro teve uma surpresa. O pequeno pinheiro estava enorme e forte, seus galhos resistiam à neve que caia e enfeitava a árvore. Depois várias estrelas começaram a descer do céu e a maior delas ficou no topo do pinheiro deixando ele todo iluminado.

O menino Jesus que acabava de acordar enxergava algo brilhando próximo ao estábulo e começou a se mexer sorrindo no colo da mãe. O sorriso no rosto e o brilho no olhar de Jesus foi o maior presente que alguém poderia lhe dar.

O pinheiro é uma árvore que consegue resistir ao frio e até hoje é lembrada como a árvore de natal. A história do pinheiro de natal mostrou que todos na natureza são importantes, todos temos algo para dar e temos o nosso lugar na natureza, as outras duas árvores que riram do amigo aprenderam uma lição muito importante: os últimos serão os primeiros.

Biografia
Tenho 20 anos, sou estudante de LETRAS na Faculdade Regional do Cariri (URCA), escrevo desde os oito anos de idade, faço poesias, poemas, contos, romance, quadrinhos, artigos, mensagens, e composições musicais. Resido na cidade de Missão Velha - CE e nasci em Juazeiro do Norte.
http://ruisampaioln.blogspot.com.br/


Créditos da imagem: olhares.pt
Natal, por Karina Bertoncini

2 comentários:

  1. Eita, três nordestinos arretados ! Gostei demais dos contos de vocês galera (Matheus Lima e Rui Sampaio). Espero que tenham gostado do meu, e os demais leitores também tenham gostado da nossa escrita ! Grande abraço !

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