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De Saco em Saco de Sal



Conto de Melissa Pontes.


A esperança dela durou dois sacos de sal. Não se sabe se de um quilo ou de dois, cada um. O certo é que só durou isso: dois sacos de sal.

A incerteza dele induziu a certeza dela. Não haveria mais casamento. Nunca houve, pensou ela, querendo ser destemida. Ele saiu, e ela começou a limpar tudo. Limpou alma e os vãos. Convencida de que valia circular as coisas, providenciou as vendas. Fez bazar, vendeu o enxoval. O que seria uma festa virou um carro novo.

Ficaram, por último, as alianças do noivado-indecisão (ele a deixou com o par). Certamente eram as peças de maior dificuldade de venda. Não de compra, de venda. Seria difícil pra ela o desfazimento. Encorajou-se e enfiou o par num envelope. Saiu de carro com destino a Surubim, interior de Pernambuco. Vendeu o par por duzentos reais. Deu uma risadinha somente por ter feito uma maldadezinha: entregar todo aquele ouro por duzentos. Para ela, o valor não estava em quanto podiam pagar. Ela queria enfim, desvalorizar o momento.

Depois da venda (alianças cimentadas), permitiu-se o silêncio. Silenciou para si e para o mundo. Ele fazia parte do mundo, e recebeu o silêncio dela. E o silêncio a ele fez ausência; e a ausência fez-lhe estima. Agora ela lhe tinha valor. Agora ela lhe era o amor.

Ele Despertou! Correu e comprou rosas. Perfumou-se e declarou (o amor e a intenção). Imperava casar-se com ela. Almejava enxoval e festa, fingindo não viver um “dejá vu”.

Ah, a esperança, essa desgraçada... a fez sair de casa pra comprar mais sacos de sal, quantos quilos fossem necessários.



Biografia
Melissa Pontes, aspirante a escritora, nasceu em Recife, em 28 de setembro de 1977, e mora na mesma cidade. É cientista da computação, e apaixonada por livros. Tomou gosto pela leitura na infância, decorrência das histórias em quadrinhos que seu pai lia na hora de dormir. De tanto ler, aprendeu a falar e escrever. Atualmente é professora, palestrante e autora de artigos nacionais e internacionais, mas restritos a sua área de formação. Em busca de expansão de horizontes, e por necessidade de expressão, anda escrevendo mais; mas agora, coisas da vida. Frequentemente revive o passado: lendo histórias para seu filho, na hora de dormir.

Escreveu um microconto que foi publicado em uma coletânea pelo 2º Concurso Literário de Microcontos de Humor de Piracicaba.

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Créditos da imagem: olhares.pt
Aliança, por Gustavo

2 comentários:

  1. Sempre acreditei em suas palavras Melissa Pontes. Continua desse jeito que vc vai longe ;)

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  2. Um conto ao mesmo tempo inquietante e contemplativo, com palavras simples, mas muito bem redigido! Parabéns, meu amor!

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