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O apocalipse





Crônica, por Mariana Collares.


Nada de suprimir etapas na existência. O mundo não vai acabar amanhã. E mesmo que acabe, quero que me pegue de surpresa.

Tudo bem, temos o “Apocalipse de São João” e temos o “Código Da Vinci” e “tsunamis” e guerras e martírios.

Desde que o mundo é mundo vivemos um luto precipitado.

Porque desde que Nostradamus previu o fim dos tempos não paramos mais de nos preparar para o final.

E depois não sabemos porque há tanta neurose e paranoia no mundo moderno. Porque gastamos tanto com anti-depressivos e terapias alternativas, e porque a religiosidade anda travestida de superstição.

Ligamos a TV que, quando nasceu, era um aparelho que deveria nos divertir, e hoje pasmamos à frente de tanta violência.

Todo mundo morre de maneira trágica, mais doenças que curas, acidentes naturais, atropelamentos, sangue, roubos e seqüestros, falta de ética, falta de imaginação.

Tudo denuncia o fim próximo.

E depois querem que nos esforcemos para nos sentirmos felizes vendo um comercial de margarina onde tudo é amarelinho e a vida tem mais ternura.

Abre-se um jornal e na primeira página está lá: a velhinha foi morta quando dava comida aos passarinhos.

É o fim do mundo!

Devíamos parar de assistir TV e nos rebelar contra um mundo que não dá certo e que insiste em nos mostrar o seu pior lado. Os jornais só são sensacionalistas porque o terror vende.

Chega de torres que caem, de acordos de paz infrutíferos, de guerra bacteriológica. Alguém neste largo mundo deve morrer de idade...

Minha avó tem 90 anos e teve uma vida digna. Com trabalho, com esforço, até com cansaço. Teve doença, teve amor e filhos e deixará o mundo, no dia do seu apocalipse, de bem com a vida porque viveu cada dia no mais absoluto cotidiano. Mas isso não se noticia.

Deixemos o apocalipse para o fim dos tempos!

E enquanto ele não vem, proponho vivermos o juízo inicial.




Foto: Mariana Collares

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