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Quase tudo sobre minha mãe



Conto de Gil Rosza

De tanto falarem, parece que o tal dia, enfim havia chegado. Todos na família a tinham advertido sobre os perigos de uma viúva de 70 anos morar sozinha num casarão localizado na rua mais deserta do Alto de Pinheiros. Os conselhos afirmavam que o melhor seria trocar aquela casa imensa por um apartamento menor em Higienópolis, para ficar bem mais perto da proteção dos filhos. Sempre que ouvia isso, ela dizia apenas que pensaria e não tocava mais no assunto.

Na madrugada os barulhos continuavam no andar térreo, por isso, ela saiu cama e se arrastou até a parede de fundo do quarto. Sem acender as luzes, tateou a bolsa a procura do telefone celular. Como tudo some nessas horas, nada achou. Pela proximidade dos barulhos, calculou que não demoraria até o quarto ser invadido. Ainda se arrastando, foi até o closet e manteve a porta recostada o suficiente para que pudesse pressentir qualquer movimentação vinda do corredor.

Repentinamente, todo o ambiente ficou impregnado por uma luz esverdeada enquanto uma parte significativa da massa encefálica daquele que parecia ser o mais barulhento, formou uma curiosa estrutura abstrata que ao ser impressa na parede logo atrás dele, escorreu errática e vagarosamente até o rodapé. Não houve tempo para o segundo invasor demonstrar qualquer surpresa ou reação que pudesse lhe poupar a vida já que o segundo disparo fez surgir outra pintura abstrata, desta vez, no peito do que parecia ser o mais cauteloso deles. O impacto simplesmente o empurrou porta a fora.

Na cozinha, enquanto aguardava a chegada da polícia, achou que seria bom preparar e servir um chá de camomila para o filho mais velho, que estava um pouco assustado, mas não menos curioso em saber os detalhes, sobre como mãe havia conseguido e aprendido usar o moderno equipamento de visão noturna, o silenciador e a Colt automática.


Crédito da imagem: inmagine.com

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