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Sorrisos e cinzas




Conto de Marcelo Sousa.

Ivan Orlov era o dono da casa. Vestia a casaca de urso cinzento, meio castanho, sujo mesmo. Adorava a sopa de batata doce temperada com vodka e cogumelos pretos. As botas o faziam andar como um boneco de filme de terror, pernas arcadas e abertas, passos largos, como que sempre estivesse com pressa mas tendo algo a lhe incomodar entre as coxas. Mas o rosto mantinha um semi-sorriso intrigante, era quase a face de um avô bonzinho, ou talvez um Tio Vanya.

No começo achei que estava muito louco, drogado, numa 'badtrip' regada a contos russos, mas minha carne doía de verdade, e aquele lugar fedia de verdade! A casa era iluminada por velas de sebo, feitas com a gordura dos cavalos que morriam de velhice ou pelos maus tratos do inverno e pelo chicote do mestre. O cheiro era horrível. No porão da casa nós mexíamos dois caldeirões enormes, com um fogo que jamais se apagava.

Alexei era meu amigo, trabalhava comigo na fábrica de velas do porão, era filho bastardo de Ivan com Ekateryna, empregada da casa desde os onze anos, morta aos dezessete. Dizem que um dia, bêbado de vodka feita na casa dos Yakovic com arroz podre e batatas mofadas, Ivan gozando na boca de sua criada, enfiou o membro tão fundo, e apertou-lhe o pescoço com tanta força, que ela primeiro mordeu-o, depois vomitou, e ainda com o pênis enorme em sua garganta e aquela mão gigantesca lhe apertando, ela enfim engoliu seu próprio vômito misturado ao esperma e ao sangue e morreu assim, engasgada, desfalecida, havia urinado e defecado na agonia da morte, estava fétida, a face esverdeada com manchas no rosto, e sangue e porra escorrendo pelo canto da boca. E Ivan, limpando a piroca mole e ensanguentada, grunhiu amaldiçoando a vadia, que lhe tinha mordido com força (espasmo derradeiro) e talvez tivesse inutilizado o membro maldito que a matara.

Ivan não nos olhava nos olhos. Olhava nosso rosto com uma habilidade incrível de jamais olhar os olhos de ninguém. Cossava entre as pernas fazendo uma cara retorcida e depois batia o pé esquerdo com força no chão, mania infalível que se repetia a cada cinco minutos.

Não lembro como fui parar ali, naquele maldito inferno nos confins de Vladivostok. Eu falava Inglês e Espanhol, o que pouco me adiantava naquele lugar. Minha última lembrança fora dali era Kriska, na Croácia. Estávamos num bar cheirando cocaína e tomando um vinho que me disseram ser de origem búlgara, doce, forte e enjoativo. Lembro do beco, o mundo girando, eu fodendo-a por trás, ela gemendo baixinho e fumando um cigarro fedorento que se misturava com a fumaça das nossas narinas e dos nossos gemidos. Estava tão frio que cada respiração nos fazia exalar uma bruma densa que demorava a se dissipar. E Kriska fumando e me chamando de negro maldito e me mandando enfiar com mais força, falando um Inglês engraçado e rude que me dava ainda mais tesão. Fodemos na rua, naquele beco, até que na terceira vez que havia gozado parei de sentir minhas pernas, ajoelhei, senti o chão molhado, alguma coisa parecida com uma gaze me tapou a boca e o nariz. Era um cheiro doce e pungente. Afoguei-me. Lembro de ter acordado brevemente, sem ver luz alguma. Chamei Kriska e recebi um golpe de cano de metal no maxilar. Devo ter perdido alguns dentes, e desmaiei de dor. O que resta de recordação é Ivan com sua barba ruiva, cinzenta nos cantos, me passando uma concha de sopa com um sorriso de papai-noel, e depois um copo de aguardente, aquela vodka intragável, que tomei de um gole só, como se fosse água. Depois, talvez dias depois, fui acordado com um bofetão na cara, e foi a primeira vez que vi Alexei, que estava me passando um pano sujo pra colocar na boca, estancar o sangue, fazendo gestos tolos, mímicas para se fazer entendido, enquanto Ivan Orlov caminhava pesado pra longe, fazendo ranger as taboas da casa e grunhindo para as velhas nas saletas subjacentes.

Tentei contar a Alexei quem eu era, brasileiro, executivo, poeta, fotógrafo, minha vida boa, meu ano sabático na Europa, as fodas deliciosas na Riviera Francesa, os prédios lindos de Praga, e Kriska, a deliciosa ruivinha croata que me apresentou as drogas e que só gostava que eu lhe comesse por trás e depois gozasse entre os seios duros e lindos, enquanto fumava um maldito cigarro preto, fedorento. Mas Alexei não entendia, e apenas me ensinava por gestos o que deveria fazer ali, recolher os pedaços de ossos, ainda com carnes penduradas, e jogar no caldeirão com um pó amarelo e algumas latas de óleo de peixe, pois há muito tempo já não chegava o carregamento de óleo de baleia, que deixava a mistura menos intragável e mais valiosa no mercado das cidades grandes.

Ivan jogava papéis e gravetos para mantermos o fogo vivo, enquanto um de nós ia ao bosque catar troncos secos. Quem trouxesse poucos troncos era punido com o chicote, mas era pior quando não havia punição, porque era sabido que Ivan gostava de trocar o chicote pelo seu membro desfigurado, torto, com uma cicatriz enorme, e que ficava meio duro e meio mole, e era oferecido como redenção ao mal catador de gravetos. Aprendi o russo de Orlov e de Alexei, e sabia que ele sorria no meio do quarto com quatro camas, quando ainda de pé, as calças abaixadas, dizia com um sorriso de avô bonachão: "Chupa, menino. Chupa direitinho. Eu te perdoo!"

Aprendi a pegar lenha de sobra, guardá-la e indicar a Alexei onde encontrar, pra não sofrer mais as punições do seu pai. Aliás, nem sei se era mesmo seu pai, pois a história me havia sido contada por Sergy, que morreu de tuberculose no inverno anterior.

Eu vivia ali sem saber o que havia acontecido com o mundo, até que aprendi a ler os rasgos de papel que queimávamos, e perguntava a Alexei o que eram aquelas coisas, e ele dizia que era besteira, política, viagens, mas eu insistia. O trem! Alexei, eu já vi passar aqui o trem! Eu vou-me embora no trem! E ele me olhava com medo, mas com os olhos brilhando. Não estávamos acorrentados, poderíamos fugir à vontade. Mas Alexei me contava sobre os lobos e sobre os lagos congelados, traiçoeiros, cediam ao pouso de uma pomba, jamais aguentariam um homem a correr.

Mas eu queria o trem. Ele passava devagar. Parecia uma lesma bafejando fumaça! Por isso passei meses a observar os horários e dias do trem, e a marcar mentalmente onde eram os limites do riacho e traçando o contorno invisível do lago congelado. Depois de alguns meses eu podia identificar, pelas matizes de branco no chão, onde era terra firme e onde era alçapão, armadilha de água mortalmente gelada.

- Alexei! Vou embora! Terça-feira é dia do trem!

- Niet! Niet! Marcelo, spasiba!

- Se quiser vir, que venha, ou não atrapalhe!

Ele calou, fitando meus olhos no escuro. Era sempre noite, penumbra, naquela casa esquecida por Deus, onde um Cristo de alabastro, cego e surdo, pendurava-se numa porta que jamais se abria. E era estranho ter um objeto religioso em terras comunistas, mas aquilo já não me importava. Maldito ano sabático! Maldita Kriska! Maldito inferno russo!

Na tarde da terça-feira, enquanto Orlov jogava com a pá os ossos pelo buraco que dava na nossa sala de trabalho, que nos servia também de quarto e latrina, eu fugi pelo buraco do outro lado. Havia feito luvas de couro de cavalo, pegajosas, mas quentes. E trapos e carnes enfiadas por dentro da roupa. E esfregava chumaços de alecrim sob o nariz, evitando vomitar com o cheiro insidioso do meu próprio corpo. Corri, corri muito, o quando a neve me deixava. E depois de alguns minutos vi Alexei vindo também, e já estávamos no solo liso. Eram as terras sobre o grande lago.

Eu aprendi a correr sobre as partes brancas mais foscas, era gelo forte. Partes brilhantes e parecidas com vidro eram armadilhas letais.

Ivan Orlov não tardou a perceber a fuga, mas soltou os cães tardiamente, pois confiava que o lago nos engoliria mais cedo que pensávamos. Até as bestas sabiam que não era mais trabalho deles perseguir-nos no gelo fino do lago, e apenas trotavam cheirando o ar denso e frio e seguindo como quem espera encontrar corpos gelados com carrancas de horror sob o ataque da lâmina fria da morte. Já estávamos mortos mesmo.

Mas eu corria, e corri mais quando vi os trilhos. Estávamos à salvo. Sentamos numa pedra e esperamos. Mas Alexei tossia sangue, e eu já não entendia o russo que ele dizia, sibilando entre golfadas de sangue preto, com pedaços marrons que pareciam carne morta. Ele estava doente. Mortalmente, pobre diabo. Dei-lhe carne de cavalo congelada, que ele chupou até virar um sebo parecido com chiclete. E mascamos como fosse um ossobuco servido em Torino.

Avistamos a figura de Ivan ao mesmo tempo que vimos o trem. Eu entendi perfeitamente quando Alexei me disse pra deixá-lo ali. Que Ivan teria misericòrdia. Mas vi que Alexei trazia uma corda entre seus badulaques. Então amarrei-lhe na cintura uma ponta, e a outra levei presa ao meu braço e ombro, como fazem os alpinistas e bombeiros.

O trem chegava, e Ivam também. Começamos a correr. Alexei tinha os olhos esbugalhados e gritava coisas que eu não entendia, mas identificava como preces russas antigas e xingamentos e maldições. Foi quando o trem passou e eu agarrei uma empunhadura da porta, e puxei outra manopla, e firmei o pé direito, depois o esquerdo, e Alexei deixou-se cair. Estava sendo arrastado. Vi quando o pedaço do rosto foi vazado por uma pedra, e um olho escorreu pela cara ensanguentada.

Eu gritava a ele para ter coragem, mas ele já não falava. Era um boneco, que fui puxando pra mim. Havia esperança. Eu puxava e gritava seu nome. Alexei! Alexei! E nunca falei russo tão bem na vida. Dava-lhe esperanças e pedia que acordasse. Dizia aquele nome com o sotaque da região, que em nada se parece com essa excrecência que rabisco agora em minha língua pátria. Alexei! Ah, Alexei... Foi quando o vi acordar, mexer um braço, puxar o canivete e cortar a corda com suas últimas forças. O corpo ensanguentado foi se afastando, ficando para trás, e Ivan chegando a ele, enorme sobre os escombros do meu único amigo. E ainda pude vê-los através da bruma, Ivan, gigante, carregando Alexei nos braços. O trem afastava-se lentamente, era uma serpente machucada, pesada, carregando o destino do mundo em suas costas.

O trem chegou até a Rússia, onde procurei meu consulado. Recebi roupas, mas minha história não foi acreditada. Deram-me calmantes por dias e dias, e depois de dois meses trancado num quarto sem janela, deitado e amarrado numa cama, tomando sopa de legumes e costela de porco cozida, deram-me alta, e papéis, e me puseram no aeroporto, num voo da Lufthansa, via Frankfurt, Daccar, e enfim Guarulhos e depois Rio de Janeiro.

Estava com uma barba grossa, a cara magra, os movimentos de um velho mendigo, apesar das roupas novas, do terno bem alinhado que me deram na embaixada. Eu não lembrava onde era minha casa, e dormi no aeroporto por dois dias, até ser expulso por um guarda. Peguei carona num ônibus, andei pelos confins da Ilha do Governador, depois fui cruzando pontes e viadutos, andei às margens da Avenida Brasil, esmolei, andei, esmolei, fazia minhas necessidades na rua, dormia na rua, fui assaltado e surrado por outros mendigos, levaram-me as roupas, deixando-me aos trapos. Andei pelas ruas do centro por três dias, semi-nu, somente as calças e uma camiseta que achara no lixo.

Um dia, sentado entre meninos de rua, esquentando as mãos numa fogueira de lixo, avistei num ônibus uma figura conhecida, um cavalo alado pintado na lateral de alumínio: Pégasus. Lembrei-me de tudo, minha casa, minha infância... Puxei um maço de dinheiro de esmolas que tinha no bolso e subi no ônibus, sem olhar nos olhos do motorista nem perguntar se o que tinha era o suficiente para a passagem. E no caminho fui lembrando de tudo, minha terra, meus amigos, e os onze meses em Vladivostok ficaram em meu subconsciente, enterrados, e apareciam apenas quando a febre e a dor de cabeça eram fortes demais, e porque ninguém entendia russo, tratavam-me como um semi-louco, mas pouco perigoso, apenas um paciente convulsivo a quem bastava acorrentar à cama nos momentos de terror, quando tremores e suores gelados tomavam meu corpo, e eu cantava as antigas músicas dos escravos brancos do truculento Senhor Orlov.

Quanto à Alexei, não sei se sobreviveu. O olho vazado e escorrido, a cara mastigada pelo solo congelado até aparecer os ossos da bochecha, o corpo levado de volta para o bunker de Ivan, e as velas de sebo nos moldes de cobre, as matronas da casa cozinhando repolho, e a crueza daquela língua que só o demônio entendia. Só o demônio e nós, caídos nos confins dos infernos. Pobre Alexei em seu inferno branco e gelado. Que Deus tenha tido pena dele, e deixado-o morrer na neve suja de fuligem e sangue, naquele dia que ficou tatuado em minha memória profunda, aquela memória-magma que borbulha quente quando o subconsciente quer gritar!

Essa história eu nunca tive coragem de contar a ninguém, e com o tempo, eu mesmo já não sei se tudo aquilo aconteceu mesmo ou não. Minha mãe, morta, não me consolou. Meu pai, bruto e ausente, limitou-se a dar-me teto e comida. Aceitou de volta o filho pródigo, sem perguntas. E eu segui em frente, achei emprego, ocupação, mulher, e vida a seguir.

Hoje sou um sobrevivente. Gasto demais, queimo meu dinheiro como se não houvesse o nascer do sol de outro dia, mas lembro ainda que entre sorrisos e cinzas existe um inferno particular, onde há espaço para os olhares embotados pelas cinzas dos ossos, do sebo, da vida que se esvai dando pistas de horizontes azuis e vermelhos, onde um trem, num dia qualquer, ainda pode nos salvar.


Créditos da image: olhares.pt
Um Trem para o Passado, por Gilberto Dutra

Um comentário:

  1. Primeiro texto que leio do autor. Muito, muito bom. Parabéns!

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