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A paisagem da janela



Conto de Deanna Ribeiro.

Como eu gostava daquela janela entre a sala e a varanda! Grande, de contornos brancos, com puxador de ferro e um ferrolho delicado; cabia direitinho dentro dela, quando encostava em um de seus lados. Podia ficar horas ali, até as coxas serem marcadas pelo vão corrediço da base. E marcavam, mas não doía. De um lado, a mesa de jantar redonda, de madeira clara, por onde eu subia para alcançá-la. Do outro, o terraço com sua meia grade em que eu gostava de debruçar, para desespero dos meus pais.

Guardo dela uma lembrança viva: cores, texturas, odores e sons flutuando no ar. Sou capaz de percorrer imaginativamente cada pedaço da paisagem que dela se via: a goiabeira levemente desfolhada, o corredor gigante do prédio da frente, a antena de telefones que parecia um E.T. , o telhado envelhecido da casa ao lado, as árvores ao longe e o sol, de manhãzinha, saindo entre as folhagens.

A quantas auroras assisti daquele vão quadrado por onde o vento entrava para bagunçar meus já desorganizados cabelos! Não sei exatamente que efeito isso exercia sobre meus olhos infantis, mas imprimiu-se na memória. Acordava cedinho, enchia um copo com leite gelado e açúcar, abria a janela e lá sentava para ver o espetáculo dos raios amarelo-alaranjados da aurora. N’outras vezes, brincava de casinha no terraço, e ela fazia a divisória da minha casa com a da vizinha imaginária - na sala - com quem eu conversava minutos a fio sem cansar.

Penso naquela janela com carinho quase fraternal, um sentimento pulsante, de saudade talvez do tempo que ela representa; ou das coisas vividas; ou das ainda não vividas até aquele momento. Saudade da inocência, das brincadeiras, do riso largo, da grande responsabilidade que era ter de tomar banho para ir à escola, almoçar e, na volta, fazer a tarefa. Minhas reflexões pueris nasciam ali: na janela. Ou ali se criavam, tomavam asas e saíam pelo vão cantando.

Anos mais tarde, passei em frente ao prédio onde vivi por quase dez anos e vi que minha janela não existia mais. O novo morador havia reformado o apartamento e derrubado a parede onde ela se abrigava - para ganhar mais espaço e perder a varanda. Tudo agora era apenas uma sala; com uma nova janela toda gradeada: triste e morta – sem sua função de janela. O vento que por ali entra, certamente, não tem o mesmo cheiro, a mesma intensidade, o mesmo som.

Ninguém mais pode ali sentar-se. Ninguém tem mais suas pernas marcadas pelo vão corrediço; o sol nasce, então, todo listrado, fragmentando o espetáculo amarelo-alaranjado de todas as manhãs. Tudo se quebrou, inclusive o meu sonho de vê-la de novo e sentir os sabores da infância me tomarem a alma.

Sei: o vento que hoje pela janela entra não mais bagunça cabelos já desorganizados. E isso basta.

2 comentários:

  1. soa como uma crônica das mutações inevitáveis da cidade, e das nossas rotinas. . .

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  2. Pois é, Maurem, essas mudanças às quais nunca me acostumo.

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