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Contos Fantásticos: Mundos Pós-Apocalípticos


Pequena antologia de Contos Fantásticos, selecionados Liliana Novais.

Esta é a primeira edição deste ano. O tema escolhido foi Mundos Pós-Apocalípticos. Estava ansiosa por ler os vossos mundos e o que aconteceriam. O fim do mundo é um tema muito falado, quer nas redes sociais quer nas notícias. Há sempre previsões e diferentes formas deste acabar. E quando a data prevista chega e passa, novas teorias surgem.

Desta vez trago-vos três textos para apreciarem. Espero que gostem e parabéns aos autores, pelas suas ideias e pelo trabalho. Muito obrigada pelas submissões.

O tema da próxima edição será o famoso Carnaval. O que aconteceria se no meio do corso ocorresse um duelo de magos ou se um ogre gigante entrasse no meio do carnaval a dançar com as baianas. E tantas outras ideias que podem ser exploradas, deixo a vossa imaginação voar livre.

Tema de fevereiro: Carnaval. Saiba como enviar.



A SOBREVIVENTE (Porque o medo não é dele acabar, é de continuar do jeito que está) de Alex Costa

Dia 22 de dezembro de 2012. Nem sei pra que estou escrevendo esta carta, já que fui a única sobrevivente da terra. Tudo aconteceu muito rápido, nem tive tempo ao menos de me maquiar, e cá estou eu, horrível. Primeiro um grande baque na parte superior do meu triplex, depois disso o mundo parece que ficou surdo, eu não ouvia nada. Fui levantando devagar e quando vi estava no meio do nada, dentro do meu quarto, mas no meio do nada. Estava até agora chorando, pois infelizmente perdi minha poodle, e meu segundo volume de '50 tons de cinza' ainda estava no quarto da minha mãe, realmente uma tragédia.

Na droga do minibar que está aqui dentro do meu quarto só tem pudim, bolo de cenoura, três garrafas de água (que nem é voss) e duas tortas salgadas que minha mãe pediu pra Zélia pôr aqui pra mim; ai que saco cara, nada pra comer ! Não, e sem falar que estou quase sem roupa, pois só me sobraram 3 vestidos, 2 calças, 7 blusinhas básicas e 4 pares de sandálias que por acaso estavam aqui por cima da minha cama, não sei como vou viver desse jeito!

De início não acreditei muito nessa história de final de mundo, mas parece que aconteceu de verdade, e o pior, fiquei só! Se ao menos a Patty tivesse ficado aqui comigo, ou a Jenny, ou a Carol... mas que nada, fiquei só. Ainda não saí pra ver se sobrou mais alguém, mas acho que não sobrou, e além do mais, se tiver sobrado também não me importa, porque ô povinho mais cafuçu são esses meus vizinhos viu! Ninguém merece!

Mas sabe, acho que tem um lado bom nisso! É que agora estou sozinha aqui e posso refazer a humanidade tudo de novo, sozinha! Ai não, pra reproduzir preciso de um homem, aff, que saaaaco! Se ao menos o Carlinhos tivesse aqui, seríamos o casal perfeito. Nossos filhos seriam lindos como nós e poderíamos fazer o que quiséssemos, jogar papel no chão, arrotar bem alto, desperdiçar toda a água que é toda nossa, e depois pegar todo o lixo e jogar pra cima, e deixar lá, que tuuuudo!

Pensando por outro lado, esse fim de mundo até que veio calhar bem sabe, porque agora estou tendo várias idéias de como posso fazer o 'meu mundo', não sei como irei fazer se não encontrar alguém que me ajude, mas irei fazer mesmo assim, sei que posso fazer sozinha.

É isso ai, daqui à alguns anos serei tipo, meeeeeeeega reconhecida e todos irão falar de mim, daí quero só ver se o Juninho Mickler não ia querer ficar comigo, iria sim, aposto ! Ai, se caso encontrarem esta carta daqui à alguns anos, sei que ela valerá milhaaaaaares de dólares, mas por favor doem a um museu ou zoológico, todos precisam saber quem foi 'Shirley Estrogler Mickler', a diva ! Indo me arrumar aqui e...

Biografia:
Alex Bezerra Costa, 19 anos, residente da cidade de Fortaleza/Ce.
Estudante o curso de Letras/Português da Universidade Estadual do Ceará.
Até o momento, tem um texto publicado em uma antologia de contos 'Magia e Encantamento' da camara brasileira de jovens escritores (cbje), conto este nomeado 'A morte de Heloísa’ e uma publicação também no Benfazeja com o conto fantástico "In Memoriam", na edição de dezembro de 2012.




Adão e Eva de José Eduardo Umbelino

I

Em dois aspectos os profetas do século XXI erraram a respeito do fim do mundo. Não os culpo, eles pensavam dentro dos moldes de sua época – assim como João pensou o apocalipse com os mesmos cavaleiros e espadas com que Herodes dizimou seus desafetos. Os homens do século XXI tinham especial fetiche pela destruição do mundo; gostavam de imaginá-la com todas as cores, e se compraziam com ela, compartilhavam-na como a uma boa-nova. Por isso não acredito que seriam capazes de imaginar o que realmente aconteceu.

O primeiro erro dos profetas do século XXI foi prever o apocalipse como um evento catastrófico, surpreendente, aterrador. Talvez, no fundo, seus grandes egos só suportassem a ideia de que se extinguiriam de modo espetacular. Num espetáculo épico de luz e explosões, bem condizente com a importância que os homens, naquela época, davam a si mesmos. Nunca profetizariam que o fim do mundo seria monótono e lento. Que se estenderia por anos a fio, impassivelmente – um dia após o outro, um minuto depois do outro. Não houve terremotos nem tsunamis; meteoro algum atingiu o planeta; nenhum exército alienígena manchou o céu; nem a guerra total manchou o chão; nenhuma bomba atômica explodiu; nenhuma epidemia devastadora transformou homens em zumbis. Não houve a ira de Deus. Não houve a vingança da Terra. Não houve o dia do juízo final. O apocalipse se iniciou numa manhã de sol, tímido como o desabrochar de uma flor, e terminou numa tarde cinzenta, sem que o universo percebesse sua passagem.

O segundo erro dos profetas foi achar que o fim do mundo seria causado pela tecnologia, ou por algo relacionado a ela. Novamente, o espírito da época cegava o discernimento. Por algum motivo, aquelas civilizações relacionaram o futuro com o desenvolvimento tecnológico – e imaginavam tempos vindouros repletos de máquinas, robôs, supercomputadores, viagens espaciais. Como um poeta ruim que acha genial o próprio poema , os homens estavam apaixonados pelas próprias criações. Uns se gabavam, outros se lastimavam, mas todos acreditavam na ilusão de que já eram capazes de destruir a Natureza. Como se a destruição das condições para a vida humana significasse a destruição da própria Natureza, e não da Humanidade. Mas não os culpo. Os tempos eram outros. A tecnologia teve um papel irrelevante no apocalipse. Os homens já h aviam criado muitas coisas boas – redes de comunicação mundial, meios de transporte inacreditáveis, remédios para retardar a velhice – nada disso impediu o fim. Também já haviam criado muitas coisas ruins – armas infalíveis, mísseis inteligentes, processos de submissão psicológica – nada disso causou o fim. Eles não previram, não poderiam prever, que o fim do mundo seria causado por um pensamento. Um simples pensamento.

II

Ninguém sabe como um pensamento surge e nem como se espalha. Pode se assemelhar a um vírus; mas não tem forma, nem cura, nem sintomas. Não se manifesta diretamente, mas gera outras coisas – um pensamento gera um livro, uma frase de comando, um gesto, uma percepção. O pensamento que resultou no fim dos homens surgiu assim. Em silêncio, instalou-se na mente conturbada de Mr. Jonh Halloway, um alto executivo de uma multinacional norte-americana. Ele estava em seu escritório, atendendo a um telefonema, quando de repente parou. Observou a cidade através da janela, e o computador moderníssimo em sua mesa. Na linha, um importante acionista europeu continuava falando, mas mr. Jonh havia se esquecido dele. Pensou em sua vida, nos bens que conquistara, nas praias do Caribe, no carro esportivo, na esposa de peitos novos, e se perguntou: “Qual a razão de tudo isso?”. Mr. Jonh não consegui u encontrar resposta. Os motivos que o levaram aonde ele havia chegado não tinham mais o menor sentido. Ele desligou o telefone e se sentou no chão – a boca aberta, os olhos calmos. Havia percebido.

Longe dali, num país dos trópicos, milhares de pessoas gritavam em uníssono. Estavam em um estádio abarrotado, diante das finais de um campeonato de futebol. Como um organismo vivo, a torcida pulsava, gritava, enchia o ar de fumaça e suor. No campo, um jogador rouba a bola e corre em linha reta, toda a sua energia fixa no ponto à frente. Mas, de repente, pára. Olha para o gol, para o goleiro com suas luvas, para o céu. Para quê chutar a bola naquele retângulo? Por quê ficar feliz com aquilo? De súbito, faz-se enorme silêncio no estádio – como quando uma onda suga a areia da praia ao retornar para o mar. Um homem pintado de preto e branco olha para o colega ao lado, sem conseguir entender por quê estava tão eufórico – por quê gritava? O que significaria para ele o contato de uma bola com uma rede? Cinquenta mil pessoas repentinamente não sa bem mais por quê estão juntas. Lembram-se de terem comprado os ingressos, de terem se vestido e se preparado para o jogo. Entendem por quê chegaram até ali. Mas, de repente, não parece fazer sentido algum.

O pastor da igreja abre e fecha a Bíblia repetidas vezes. À sua frente, uma multidão de fiéis olha atônita. Até pouco, oravam, mas, e agora? O pastor lê em voz alta um versículo – as palavras não parecem mais importantes que quaisquer outras. Mais importantes que as palavras numa revista de fofocas ou numa placa de informações. Aquele livro nã lhe parece diferente de qualquer outro livro. E na TV, a entrevistada descobre, surpresa, que não quer saber nada sobre o entrevistado. E o entrevistado, aturdido, não entende para quê responder a qualquer.

Assim se iniciou o fim do mundo. Com a devastação do que existia dentro, e não do que havia fora. Lentamente, as razões pelas quais viviam as pessoas foram deixando de fazer sentido. As respostas para as perguntas da vida desfilavam como construções de brinquedo, como pano de fundo em cenários de teatro. E os homens caíram atônitos, aturdidos, a olhar um mundo que não tinha por quê. Alguns morreram de inanição – e não por falta do que comer. Outros, de sede. A maioria, incapaz de lidar com o vazio, jogou-se do alto dos prédios. Outros, mais fortes, recolheram-se e, vivendo do estritamente essencial, esperaram a velhice os levar – sem nada mais construir, nada mais contestar, nada mais pensar. Morreram sem tristeza nem soluços. Como o pensamento não atingiu a todos imediatamente, assistiu-se a um processo muito lento; enquanto alguns países co ntinuavam a crescer, outros desapareciam. Por duzentos anos resistiu a Humanidade minguante. Até que o tempo parou de ser contado, e as guerras deixaram de ser perdidas ou vencidas, e as notícias pararam de circular. O último pensador daquela triste era disse, em seu leito de morte: “ A Humanidade, que surgiu na água , ao final se tornou pedra.”

III

Há do lado de fora da choupana um cenário pós-apocalíptico. A cidade tomada por mato assume seu caráter mineral – não são mais prédios, são cavernas. Não são estradas, são longas faixas de rocha. E nada se parece com ruínas; posto que não o sejam – ruínas existem daquilo que foi destruído ou abandonado e nenhuma das duas coisas ocorreu. Intacta, ainda que velha e carcomida, a cidade é como uma fruta esquecida no fundo do armário – transformou-se em bicho. Pela janela da choupana, o último homem e a última mulher não sabem diferenciar a cidade da floresta. Eles foram os últimos a ser visitados pelo pensamento. É possível que fossem menos cultos que os demais, ou menos atinados às coisas – é possível que fossem mais tolos, mas nada disso pode ser provado. O sentido de nacionalidade havia se perdido, por isso já não sabiam se eram chineses ou brasileiros. O sentido de gênero fora outro que desaparecera – o que era ser homem ou mulher? O sentido de fé, de Deus, da crença no futuro, era o que os mantinha vivos. Mas um dia acordaram e perceberam que não havia Deus, ou fé, ou futuro. Nem homens mais havia, nem igrejas ou campos de futebol – não havia mais governo, mais papa, mais atores de televisão. Não havia mais dinheiro. E não poderiam ser Adão e Eva, mesmo que fossem os último de sua espécie, pois não havia paraíso, e muito menos inocência. Eles sabiam de tudo. Olharam para o sol escaldante do verão e sabiam que era apenas o sol – não era nenhum tipo de Deus, não tinha vontade própria e não iria engolir a Terra. E o vazio os consumiu lentamente, sem nenhuma ficção.

Biografia:
Nascido em Goiânia, GO, em 1986. Jornalista por formação, escritor por destino. Ou por sacrifício. Tem um livro de poemas publicado e uma centena de outros guardados no armário. Atualmente, tenta se livrar de um mestrado em Comunicação pela universidade federal de Goiás.


Créditos da imagem: Olhares.pt
Apocalipse, por Sérgio espanhol

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