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primeiras vezes




Conto de Renato Essenfelder


Seguimos numa sucessão de espirais úmidas, sucessão de cirandas de brisa, de sorriso, lágrima, acaso, esforço, medo, delírio. Certeza. Sim [e sim]. Todos os dias uma escolha, a cada minuto, sobrepondo-se ao absurdo – tirando, meu amor, o absurdo para dançar.

Uma sucessão de primeiras vezes.

Sim, houve guerra dentro da gente, guerra permanente. Mas tateando no escuro encontrei a tua mão [a menina mais bonita segurou um dia a minha mão.] Avançamos sobre ladrilho, avançamos sobre pedra sobre mato sem parar até que em cada cova deitasse a terra orvalhada do nosso encontro. O grão do início do mundo.

Avançamos. E agora vem deitar no meu colo, ronronar macia, desfazendo-se das velhas tapeçarias empoeiradas. Nó por nó, ponto por ponto [até restar um fio apenas, amor, e tudo o que precisamos para deitar atrás o aterrador labirinto que se vai borrando à paisagem matutina, à luz do dia, que, avassaladora, vinga]. Como a semente, o grão, vinga em todos os poros de todos os bosques, canteiros, florestas, ladrilhos, intervalos e suspiros em que aramos nossa terra.

Deita e apaziguados olhamos para cima, nossos corpos nus feitos de terra, nossas mãos enraizadas n’extensões infinitas – vida que recomeça. Colados à terra, amor, escavamos mundos, brincamos fluxos; tempo fome comunhão descoberta.

Dividimos a nossa sede. Então farei-me enfim terra, húmus ansioso onde se vem debruçar folhas e pétalas.

Dia, lua, relâmpago, vento, orvalho-tempestade, a vida com você. Sucessão de primeiras vezes.


Créditos da imagem: olhares
húmus, por zÉDalOBa

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