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Hipocrisíacos



 Crônica, por Mariana Collares.

O mundo sofre de hipocrisia aguda, e não é de hoje. Meu país, a propósito, leva a fama, mas o gene da hipocrisia é imanente ao espirito humano. Então não adianta. Quando ativado, ludibria os sentidos mais básicos e, em suas piores manifestações, deixa à míngua qualquer possibilidade de auto-crítica.

É como um “Alzheimer” da ética. Vai pegando devagarinho, normalmente aparecendo logo após a infância, e dependendo de como o doente se deixa levar, a coisa pode assumir proporções catastróficas.

Hipocrisíacos só enxergam o alheio. Têm dificuldades de conviver com diferenças e possuem uma noção exagerada do que é bom senso.

Aliás, hipocrisíacos consideram-se, não sem exagero, o centro e a medida do valor de cada coisa.

Hipocrisíacos acreditam na doença, mas não nas manifestações dela, e por isso mesmo são hipócritas. Possuem vários pesos e medidas para cada fato, mas jamais utilizam tais parâmetros para julgar a si próprios. Aliás, julgamento sobra do nariz para fora, jamais para dentro.

Hipocrisíacos não convivem com críticas, dúvidas, manifestações de auto-conhecimento e conhecimento alheio. Têm dificuldades de lidar com a arte, sofrem de uma necessidade aguda de censurar protestos, conduzem programas e julgamentos com grandes índices de audiência, possuem uma “verve” para o teatro e fazem da inspiração a prostituta das Musas.
Gozam de um senso “moralizante” muito aguçado, e frequentemente flertam com o extremismo e a arrogância.

Adoram apontar, adoram o sectarismo, não se apegam às massas. Idolatram grandes interesses, que nada mais são do que os menores levados à maior proporção individualista possível.

Hipocrisíacos não amam. Não se compadecem. Não têm remédio. Têm fome.

O mundo vive a era da hipocrisia epidêmica. Ela está presente nas grandes como nas pequenas relações. Vai do geral ao individual em um segundo e mina qualquer possibilidade de entrega.

Hipocrisíacos não acreditam na morte.

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Créditos da imagem: olhares.com
Flavinha 2, por Letícia Frasão

Um comentário:

  1. Se os hipocrisíacos conseguissem avançar pelo menos um pouco como pessoas, de acordo com os rígidos padrões morais que querem impor àqueles que criticam, ao atingirem novos estágios de desenvolvimento pessoal deixariam de fustigar o chicote da maledicência como fazem. Se tivessem um pouco mais de compaixão, de capacidade de se ver no lugar dos outros, talvez ao invés da língua comprida e maliciosa, veriam-se impelidos a estender a mão que dá auxílio, ou dariam de si a palavra que ensina ou que conforta.

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