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Ausência



Crônica de Leila Krüger

Hoje me deixe com meu cobertor, meus livros e minhas coisas que eu vou morrer um pouco. Acho que estou te perdendo, e me perdendo também na tênue linha entre passado e futuro. Eu acho que não sei mais quem você é. Talvez porque eu não saiba mais quem eu sou, nem mais nada.

O que aconteceu?

Que de repente a alegria não é mais alegre, e os sorrisos enferrujaram de tão antigos. De tão sordidamente necessários. Meu peito dói, porque é como um recipiente pequeno demais onde quer caber um mar de nós.

O que aconteceu?

De repente eu não cabia mais em sua vida, provavelmente em seus sonhos, e talvez nem você tenha percebido. Minha tristeza notou... Ela sempre sabe mais do que eu.

Acho que te amo, e também por isso esqueci um pouco o que é gostar de outras coisas e de mim. Não, você foi maravilhoso tantas vezes e por tanto tempo. Enquanto eu te fiz tapete, bengala, miragem, refúgio frágil de castelo na areia. A areia sou eu e você é o castelo – estou tão longe?

É como se você tivesse começado outra vida, com pessoas que te acompanham e a quem você entende. Eu sei, não é fácil me entender. Lembro teu abraço, teus olhos repousando no meu rosto aflito, teu corpo-abrigo. Lembro tua inocência de criança, e ao mesmo tempo tua esperteza de pessoa que cresceu cedo. E eu acho que não cresci...

Eu no fundo sou fraca. Você me enfraqueceu quando me amou, e quando eu te amei eu não sei o que aconteceu.

Mas agora, o que aconteceu?

Você tem uma vida pela frente, e eu... Eu sou um relógio velho sem corda... Desculpe. Tenho saudade do seu beijo, da sua presença e de quem nós fomos. Por que isso se perdeu? Não há dor maior que a perda na vida. Reencontraremos?

Sabe, dizem as paredes, antes quase sempre mudas, que eu te amo. Às vezes a janela olha lá fora e diz que não, mas eu acho que é mentira.

Tenho andado muito triste. A tristeza sempre foi tão minha de repente...

E é como se o mundo, em suas cores de Picasso, estendesse seus braços para mim e eu não pudesse alcançá-lo – estou sei lá onde. Mas é frio e não tem você. Só um pouco de você que restou, do lado de fora. Porque dentro você me transborda.

Perdão por todas as coisas impossíveis ou improváveis. Perdão por, sei lá... Eu tenho a impressão de ter o mundo em minhas mãos, mas e você? Você está estampado nas nuvens, você atira pipas no céu e caminha na grama fofa onde se descansa.

Perdão, sei que te magoei. Sabe, magoar você é ferir alguém segurando a faca pela ponta. Estou sangrando meus medos.

Eu deixei tanta coisa, eu deixei você e quem sabe você tenha também me deixado. Perdemo-nos...

Talvez você ache outra logo, talvez eu vá ser apenas uma flor seca que um dia teve aparência de jardim. Talvez você esteja descobrindo outros trens, outras multidões...

O que aconteceu?

O que não aconteceu?

Aconteceu, um dia e para sempre, você.

E agora?

*

Créditos da imagem: Olhares.com
Web timida, por Sóter França Jr

Um comentário:

  1. Realmente tradutor.
    Não importa quantos anos se passem, aconteceu exatamente assim
    e essa será sempre a verdade com a mesma nitidez.
    Gostei muito de lê-la.

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