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Náusea



Conto, por Sel

... e fitou a paisagem distante, o ultramar, e se sentiu como naqueles filmes carregados de drama. Contudo, o clichê da cena nada tinha de engraçado, a falta que seu povo lhe fazia era real. Não havia mais as goiabeiras a aterem admiração e nem as meninas dos sorrisos e seus vestidos singelos que lhe arrancavam êxtase e agonia; nem o fogo da mulher vizinha. Não havia mais nem a chuva em terra que em lama se fazia piscina. Muito menos a doce sensação de ser apenas ele mesmo, ou o que fora: o encapetado, a peste de menino sem futuro. Agora, o futuro lhe batia a porta com amargo sabor, e a náusea o acometia como único meio, mas era já o fim! E ele bem sabia... Seus músculos débeis não mais sustentavam o riso e o rosto envelhecido não escondia tamanho temor, e bem sabia, era já o fim...

Para a parte mais alta do céu os olhos deslizaram e em seguida esboçou um pedido a algum deus, do qual ouvira sempre falar. Mas tudo era apenas estranhamento. Repousou, então, o olhar para além das coisas vistas – meio segundo de silêncio, antes que o mundo lhe revolvesse novamente o estômago e, por fim, lhe trouxesse a ânsia de escrever o primeiro e único poema de sua vida:


“Caminharei com os pés descalços, pois os velhos e desgastados sapatos já não me trazem mais a ilusão de um triste conforto.
Caminharei com estes sóbrios pés, com toda dor e paixão que a eles são ofertados, por cada coisa que lhes rasga as solas.
O sangue coagulará, e pela terra transbordado, transformará meu percurso em peregrinação.
No fim... não serei mais eu, e não serão mais meus pés.”

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Créditos da imagem:
a serra e o mar, por Nelson Afonso

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