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raízes



Conto de Renato Essenfelder

quando o pai morreu perdeu o chão. demorou a compreender o significado daquilo, demorou mesmo a chorar. seu luto seria lento, muito mais lento do que o dos outros conhecidos, amigos, parentes, contraparentes. passou seco o velório, seco o sepultamento, seco e quebradiço como uma folha caída retornou à pé para casa, atônito e quebradiço, com a espinha daquele grande acontecimento ainda apegada à garganta, com a espinha ainda cheia de carne e textura e cheiros – tantos e tão misteriosos, que.

seus irmãos decidiram cremá-lo. queimá-lo rapidamente, como rapidamente colocaram as cinzas de vestes ossos madeira verniz (e aquela edição dos lusíadas que colocara sob o paletó do pai numa dramática epifania) dentro de uma pequena urna acobreada, de onde seguiria para a biblioteca da fazenda, não por uma simbologia especial, como até gostaria de pensar, mas pela falta de disposição, espaço, enfim. A casa do pai na capital já estava vendida, na cabeça dos irmãos. terreno daqueles, em área que se valorizara freneticamente nos últimos anos, deveria valer mais de um milhão, fácil. duzentos mil para cada, no mínimo. com sorte, duzentos e cinquenta. cash.

talvez por ser o caçula, o quarto, o fim de linha, talvez por isso seu fogo fosse brando, quase morno – talvez pela falta de acha e carvão na sua vez da fila. nem ardeu como o resto da família nem afogou em lágrimas o carvão daquela agonia. em silêncio foi fazendo a contabilidade, enevoado, com o raciocínio difuso, sem saber se sonho ou lembrança.

deixa que eu faço, interveio, enquanto discutiam quem iria à fazenda concluir o serviço. aquela ainda ninguém falara em vender, pedaço miserável de terra no meio do nada.

não era bem por isso, sabia, que da fazenda não se falara. mas porque era ali, na terra dura e improdutiva, que estavam fincadas as mais profundas raízes da família.

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21/Março: lançamento do livro Febre (Editora Patuá), de Renato Essenfelder.

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Créditos da imagem: Olhares.com
BIBLIOTECA, por JOÃO MARQUES LUIZ NETO

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