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Linda, toda de branco, como no dia em que nos casamos



Conto de Deanna Ribeiro!

Foi na doença que você me reapareceu: linda, toda de branco, flor nos cabelos soltos, colo aparente, braços cobertos de renda; e, no olhar, a promessa reafirmada de não me faltar. Como no dia em que nos casamos.

Não um casamento desses com padres, pastores ou juízes de paz; convidados e cerimônias - casamento de almas. (Gêmeas?) Segurei suas mãos entre as minhas, certo da lealdade predita. A mesma com que me afirmou: preciso voar em céus alheios, visitar diferentes paragens. A beleza que vai contigo é demais para as amarras. Outros campos precisam do teu pouso: as paisagens, as telas, os olhares, os sorrisos, as mentes, os sons, as cores, as formas; outros dedos a parirem palavras. Só de vê-los, sei que por ali você passou, deixando num rastro brilhante o clarão incandescente de sua grandeza.

Não sei precisar em que dia você se afastou. Saiu tão sorrateira! Quando dei por mim, já não estava mais. Eram os outros a chamá-la. Entendi; e - no princípio - cantarolei “desesperar jamais”; esperei pacientemente o seu regresso. Não sem alguma agonia de abstinência no sangue. “Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença...” Voltaria.

E foi na doença que você me reapareceu: linda, toda de branco, flor nos cabelos soltos, colo aparente, braços cobertos de renda; e, no olhar, a promessa reafirmada de dedicação e confiança. Como no dia em que nos casamos.

Por isso, esboço essas linhas, uma ode à sua presença revivente, reavivante. Uns chamam-me louco, obsoleto, não creem na sua existência, mas o ceticismo descansa longe de mim. Acredito em quase tudo nessa vida, principalmente depois de sentir suas delicadas mãos repousarem sobre as minhas.

Ah, inspiração! Quanta saudade senti!



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Créditos da imagem: Olhares.com
Branco de Inverno, por António Feliciano

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