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Rancho das Estrelas



Conto de Betzaida Mata Machado Tavares

Quando a gente ainda é menina, pode sonhar com qualquer coisa: ser professora, feirante, médica ou contorcionista de circo. O tempo passa e os sonhos começam a ser limitados, restritos, até praticamente deixarem de existir. Primeiro, são as limitações do corpo, e era uma vez o sonho de ser contorcionista ou bailarina. Depois, as convenções sociais e seus imperativos restringem e determinam o jeito certo de sonhar, “Feirante? Faça-me o favor. Ser médica é muito melhor”. Por fim, é o próprio tempo vivido que torna inútil qualquer desejo. Alguns, sonhadores incorrigíveis, persistem no sonho e se agarram às possibilidades mais implausíveis, aquelas que de tão improváveis são desprezadas pelas estatísticas. Mas podem acontecer. Não é de todo impossível, por exemplo, que a menina que desejou ter qu atro filhos e se tornou mulher madura conformada com o fato de ser mãe de um único garoto, inesperadamente fique grávida de trigêmeos. Não é de todo impossível, mas nem merece ser levado em consideração. Beira o inverossímil. Consideremos, portanto, apenas as possibilidades factíveis e podemos concluir que os sonhos nos abandonam na medida em que envelhecemos. A quem escreve, ao menos, resta como lenitivo recolher as ilusões desfeitas como retalhos que sobram numa máquina de costura e, com elas, cerzir personagens, alinhavar histórias e cenários.

Porque quero, mas não posso, ser dona de um posto de beira de estrada, distante de qualquer aglomerado humano, abrigo de viajantes que não se sabe de onde vêm nem para onde vão, invento Vanessa, a protagonista desta história. Desde muito nova, trabalha no comércio de seu pai, o “Bar e Restaurante Rota 381”, atendendo os clientes e preparando as refeições. Depois que pai o morreu, tornou-se a proprietária do bar que abre todos os dias por volta das dez horas da manhã, quando chegam os primeiros clientes para almoçar, em geral caminhoneiros. Quando o céu começa a escurecer, ela fecha seu pequeno estabelecimento e isso pode ser às seis horas da tarde ou às oito da noite. Acha perigoso ficar ali sozinha depois que anoitece. Talvez Vanessa tenha um marido, pequeno sitiante que cuida de porcos e galinhas enquanto ela toma conta do comércio. Ou então ele é um vagabundo que vive se embriagando em algum boteco de uma cidadezinha qualquer e ela sustenta a casa sozinha. Pode ser que ela nem tenha marido. Isso é o que menos importa. O que mais posso falar sobre ela? Ah, sim. Vanessa tem um filho. Isso é importante.

Porque queria, mas a vida não lhe permitiu, fugir com uma trupe de circo e todas as noites dormir ao relento, Vanessa, depois da morte do pai, decidiu rebatizar o estabelecimento que herdou. Chama-se agora “Rancho das estrelas” e é comum que viajantes ao estacionar ali quase involuntariamente comecem a cantarolar aquela música da Amelinha: “Foi Deus que fez o céu, o rancho das estrelas, fez também o seresteiro para conversar com elas...”.

Um dia apareceram ali duas mulheres. A mais velha, que dirigia o carro, era morena, alta e usava uns óculos escuros. A mais nova tinha os cabelos claros e trazia uma criança no colo. Estava muito apreensiva porque garoto ardia em febre. A mulher mais velha dirigiu-se à Vanessa perguntando se havia por ali uma farmácia. A cidadezinha mais perto, onde se pode encontrar uma farmácia, fica a três horas de carro dali. Vanessa, então, convidou-as a entrar por uma portinha. “Melhor dar um banho frio nele, para a febre abaixar”. A porta leva ao interior de sua casa. As duas mulheres entraram, dirigiram-se até o banheiro e deixaram o garoto alguns minutos debaixo do chuveiro. “Eu tenho uma aspirina aqui, querem dar a ele?”, Vanessa ofereceu. Elas se entreolharam relutantes e, mesmo sem trocar uma palavra, concluíram que seria melhor aceitar a deixar a febre subir. Agradecidas, decidiram almoça r no restaurante. As únicas mulheres ali presentes. Fora, Vanessa, claro, que conversou animadamente com as duas, enquanto seu filho brincava com o garoto que, àquela altura, já estava bem melhor. Ela ficou sabendo, então, que são irmãs e o garoto, como imaginara, é filho da mais jovem, a de cabelos claros. Soube também que a mais velha delas é advogada. E só. De onde vinham ou para onde iam, Vanessa não tinha ideia. Tampouco se alguma delas era casada, embora tenha achado que não, que as duas deveriam ser solteiras, porque não viu aliança no dedo de nenhuma delas. Talvez morassem juntas, talvez tivessem uma mãe idosa que vivia com elas, mas achou melhor não viajar. Isso Vanessa apenas imaginou, porque na verdade não ficou sabendo desses detalhes. Conversaram um pouco sobre a estrada, tão perigosa, sobre o calor que faz nessa região e sobre o susto que os filhos às vezes dão em suas mães, com essas febres repentinas.

Depois disso, as duas voltaram várias vezes para almoçar no restaurante de Vanessa. Sempre pediam frango com quiabo e uma garrafa de coca cola. Enquanto comiam, o menino brincava de carrinho com o filho de Vanessa e as irmãs conversavam amenidades com a dona do bar: o calor, a chuva que ameaçava cair, um acidente grave que ocorreu quando estavam na estrada. Durante uns dois, ou talvez três anos, com uma frequência variável, às vezes toda semana, às vezes uma vez por mês, elas apareciam ali, únicas mulheres no meio de caminhoneiros e outros viajantes. Vanessa gostava da presença delas.

Depois elas sumiram. Passou-se um mês, passaram-se dois meses e nada das duas irmãs. Então Vanessa compreendeu que não voltariam mais. Talvez tenham encontrado um lugar melhor para almoçar, ela pensou ligeiramente enciumada. Ou então aquele trecho estrada deixou de fazer parte do caminho delas. Vai saber.

Um dia, num finalzinho de tarde, uns dois anos depois desse sumiço, a mais velha das irmãs apareceu no bar da Vanessa. Estava sozinha. “Que saudade desse frango com quiabo”. A dona do bar a recebeu com um sorriso e elas conversaram amenidades. “Pois é, agora que duplicaram a rodovia, a viagem fica bem mais rápida”, “Sim, os acidentes diminuíram.” “E sua irmã?”, Vanessa perguntou. “Aquela que tinha um filhinho. Como ela está?” “Ah, ela agora tem quatro filhos!” “Como assim?”, Vanessa tinha razão para se espantar. Afinal, o tempo que passara não fora suficiente para tantas gestações. “Pois é, arrumou um namorado, acabou ficando grávida e vieram trigêmeos. Depois o namorado foi embora, e ela ficou sozinha com os bebês e o menino.” “Meu Deus, coitada!” “Não, e u não creio que seja caso para sentir pena”, naquele momento, sua fala tornou-se seca e de uma lógica impiedosa, decerto era assim que se expressava nos tribunais. E prosseguiu: “Na verdade, ela desde pequena sonhava em ter muitos filhos. Conseguiu o que queria, não é?”, nenhuma compaixão no timbre de sua voz. Vanessa concordou sem muita convicção. Olhou ao seu redor, as cadeiras, o balcão, a televisão instalada no alto da parede, a geladeira de refrigerantes, o filho que brincava próximo à porta e sentiu uma espécie de conforto. Sem razão aparente, lembrou-se de quando quis fugir com uma trupe de circo e a recordação lhe trouxe um misto de alívio e pesar.

Então, Vanessa chegou próximo à janela e viu que o céu estava escurecendo. Algumas estrelas já apareciam. À sua direita, reconheceu a constelação de Três Marias e, mais à frente, o Cruzeiro do Sul. Tão vasto o céu... A mulher alta e morena, última cliente do bar, aproximou-se para pagar a refeição. “Hoje é por conta da casa”. A mulher agradeceu e disse que voltaria outro dia com a irmã e os quatro sobrinhos. Depois ela foi embora, Vanessa apagou as luzes e fechou as portas do Rancho das Estrelas.
Do lado de fora, o céu estava surpreendentemente iluminado.

Betzaida Mata Machado Tavares
Historiadora e escritora. Menção honrosa no "Prêmio Literário Cidade do Recife" (2011), categoria Romance, com a obra "O fundo e a luz". Ministra cursos voltados para a relação entre História e Literatura e oficinas de produção de texto. Atualmente é professora de História no Sebrae.
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Créditos da imagem: Olhares.com
Posto de Gasolina, por Luis Riedlinger

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