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Um olhar poético sobre o cotidiano



Crônica de Erica Gaião

Olho ao meu redor. Portas abrem e fecham. Pessoas entram e saem. E nem mesmo o alerta indicando o fechamento automático das portas do metrô, é capaz de interromper a viagem persistente dos meus olhos. Nas mãos tenho Zygmunt Bauman e o seu “Amor Líquido”, mas líquida mesmo está a minha concentração. Líquida é a realidade que observo, enquanto as pessoas se empurram entrando e saindo, apressadas, desnorteadas, preocupadas. Empalidecidas. Totalmente desconectadas do todo e completamente envolvidas em suas próprias singularidades...

Não saio do primeiro parágrafo. Meus olhos deslizam sobre as letras; meu pensamento voa sem destino certo, enquanto eu me perco observando o que existe além de mim. Leio, leio, mas não absorvo nada de concreto. Meus olhos alternam entre o livro e as imagens que se formam bem na minha frente. Sinto-me distante da palavra, mas desejo me aproximar do mundo. Estou usando a sensibilidade que ainda me resta, porque a minha razão, um pouco ácida, amanheceu mastigando uma descrença irrefutável e totalmente indisposta às contestações. Tenta me convencer, a qualquer preço, alegando que temos motivos suficientes para abandonar algumas crenças. Contudo, ainda que a realidade tenha desaprendido a surpreender minha sensibilidade com delicadezas, meus olhos continuam atentos e incansáveis. Invadem a vida alheia, percorrem o mundo do outro; absorvem cenas cotidianas com uma disposição generosa. A razão é descrente, mas a sensibilidade enaltece a realidade, atribuindo exaltações poéticas e qualidades fenomenais ao mundo invisível - esse mundo destacado do real, formado por detalhes que se escondem atrás das cenas cotidianas. Meus olhos buscam os passos da poesia em um espaço onde ninguém mais vê. A razão, que continua aborrecida, desafia a sensibilidade impondo ideias subversivas aos meus sentidos, tentando a todo custo, desviar-me dessa louca busca poética. Mas somos resistentes e não nos rendemos a qualquer proposição engenhosa da razão. E eu, enquanto o trem desliza sobre os trilhos, vou vivendo uma verdadeira revolução interna, oscilando entre a crença e a descrença. A razão insiste, dizendo que a humanidade está totalmente perdida. Que a imediaticidade da vida nos corrompe dia após dia. Que a nossa vulnerabilidade diante do mundo, nos força a negligenciar nossa capacidade de encantamento - essa capacidade ancestral de ver além do nosso próprio horizonte e se encantar com isso. Eu continuo insistindo no olhar poético. Talvez a razão esteja certa ao tentar remover dos meus sentidos essa predisposição ao encantamento. Talvez a minha sensibilidade seja cega e, por isso, eu insista tanto nas coisas mais absurdas. Mas continuo irredutível. E a razão há tempos não me enrola mais com o seu discurso monocromático.

Continuo olhando ao meu redor, enquanto a composição do metrô segue percorrendo as estações a fim de cumprir o seu destino: o ponto final. E eu, composta por uma sucessão de reticências, tento cumprir o meu: continuar buscando o que eu não sei, todos os dias. Meus olhos não desistem dessa procura – insana - pela poesia contida no mundo real, enquanto a própria realidade me engole com os seus sonoros “nãos”. Obstinados, se esticam até o outro lado da estação, exatamente no instante em que o trem para. Entre a imagem que me prende e eu, a janela translúcida do metrô esconde os contornos mais delicados de uma cena que revela o jeito genuíno de pertencimento. Mãe e filha arremessam sobre mim uma boa dose de poesia. A poesia que há pouco eu buscava no meio do caos urbano. Mãe e filha, envolvidas em um abraço que não deixa espaço para mais nada além do amor que se desenha sólido bem na minha frente, desafiando até mesmo a teoria consistente sobre a líquida realidade descrita por Bauman, que, por sinal, continua imóvel em minhas mãos. Paraliso a mente e percorro cada detalhe da cena estática, posicionada no meio daquela desordem cotidiana. Um quadro vivo sendo pintado na plataforma do metrô, enquanto a humanidade, apressada, apenas passa. O aconchego prolongado, envolto em um silêncio esclarecedor, que mesmo sem intenção alguma, abafa o som destoante desse barulho de incompreensão e pressa que move as pessoas até o trabalho, todos os dias. A razão, constrangida, calou sua voz perturbadora. Emudecer é, também, reverenciar o que tem valor e intenção nobres. Porque tem momentos que até a palavra atrapalha. E quando há conexão com o sublime, ela entende e emudece. Tem momentos que o olhar não desvia do outro. Tem momentos que o mundo inteiro apaga, enquanto a luz do amor acende. Já reparou? Talvez seja só uma cena simples, cotidiana, habitual – qual mãe não abraça o seu filho? – mas, para mim, está carregada de um sentido indescritível, e percebo isso, justamente, quando penso sobre a perda de sentido da vida. A mãe, generosamente curvando-se àquela minúscula criatura, que deve ter no máximo cinco anos de idade. A paz reina ali, e ao mesmo tempo instiga a desordem do mundo a ir buscá-la. Olhos entregues. Uma mergulhando na imensidão da outra no mais absoluto e confortável silêncio. Cinco minutos, o metrô parado e os meus olhos vidrados naquela cena, que me remete, sem querer, a minha própria vida: Quando o mundo me amedronta com suas garras, é o abraço acolhedor da minha filha que me salva e me protege.

Ali a sensibilidade desafia a razão. Meus olhos fazem uma viagem mágica pelos caminhos que conduzem ao amor. Meu coração volta um pouco mais leve para casa. E eu, finalmente compreendo que amar não cansa. Que embora o cotidiano nos desanime e nos canse com a sua falta de tato, o amor não. O amor nos fortalece. E estou cada dia mais convencida que, diante do afeto, o mundo para e se rende. A vida recupera a sua sanidade; torna-se um pouco mais sadia e completa. As pessoas esquecem a tirania que exercem umas sobre as outras; doam-se um pouco mais, de uma forma desarmada, desavisada, sem se preocupar muito com as frustrações que invadem qualquer tipo de relação. Diante do afeto, esquecemos que somos espremidos diariamente, entre uma esquina e outra dessa cotidianidade voraz, que nos cobra imediatismos e resoluções rápidas. Que nos cobra sucesso. Que nos cobra muito. Diante do afeto, esquecemos o nosso instinto de sobrevivência e nos entregamos à imensidão que percorre as entrelinhas dos sentimentos. O medo de sentir além da conta, quando ninguém mais sente, se dilui na certeza de que a maior coragem diante da vida é ter coragem de viver, quando tudo em volta parece estar meio perdido.

O meu olhar poético me convence que o ser humano ainda vale a pena. Que ainda é possível resgatar os valores e os afetos genuínos, que foram se perdendo com o passar do tempo. Talvez aquela mãe, assim como eu, carregue dentro de si algumas descrenças e um punhado de cicatrizes. Mas ali, naquele instante, a descrença foi substituída por uma fé – inabalável - no amor que incondicionalmente depositamos no outro. Há de se ter um olhar diferenciando quando misturamos o amor de uma mãe ao amor que é estabelecido nas relações afetivas em geral, eu sei. O amor maternal é incomparável e quanto a isso não resta nenhuma dúvida. Mas, de qualquer forma, amor é matéria de poesia. E enquanto existir amor, a humanidade não sucumbe. Enquanto existir amor, a razão se rende. Enquanto existir amor, nossos olhos não desistem de encontrar na realidade, cenas simples, capazes de eternizá-lo, ainda que o eterno do amor seja questionável. E quando tudo mais não vem. Quando tudo parece ter perdido o sentido para a razão exagerada do mundo, são os nossos olhos que encontram a poesia, que em algum momento vai nos resgatar.

Parte do meu destino – diário - se cumpriu ali, durante aquela viagem. As portas do metrô se fecharam e eu continuei seguindo o meu caminho, guiada apenas pelos meus sentidos. Sentir é a forma mais deliciosa de pertencer ao mundo. Sentir é o que movimenta a vontade de ir além do alcance dos nossos olhos. É isso que, talvez, a razão não enxergue.

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Créditos da imagem: Olhares.com
Quotidiano do metro..., por Avelino Oliveira

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