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Caprice Nº. 5 in A minor




Conto de Sel!!

... não tenho me colocado muito além do quintal de casa. Não tenho sentido o cheiro do azul ou o gosto do amarelo-vermelho. O tato não mais acompanha as redes antes firmes. A exterioridade acomete-me macilenta e a fome cresce por algo impreciso. Olho as coisas lá fora com certo desamor, uma dose de desapego pela mobilidade da espécie, esses sorrisos e afazeres cotidianos que tanto entusiasmam outrem. Estou irremediavelmente só e debilitado. A estrutura não mais comporta quaisquer tensões que acostumou-se a evitar durante extenso período. Meu repertório somente me inclina a essas tarefas ruminantes que cabem dentro de um reduzido espaço rodeado por paredes, móveis e quadros, ou a autoflagelações, várias das quais, abstrativas, desgastantes que colocam meu cérebro em constante deficit. As drogas sustentam o corpo muitas vezes. O que está inalcançável à vista me atinge através dessa misteriosa convergência neuronal metamorfoseada no que acostumamos chamar de imaginação. Chega-me macia, como chegam tranquilas e cínicas essas nuvens de um verão tempestuoso. Habita-me por horas com total desprezo pela minha sanidade ou anseio de paz. Confesso, porém, que a degradação gerada não me é desconhecida anteriormente. Apenas possuo uma profunda inabilidade para resistir com a força que se mostra necessária. Ou, quem sabe, os eventos inconscientes me privem de reconhecer que não existe nenhuma pretensão de desarticular essa malha densa e corrosiva, já que o prazer desse vício sempre fora por mim apercebido. Vivo para morrer, gozar e morrer. O conteúdo dessas criações em sua maioria – se não, completamente: a rememoração nunca é um fenômeno fidedigno – abarca essas manifestações humanas malvistas e agrupadas com o codinome tabu. O líquido grave e sinuoso a movimentar os corpos, a união da pele sobre a pele estampada por falanges; pus, fezes, urina. O escarro, o suor, os músculos retesados e os estados pungentes dos gestos: alguns dos atrativos circundantes que agridem-se dentro de meu crânio pesado, formando novos compostos, novas melodias que transbordam por todo o organismo, com intensidade comparável às interpretações de Kinski e ao som virtuoso de Niccolo Paganini. O Caprice for violin solo in A minor (Agitato), Op. 1-5- Nº. 5 in A minor, uma obra-prima! Devo dizer, contudo, que tais narrativas podem ser custosas para minha consciência, quando terminadas com cobiça – um incontrolável e desmedido desejo, geralmente eliciado por resquícios ainda abrasadores de frustrações juvenis – e um mínimo toque de improbabilidade, provocando, assim, uma exasperada reação que, a longo prazo, suspeito: me ocasionará um câncer, angiopatia ou infarto. Cigarros e copos de leite com café certamente constam no cardápio – o suicídio deve ser dissimulado, indireto. Não pretendo de maneira alguma levar a cabo minha morte, mas convém atentar para o fato de que as esperanças, muito valiosas para a vida, adaptadas ao jogo, só funcionam como engrenagens de uma mecânica circular, onde me encontro qual um inseto diante da luz.



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Créditos da imagem: Olhares.com
A noite chega ao meu quintal, por Maria Clara Correia

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