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Suíte nº 3 de Bach: movimento em dó maior




Crônica de Ana Lygia

Ela surgia serenamente nos finais de tarde, doída como todas as ausências, pranto soluçado em dó maior. De onde vinha aquela dor, aquele pedido de socorro?

Às seis da tarde era como se a infernal avenida Nossa Senhora de Copacabana se calasse, ela toda, para ouvir a chorosa melodia. Durante cinco minutos do dia, motoristas furiosos serenavam, buzinas ansiosas silenciavam, transeuntes apressados quedavam – todos a buscar a origem daquele lamento.

Suave, sussurrada, ela flutuava arrastando-se pelo ar, penetrava delicadamente através dos ouvidos e ia se instalando no peito, onde bate o coração. Depois sofria miúdo, doendo, doendo, num crescendo de todas as dores do mundo.

Naquela hora do dia todos os sofrimentos, abandonos, frustrações, fraquezas e desamparos compreendiam-se, irmanados que eram, ao som do triste solfejo. Meu peito doía, na iminência de explodir, e eu sangrava todas as mágoas e sentimentos mal resolvidos de uma vida regida pelo equívoco.

Aquela música, naquela hora triste do dia, era quem mais sabia de mim, quem alcançava as profundezas mais temidas dos abismos da minha alma, nos insondáveis escuros que jamais ousei penetrar.

Terminada a ária, tudo voltava a ser como antes e como sempre naquele caótico oceano de gentes, automóveis, buzinas, irritação e pressa.

De quem era aquela dor gêmea da minha? E aquela ária? Soluços de uma vida que podia ter sido e não foi. Eu o encontraria? E no encontro, o reconheceria? Eu seria reconhecida?

Todas as tardes eram iguais e aguardadas: o caos, a melodia e a conformidade. Um bairro todo sob os encantos daquele violinista de Hamelin.

Conjecturava-se afirmando que o instrumentista era um viúvo solitário e que mantinha o hábito de tocar Bach para a esposa, mesmo trinta anos após sua morte. Outros juravam se tratar de um louco, um alienado que só se acalmava ao som da 4ª corda. A minha certeza era a de que em algum lugar havia um violino que tocava em dó a partitura da minha alma. Aquela dor e o pedido de socorro vinham de mim? Quem sabe... Quem sabe?

Não sei como estão as tardes em Copacabana, não vivo mais lá. Sei que no crepúsculo dos meus dias um arrebatamento me consome: corro para a sacada, mas não há nenhum violino. Só a cadência do eco dos meus abismos silenciosos.


Ária da Quarta Corda é uma adaptação para violino e piano do segundo movimento da Suíte nº 3 para orquestra, Bach. A peça original faz parte da Suíte nº 3 para orquestra, em Ré Maior, de Johann Sebastian Bach, escrita para o Príncipe Leopoldo, entre 1717 e 1723.

Os títulos "Ária na corda Sol" e "Ária da 4ª Corda" não são originais. Vieram de uma adaptação para violino e piano do 2º movimento da suíte nº 3 para orquestra, feita por August Wilhelmj (1845 - 1908). Transpondo a tonalidade da peça de Ré Maior para Dó Maior, Wilhelmj foi capaz de tocar a peça em apenas uma corda de seu violino, a 4ª corda, que é normalmente afinada em Sol (G).




Ana Lygia
Mulher, mãe, filha, irmã, amiga, amante.
Inquieta e curiosa, gosto de livros, de boa música, de boa prosa e de café. Nunca me arrependi de ter trocado os cálculos pelas letras. Cresci ouvindo causos e os escrevo, desde sempre. Um dia crio coragem e faço uma antologia.
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Créditos da imagem: Olhares.com
Estudo em Violino, por mama

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