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Crônica de Mariana Collares!


Não, não há frio aqui. De forma alguma posso sentir frio neste lugar aconchegante, onde me estendo confortavelmente em uma poltrona de madeira com almofadas brancas, perto do calor que emana de uma espécie de estufa de jardim que há no meio do alpendre, em frente à rua.

Acabou de chover. O frio retorna, enfim, aos corpos e aos pés de todos nós, transeuntes de fim-de-tarde.

Estamos, um amigo e eu, em um café aconchegante em meio ao verde robusto das árvores do bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Saboreamos um cappuccino cremoso e sanduíches. O dia fora longo. Contamos, animadamente, todos os atos meramente cotidianos do nosso dia de trabalho. Muitos tédios se acumulando em nossa agenda... Tudo muito normal.

E então vejo adentrar ao café um casaco de peles belíssimo carregando uma mulher a tira-colo. Pena que os animaizinhos que formaram aquela bela peça não puderam desfilar pelas nossas ruas, de forma tão radiante.

Penso neles e tento achar o casaco feio, horroroso mesmo. Penso então, ou quero crer ou esperar, que ele seja o rebento criativo da indústria têxtil, que perfeitamente recriou a pele sintética e não matou, por um único dia, um bichinho indefeso.

O casaco entrou no bar, a mulher o seguiu.

Agora ele descansa numa poltrona lá dentro, aquecido pelo ar-condicionado.

A mulher? A mulher, não sei. Não vi. Ou pouco vi.

Quisera eu estivesse ela agora numa jaula, sem qualquer aquecimento e companhia, esperando por um destino certeiro que lhe pusesse, membro por membro, órgão por órgão, numa carteira de couro de grife com uma minúscula etiqueta indicando um preço inacessível.


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Créditos da imagem: Olhares.com
raposa, por Magal

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