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as flores de polanski




crônica de rogério fernandes

leio, com um misto de sono, preguiça e surpresa, que um dos meus heróis da juventude, roman polanski, causou "escândalo" em cannes ao afirmar que a" pílula havia masculinizado as mulheres" e que por isso  o romance havia acabado "Oferecer flores a uma mulher hoje em dia se transformou em algo indecente, e eu acho isso uma pena", teria dito o cineasta.

a surpresa veio da bobagem em dizer que a pílula masculiniza as mulheres. a pílula deu liberdade de espírito e de escolha às mulheres, libertou-as dos grilhões postos pelos homens e cuidou de acelerar o processo cultural e revolucionário dos anos 1960, década, aliás, em que polanski despontou como um dos símbolos da novas ideias e comportamentos.

o que me deu sono e muita, muita preguiça foi a reação de algumas feministas diante das flores de polanski. uma destemperada do facebook, inconformada com a associação entre flores e mulheres (uma construção burguesa e retrógrada de dominação masculina!!) sugeriu que polanski enfiasse o ramalhete de rosas no cu. outra, mais ponderada, sugeriu que o cineasta de bebê de rosemary era um idiota machista.

fui a campo. busquei indícios de que o ato de oferecer flores a uma dama implica em suspensão das calcinhas, sexo oral e casamento para a vida inteira, ou apenas um gesto de demonstrar a simpatia  que se tem por alguém de sorriso, beleza e inteligência admirável. o meu campo, claro, foi o facebook, este tribunal de valores absolutos e sem nuance. no dia 08 de março, dia internacional da mulher (uma data tola e meio cafona, concordo) 8 entre 10 mulheres não queriam chocolate ou flores, e sim condições iguais de trabalho, igualdade de tratamento, autonomia do próprio corpo,  fim da violência e respeito, muito respeito. apesar de não pertencer ao nobre gênero feminino, postei lá no meu perfil os tradicionais apoios a luta por igualdade, o que rendeu um bocado de "curtir" e garantiu a simpatia da grande massa faicebuquiana. curiosamente, circulou nesse dia a imagem de uma cesta de flores e os dizeres "enfia no cu", a fonte daquele impropério dirigido ao polanski estava revelada!

lembrei que na minha desastrosa trajetória  pela simpatia feminina, entreguei uma boa porção de flores. cestas de rosas colombianas, girassóis amarelos fincados em vasos indianos, ramalhetes feito a mão, dezenas e dezenas de dúzias de pétalas arrancadas de seus lares em holambra para dizerem um mero, gosto de vocêfica comigome perdoa ou simplesmente adorei o papo de ontem, permaneça muito e muito tempo na minha vida. juro que em nenhuma das vezes pensei em constranger a moça ou moço, porque já mandei flores para meninos. aliás, esta de mandar flores, aprendi com o renato russo, lá pelos anos 80. e, até onde eu sei, ele não era um exemplo de meliante abusador de meninas. bem, voltando ao assunto, já mandei flores, e agora descobri que fui um miserável machista constrangedor de mulheres a vida toda, mas, puxa vida, as mulheres para quem eu ofereci flores eram bem grandinhas e esclarecidas, todas com diploma universitário, vida sexual resolvida e liberdade de escolha, tenho certeza que elas não entenderam errado. será que vivemos uma época em que demonstrar afeto é ofensivo, constrangedor e fora de moda? vixe...

mas, como ter certeza? bom, por via das dúvidas deixei de oferecer flores e aguardo pacientemente o entregador tocar a campainha aqui de casa com uma dúzia de rosas amarelas, vermelhas e brancas. acho justo que alguma moça me mande flores, acenando que posso passar a me dedicar ao meu passatempo predileto sem ter a minha bunda machucada.

seria um hábito bacana a ser disseminado por aí, flores podem cheirar a morte, mas, como disse thomas mann num ensaio sobre o casamento, onde vigora a noção de beleza, o imperativo da vida perde seu caráter absoluto. querer bem é uma forma de buscar a beleza absoluta, que é um caminho para o abismo. Platen, poeta alemão do século 19, homossexual assumido e intrépido amante da arte do romance entre os cidadãos, não importando o sexo, escreveu sabiamente "quem a beleza olhou nos olhos/já se encontra entregue a morte." é bom esclarecer que casamento e flores não estão, e não devem, se relacionar. entregar flores é um gesto de amizade, admiração, romance. e casamento é contrato, fingimento e divisão de contas, só.

acho que sou como godard e truffaut, que sempre dedicaram às mulheres um respeito e devoção que possui estreita relação com o labor e reflexão artística. godard escreveu para anna karina Une femme est une femme em 1961, um manifesto da alma feminina em todas as suas minucias, paradoxos e beleza pela visão de um poeta obcecado pela alma feminina. penso que, se visto por alguma dessas meninas que enfiam flores no cu alheio, o filme de godard seria taxado de machista e retrógrado. mas para termos certeza disso teríamos que tirar o nome de godard dos créditos e fazer um teste cego. godard não gostaria.

françois truffaut, o mais literário dos autores da novelle vague, fez tantos e tantos manifestos de admiração ao universo feminino, que invariavelmente envolveu flores em alguma cena. o que me dá receio em convidar uma garota para assistir la femme d'a côté ou l'homme qui aimait les femmes, retratos de mulher e da devoção que truffaut dedicava a elas. o tempo não é mais para romances.

faz sentido diante do horror que nós homens submetemos as mulheres todos os dias, estupros, constrangimentos, incompreensão. mas, mulheres, por favor, não percam a esperança na humanidade e continuem com  o ativismo.

a luta por igualdade, deve ser exatamente isso, a luta por igualdade, e não sobreposição de desejos ou afirmação de uma certeza absoluta. há diferenças e desigualdades tão grandes e grotescas entre os sexos. assim como entre raça, religião, e tudo o mais, que estamos, no afã de superar essas desigualdades, criando outras e fazendo o jogo do inimigo, esquecendo que não se trata de impor uma verdade, porque elas não existem.

a grosseria e violência continua sendo imposta às mulheres.

os impossíveis, grotescos e duvidosos padrões de beleza, de panicats, de mulher magra, submissa. ou o outro tipo de construção e padrão que surge entre os alternativos (há uma industria apoiando essa turma, acordem!!) de moças tatuadas, liberais e rockers. trata-se da atualização da pinup americana, dos anos 50, garotas ingênuas, infantilizadas e erotizadas para agradar a marinheiros, maduros chefes de família e quetais. o desenho se modificou, mas continua a erotização masculina predominando, não importa o quanto meninas achem descolado e libertador. o erotismo é uma das maiores invenções da psique humana, mas acontece que até esse saudável hábito de se ter tesão acaba virando regra de comportamento e rodinha excludente do diferente e discordante dessa ou daquela visão. já vi nego praticante de swing ridicularizando e chamando de careta o sujeito que não compartilha, mas respeita, os mesmos interesses. aí a brincadeira fica sem graça...

será que a indústria do desejo transformado em mercadoria e propaganda, que me parece ser o maior e verdadeiro inimigo das feministas e das minorias, se importa com flores ou com questões de gênero? ela quer vender seus padrões compactados de beleza e comportamento, para sustentar-se enquanto ideologia. dividir e conquistar é a regra, clássica ainda, de dominação. estratégia, é claro, que surgiu com o patriarca machista e capitalista, mas que agora se disfarça e prolifera em todos os setores comportamentais sem percebermos. veja as campanhas no facebook a favor de um padrão de homem descolado e antenado às tendencias de luta de classe, que seria o "ideal" para a nova mulher, igualmente moderna e lutadora. ele tem barba, invariavelmente consome produtos naturais, bebe, participa da luta por direitos, com suas calças jeans largas e camisa xadrez. trata-se de uma idealização, daí alienante, do homem e sua contraparte feminina. assim como o rapaz clubber, que também caminha por aí com suas roupas descoladas, celular e fotos no instagram. tanto homens como mulheres são bombardeados por idealizações sexistas, com as redes sociais o fenômeno se multiplicou e ganhou adeptos ortodoxos, e não me parece que caminhamos para algo melhor quando buscamos atualizar as padronizações dos nossos avós. o ideal é a igualdade de direitos, desejos e não a democratização da discriminação e intolerância. coisa burra que vem surgindo na internet.


O QUEBRA PAU DO SEXO ATRAVÉS DO TEMPO


"Até agora os homens trataram as mulheres como pássaros que lhes tivessem caido das alturas: como algo mais delicado, mais vulnerável, mais doce, selvagem, exótico e cheio de alma - mas como algo que se prende, para que não fuja voando." Friedrich Nietzche (1844 - 1900)

"As mulheres muito modernas da nossa época acham que um novo escandalo lhes fica tão bem como um chapéu novo e os arejam todas as tarde no parque." Oscar Wilde (1856-1900). em "Um marido ideal"

"Quando uma mulher se casa, está trocando a atenção de muitos homens pela desatenção de um só". Helen Rowland (1875-1950)

"Sabe o que se deve saber para se estar seguro? Primeiro, casar para ser aceito em sociedade, por causa das convenções sociais; depois, divorciar-se imediatamente e tornar-se amante de sua ex-mulher, e, para terminar, adotar os filhos." Strindberg (1849-1912) em "O Pai"

"Por que as mulheres são muito mais interessantes para os homens do que para as mulheres?" Virginia Woolf (1882-1941)

"A única paz sólida e duradoura entre um homem e uma mulher é, sem dúvida, uma separação." Lord Chesterfield (1694-1773)

"É preciso acabar com esse liberalismo feminista e estabelecer o machismo revolucionário" Glauber Rocha (1938-1981)

"Um marido é apenas um amante com uma barba de dois dias, um colarinho sujo e queixando-se de enxaqueca o tempo todo." Gloria Steinem

"Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: o que uma mulher quer?" Freud (1856-1939)

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Créditos da imagem: Olhares.com
Like a Flower, por Miguel Heuseler (Liberdade de EXPRESSÃO! UHULLLLLLL)

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