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E no peito mora a saudade



Crônica de Erica Gaião

Enquanto a vida passa e escorre na ampulheta do tempo; enquanto tecemos o nosso destino transformando os nossos sonhos em algo plenamente realizável; enquanto construímos novas relações, novos espaços, uma família, uma história - existe um tempo: um tempo que mora lá, no antes de tudo. O tempo que não volta. O tempo da lembrança guardada no fundo da gaveta, onde a memória se resume às fotografias, aos bilhetes e às confissões antigas, hoje, inconfessáveis. O tempo das descobertas. Da inocência se despedindo. Das alegrias encontradas nas mínimas coisas. Das poucas preocupações. O tempo que espera pelo futuro. E quando o futuro finalmente chega, a vida continua correndo, apressada, na ampulheta do tempo. Une e separa pessoas; ergue muros; rompe barreiras; voa; traz pessoas novas para renovar o mundo; leva outras embora. E nós, ainda tentando construir uma história de sucesso, nos perdemos no nosso próprio tempo. Nos perdemos, sobretudo, daqueles que um dia dividiram a mesma história. E deixamos nas mãos da memória – e das lembranças guardadas no fundo da gaveta – a responsabilidade de contar parte da nossa história para todos aqueles que chegaram depois, enquanto nós mesmos, pela falta de tempo, não mais lembramos.

Assim é a vida. Assim é o tempo. E enquanto ele escorre e a vida acontece para todo mundo, o que sobra é aquela falta. E vai deixando dentro de nós a saudade. A saudade: lugar das coisas eternas, inesquecíveis; das coisas que nunca deixam de ser, embora o tempo as envelheça e as transforme em passado distante. Saudade: o lugar daquilo que foi bonito, que ainda existe de alguma forma dentro de nós, mesmo que seja só na lembrança. Saudade é desejar de novo o encontro, e é assim que os (re)encontros acontecem: movidos por uma saudade. Porque enquanto a vida passa, a saudade fica – e mantém viva a lembrança de tudo aquilo que um dia fez parte da nossa história. E mesmo escorrendo na ampulheta do tempo, a vida dá um jeito de dizer (e demonstrar) que o que tem valor de fato, se constitui como eterno. E eterno, para mim, é tudo aquilo que atravessa o tempo e não desbota. É o laço que não se desfaz, ainda que o tempo crie outros laços...

* Texto publicado no livro Meu Universo Particular, editora Penalux, 2012. Disponível no site da Editora Penalux.

Imagem: Google

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