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Esquina Barroco




Conto, por Sel.

Um cigarro ilumina. Gomos de fumaça espalham-se pelo ar. Acima, estrelas de papel cantam ao sol poente; o céu derrete. É dia de São João! Nas mãos o jornal envelhece, e a multidão queima a sua volta. Nada resiste ao tempo. A morte de ontem impressa numa das páginas não é percebida. Outro cigarro.

Adeílson, um funcionário burocrático, permanecera até aquela madrugada, dia 23 de junho, como um figurante esquecido dos históricos policiais ou informes televisivos em meio a tantas tragédias ou momentos de júbilo. Sua vida era por demais desinteressante, até para sua ex-esposa que o deixou levando sua filha, alguém que desconfiava não ser realmente da sua linhagem. Nada de desespero, ainda restara seu emprego e a mulher do apartamento da frente que adorava vigiar pelo binóculo. Ultimamente era sua única fonte de gozo, e uma das desculpas pelo abandono. Uma coisa lhe era admirável e estranha: a capacidade de se manter calmo em qualquer situação. Parecia em eterno transe, anestesiado do cotidiano. Somente no desafogo diante das curvas da vizinha sua existência corava-se. Essa grande habilidade, porém, fora a culpada por seu destino. Ao ser assaltado na volta para casa, continuou absurdamente tranquilo enquanto o outro tremia como um novato. Se fosse mais desperto quando as coisas se desenrolaram poderia não estar naquele instante exatamente onde não deveria. Não argumentou contra a faca apontada para seu abdômen. No fim, dera-lhe um sorriso como um “boa sorte”. Talvez devesse desejar tal sorte a ele próprio. O cara assustado já havia sumido na esquina levando sua carteira, celular e o relógio, e ele parado ainda sorria como se houvesse ganhado na loteria ou, pressentindo seu futuro, aceitado-o pacífica e alegremente, de forma mórbida, da forma habitual.

A matéria ignorada por Manoel relatava um acidente envolvendo um pedestre sem identidade e um motorista supostamente alcoolizado. César bebera naquela data para comemorar sua promoção depois de longos anos dedicados à sua empresa. Tanto tempo não sentia o gosto do sucesso que não se conteve na diversão com seus amigos. Mas os olhos do homem aposentado procuravam apenas sobre as festas que prometiam. A noite se estabelecera quando o terceiro cigarro foi aceso. Houve o pedido ao garçom para mais uma cerveja e um gole na que esquentava no copo. A artéria rompeu-se, o sangue extravasou pela massa encefálica. Histeria, ligações e socorro. Trinta e sete minutos depois, a ambulância.

No céu, estrelas de papel cantam agora ao sol que se foi ou à lua?! Cigarros pulsam como vaga-lumes sobre as mesas do bar e a fumaça anuncia as horas em chamas. É dia de São João. Na calçada, o jornal envelhece e a multidão queima a sua volta. Nada resiste ao tempo. A morte de ontem impressa numa das páginas não é percebida. Já é notícia antiga. Tudo derrete.

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Créditos da imagem: Olhares.com
Fumando um pensativo cigarro..., por Nuno Moura

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