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Essas confissões literárias que não fazemos nem em blogs





Segredos, por Mariana Collares.


Tenho histórias curiosas com alguns livros.

Desde que vi, há anos atrás, um documentário sobre Octavio Paz, fiquei louca pelo livro “A Dupla Chama- Amor e Erotismo” - um ensaio literário belíssimo, escrito quando o autor contava com cerca de oitenta anos. Sempre que ia a alguma livraria a buscar meu exemplar, ou estava esgotado ou havia terminado naquele dia, ou dias antes. Cheguei a pedir ao livreiro o livro por encomenda, mas nunca chegou. A única vez que consegui comprar um exemplar novo, eu e meu nada oportuno desprendimento o demos de presente de aniversário a um amigo. Cheguei a pensar em comprar dois exemplares naquele dia, um para presentear e outro para ter comigo, mas desisti, por pura estupidez. E então, e novamente, passei anos indo de livraria em livraria em busca do meu exemplar, sempre esgotadíssimo.

Na cidade de São Paulo, e numa das muitas peregrinações que fiz em sebos, encontrei o tal. Felicíssima, o comprei, junto com uma edição muito desejada por mim de “As Palavras”, de Sartre. Mas não pude levá-lo para casa: o exemplar foi devidamente confiscado por um ex-namorado e jamais retornou às minhas mãos. Acho que estão de brincadeira comigo, mas entendi o recado dos céus como um “calma, menina, você não precisa dele agora”. Até hoje espero encontrar algum exemplar solto por aí, e desta vez eu juro, nem que me paguem caro não solto Octavio assim, tão facilmente...

Um dos livros que estatisticamente mais cai (“cai” mesmo) da prateleira de casa diretamente em minhas mãos é “Para Além do Bem e do Mal”, de Nietzsche, e não me perguntem por que.

Na verdade, isso deve ser um estranho pacto entre a Lei da Gravidade, Deus e Nossa Senhora da Paciência, porque nunca, nunca mesmo, consegui sentar e ler o livro como deve ser lido. O que consigo, e com a graça do divino, é folheá-lo e achar, entre as folhas, preciosidades como “Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas porque não posso mais acreditar em ti”. A frase deu, inclusive, ensejo a uma antiga crônica, que nunca publiquei porque não gosto do desfecho, e enquanto não achar um que preste ela vai ficar engavetada junto com outras quinquilharias literárias que tenho aos montes.

E o livro acaba, a cada ciclo, voltando à prateleira de casa, dentre tantos e tantos outros livros para, quem sabe, e numa outra emboscadinha do destino, vir a parar fisicamente em minhas mãos em alguma queda oportuna.

O livro mais folheado e lido em pedaços por mim em toda a história da humanidade é “Ulisses”, de James Joyce.

Sei de cor pedaços inteiros e já ensaiei o monólogo final de Molly Bloom para o “soundcloud”, mas por não ter encontrado a tradução que gosto, desisti de gravá-lo.

Porém, jamais o li, de cabo a rabo, como também se espera de uma leitora e eu certamente esperaria de mim mesma.

Na verdade, e como já perdi o respeito literário por minha falta de vontade, acho que vou deixar “Ulisses” para a minha melhor idade, quando tiver tempo para sentar e saborear as cerca de 900 páginas da genialidade do autor, juntamente com a Bíblia e a Odisseia, de Homero.

Há alguns anos, queria conhecer Hilda Hilst e fui à livraria para buscar algo da autora.

Encontrei “O Caderno Rosa de Lori Lamby” na prateleira e sentei-me no chão do lugar, para ler um pouco e ver o que achava.

Li o livro inteiro naquela sentada, de pernas cruzadas no chão da livraria chique e grande, e cheia de gente que me olhava, meio de lado, quando passava por mim.

Os atendentes do lugar passavam pelo corredor e me lançavam olhares de soslaio, soltando risadinhas baixas enquanto eu esgotava as páginas com meus olhos imensos e assustados.

E hoje alguns vêm me falar de “Cinquenta Tons de Cinza” e eu fico rindo e pensando que essa gente não sabe nada e tá perdendo tempo de ler a maravilhosa e safada Tia Hilda...

Comprei “Nexus” e “Plexus” numa tacada, e nada de encontrar “Sexus”, o volume um da trilogia de Henry Miller. Estranha ironia que me deixa longe do autor enquanto não o encontro na versão que quero para minha estante. Essas coisas que não se explica...

Para terminar, e já advertindo que não é o fim, o livro de “terror” mais fantástico que já li pela metade foi “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago.

O livro é tão bom, mas tão bom, que morri de medo dele e não consegui terminar, juro. Mas não contem para ninguém.

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Créditos da imagem: Olhares.com
silence, por Vânia Valentim

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