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Ah... O meu livrinho!


Crônica de Giovana Damaceno.

O centro dos olhos está preso ao livro. Tenta concentrar a atenção na história que lê, mas o olho periférico distrai-se a todo momento, em direção a uma manchinha preta, bem pequenininha, mais precisamente no ar, em torno da cama, exatamente em lugar nenhum. Parece uma minúscula sombra furtiva, que pode passar por alucinação.

Porém, não. Trata-se de um ser vivo. Ele voa. Voa aqui, voa acolá, de um lado a outro do quarto, fazendo galhofa desta que lhe persegue com os olhos por cima dos óculos. Vai ao teto, baixa até os pés da cama, passa diante do armário branco, onde aparece em contraste, some de novo, sobrevoa a cama novamente. Some outra vez.

Leitura retomada. Uma linha, duas linhas, três linhas, bzzzzzz... bzzzzz...bzzzzzz. Do seu lado esquerdo sobe o ruído inconfundível daquele serzinho insuportável, cuja cantoria faminta de sangue soa quase a dar eco na madrugada silenciosa e insone. Por pouco consegue pousar-lhe no braço, para uma breve refeição.

O livro, ah... O livro!

É ele que num ímpeto é atirado com toda a força, desajeitado, em ato impensado, impaciente, raivoso. É ele, o pequeno livro, relíquia emprestada com tanto carinho, para estimular os estudos de Sociologia.

O ruído para; o serzinho desaparece. A noite no quarto é novamente silêncio. Ergue o corpo lentamente, ajeita os travesseiros à cabeceira, recosta-se confortável, recoloca o livro em posição.

O livro, ah... O livro!

“A Revolução Francesa”, de Eric Hobsbawm, uma edição especial de bolso, sofre um ferimento à página 19. No impulso de ser atirado naquele ser insuportável, tem a folha rasgada.

Estaca. Prende a respiração. Tenta desamassar o lanho no papel e o faz com todo o carinho, bem de leve, com a ponta do dedo. Solta o ar. Volta a respirar.

Tão velhinho, o livrinho. Amanhã vai ganhar um curativo de durex. E uma capa extra; já é hora de dar-lhe um casaco para suportar melhor o uso depois de tanto uso.

E o serzinho? Escafedeu-se. Não se sabe vivo ou morto, o pernilongo pentelhinho. Não vale uma letra, o tal.


Créditos das imagens

1: Olhares.com

Duplo sentido, por Joana Sousa

2: arquivo pessoal

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