Novidades

Contos Fantástico: Medieval



Tema: Medieval fantásticos.

Nota de esclarecimento: por motivos internos, não publicamos nesta seção nos meses de Maio (tema: Medieval Fantástico) e Junho (tema: Espíritos) e, por isso, transferimos as respectivas postagens para Agosto e Setembro! Estamos definindo os temas para Outubro e Novembro - novidade no site da benfazeja Press.

Agradecemos a compreensão de todos!

Veja os temas para os próximos meses e como enviar o seu conto!


MELODIEVAL
André Cabral


-Venham todos ver! – anunciava o taberneiro – Zéfiro, o menino que canta com uma voz mágica! Apenas uma moeda de bronze!

-Uma moeda de bronze pra ver um garoto? O que ele tem de especial? – perguntou uma mulher que passava.

-Minha senhora, ele canta de uma forma que quem ouve se esquece dos altos impostos que o rei nos obriga a pagar! – justificou o taberneiro.

-Pois bem. Veremos – ela respondeu, dando a moeda de bronze.

Dentro da taberna, cinco pessoas esperando. E atrás do palco, o pai e o menino.

-Vamos fazer do jeito que fizemos em casa. A diferença é que tem outras pessoas assistindo – disse o pai.

Mas o menino continuou nervoso, sem falar nada. O taberneiro apareceu e disse que já era hora de se apresentarem. Quando subiram no palanque, sete pessoas na taberna. Zéfiro com vergonha, de cabeça baixa. O pai o beliscou com força. O menino prendeu o choro e começou cantar esplendorosamente. Quando terminou, a taberna imunda tinha quinze pessoas.

Os convites vieram. Por cinco moedas de prata, Zéfiro se apresentava em aniversários. Também cantava na praça, onde o pai recolhia as moedas com o chapéu. Em uma dessas ocasiões, o mago do rei passava por ali. Ouviu e viu, logo disse ao rei. A majestade mandou chamar. Diante da pressão desse convite, o menino teve febre e passou mal. O pai bateu em seu rosto, dizendo que se apresentaria para o rei, querendo ou não.

A carroça real os buscou e os levou. Ao chegar ao castelo, o rei disse a seu mago que descobrisse se havia algum feitiço no menino, antes que ele cantasse. O mago realizou seus procedimentos místicos, jogando pós coloridos e murmurando nomes. O garoto não tinha qualquer artimanha oculta. Então cantou. O rei se vislumbrou com a voz, de tal maneira que o queria morando nos campos do castelo. Agora Zéfiro se apresentava em festas reais, diante de príncipes, princesas, duques e outros títulos. Desta maneira, seu talento não ficou restrito àquelas terras, e a noticia se espalhou.

Outros reinos queriam ouvi-lo, mas o rei só autorizava mediante troca de produtos, armas ou moedas de ouro. O pai acompanhava em todas as viagens, cobrando mais do que o combinado e dormindo com várias mulheres. Mandou os alfaiates prepararem as mais belas roupas, e que os servos do rei espalhassem as mais bonitas pinturas do menino pelas ruas. Falou ao mago do rei que, antes das apresentações, fizesse encantamentos com luzes e fumaça, para dar um aspecto místico e magistral. O mago se recusou, mas o rei aprovara a ideia e ele teve que obedecer.

E o povo começou a querer saber quem era Zéfiro. Invadiram sua antiga casa e venderam tudo, dizendo que “pertencia ao menino encantado”. Ao retornar de suas extensas e cansativas viagens, ele se deparou com uma recepção diferente. Descobriram que brigara com um garoto quando frequentava a escola, e já não o achavam tão puro assim. Souberam que sua mãe era meretriz, e que por isso o pai a expulsara.

Não era mais considerado tão encantado e nem tão querido. A perseguição o deixou triste e desanimado, não saía de casa e chorava escondido.

Tudo ficou pior quando um dragão apareceu. Ele sobrevoava os céus de vez em quando, como é o costume dos dragões reconhecer toda a área antes de descerem. A qualquer dia e hora, atacaria. O povo estava amedrontado e muitos começaram a abandonar as terras.
-Estejam preparados! – anunciara o rei.

O dragão voava abaixo das nuvens. Sua couraça grossa e vermelha já podia ser vista de longe, e suas narinas deixavam um rastro de fumaça no céu. A cavalaria real disparou flechas.

O dragão pousou na torre mais alta do castelo e bradou com uma voz animalesca, gutural e assustadora:

-Onde está o garoto que dizem ter uma voz mágica? Se eu o ouvir, não queimarei uma pedra sequer!

Rapidamente o rei mandou que buscassem Zéfiro. Mas não o encontravam em nenhum dos bosques, campos ou nas torres do castelo. O dragão se impacientava e soltava faíscas.

-Está aqui! – gritou alguém da multidão.

O menino jazia no chão com uma das flechas da cavalaria no pescoço. O rei se apressou em dizer que cortaria a cabeça de alguém pelo incidente, mas o dragão já se enfurecera. Lançou gigantes labaredas de fogo contra todos. Antes de ir embora, devastou mais da metade do reino, incluindo as plantações.

A região passou a enfrentar a mais dura pobreza, pois o solo de muitas terras ficara inútil com as cinzas das chamas do dragão. O rei não podia cobrar impostos de uma população tão escassa. O reino vizinho propôs uma junção de terras, em que se tornaria soberano sobre tudo ali.

E num casebre de madeira, uma menina começava a tocar harpa tão belamente que até os pássaros desciam para ouvi-la.


André Cabral
graduado em Língua Portuguesa pela Universidade Federal de Rondônia. Vencedor do concurso de redação do Tribunal Regional Eleitoral.

@Facebook





EU NO FUTURO
Eduardo Fischer


A data era 06 de maio de 1975, estava eu com aproximadamente treze anos, um pré –adolescente com todo vigor para brincadeiras da época, como por exemplo jogar bolita, jogar bafo, colecionar álbum de figurinhas e muitas outras que a vida me reservava para aquela idade, apenas reservou, porque não cheguei a viver este momento, quando vi estava em coma provocado por uma forte dor de cabeça que até hoje não sabem os médicos explicar, o que sei, é que me vi num mundo que não era real para mim, acordei em um lugar que não conhecia no ano de 2013, na cidade de Osório, interior do RGS. Já tinha 49 anos perto de fazer 50 anos no dia 06 de junho do mesmo ano, funcionário público federal, com família , uma filha de 17 anos que não brincava com as coisas que eu conhecia, mas tinha em suas mãos uma máquina que chamava de “notbok” e outra “i pod” nomes que para mim não significavam absolutamente nada,mas enfim eu estava lá, sem entender o que eram aquelas coisas, me perguntava porque minha filha não tinha uma boneca, não pulava corda, nem jogava amarelinha? Parecia ela muito além de sua idade, não sei como conseguia usar aqueles “brinquedos”, parada , sentada em uma mesa, ou na cama até madrugada, também já tinha namorado, coisa absurda para entender, mas fazer o que , não entendia nada naquele lugar que me encontrava, minha esposa parecia não entender porque eu estava daquela maneira, dizia que eu tinha que fazer um tratamento psiquiátrico, que tinha pirado, eu por minha vez não sábia o que dizer, deixei me levar pela situação.estava lá e ao mesmo tempo não estava, quando um dia acordei do coma e me vi no lugar que nunca deveria ter saído, minha época, minha cidade... voltei do coma, foi talvez a pior coisa que aconteceu, depois de viver alguns meses naquele ambiente, a vida presente não teve mais graça, jogar bola, álbum de figurinhas, jogar bolita etc... não tinham mais significado para mim, ficava perplexo com aquela precária condição de pré- adolescente, lembrando de tudo que ficará no futuro, só me restando esperar o tempo passar e chegar carregado pelo tempo, aquele lugar. Mas uma coisa é certa depois desta viagem no futuro, preciso sim de um psiquiatra, de preferência futurista.

Eduardo Fischer
funcionário público federal




Presas Cinzentas
Gustavo Aquino dos Reis


Biografia *

“Há sacramentos do mal, assim como do bem, à nossa volta, e nós vivemos e nos movemos, na minha opinião, num mundo desconhecido, um lugar povoado de cavernas, sombras e habitantes do crepúsculo. É possível que o homem possa, às vezes, volver atrás no curso da evolução, e é minha crença que um saber terrível ainda não morreu...”.

Arthur Machen


I

Prospero forçou os olhos na escuridão. Por um momento, ajudado pela luminosidade pálida do luar, vislumbrou um movimento furtivo entre os ciprestes que ladeavam o jardim. Cauteloso, percebendo a ameaça crescer ao seu redor, preparou-se para dar o alarme.

Então, às suas costas, advindos do portão principal, passos ressoaram em seus ouvidos atentos. Espada em punho, elétrico, ele se virou. Com lábios trêmulos, balbuciou sua ordem:

— Quem está ai?

O eco de sua voz se perdeu na quietude da noite, nada mais que um sussurro agourento abafado pelo farfalhar das árvores. De súbito, saindo das sombras, um contorno feminino soou a resposta:

— Lazüe, Alta Inquisidora de Häramor.

— Lazüe! — arfou o homem, visivelmente aliviado. — Deuses... Não esperava que o mensageiro houvesse sido tão rápido, muito menos que a guarda de Ytheron se dispusesse a nos enviar um Inquisidor.

— E definitivamente eles não enviaram — obtemperou Lazüe, os olhos, velados pelo longo capuz que lhe cobria a cabeça, cintilando um brilho sombrio. — Os Magistrados de Ytheron, ao que parece, estão muito ocupados desnudando prostitutas ou extorquindo mercadores; a mão de sua justiça duvidosa não se interessa pelas regiões de Darfell. Enfim — suspirou —, eu estava em Q’huzar quando ouvi rumores sobre o assassinato do barão. Bem, quem está liderando o caso? Saerros At’ar?

— Não — respondeu Prospero, embainhando a espada com mãos nervosas. — Hadroth está à frente das investigações.

— Entendo — murmurou ela. — E o que vocês descobriram até agora?

— Muito pouco, infelizmente. Estávamos patrulhando os Corredores de Pedra quando o escravo do barão chegou até nós dizendo que ele havia sido assassinado. Liderados por Hadroth nós nos dirigimos à mansão e, prontamente, averiguamos onde ocorreu o crime. Vimos o corpo de Attälus, mas não tocamos nele com receio de perdermos alguma pista valiosa. Por isso, despachamos um mensageiro até Ytheron para que os Magistrados nos enviassem um condestável que pudesse ser responsável pelo caso e...

— Esse escravo — interrompeu a Inquisidora, enfastiada ao ter de ouvir novamente o nome de uma das mais corruptas cidades de Oldredia —, como se chama?

— Oh, sim! Chama-se Oberon e está, segundo relatos, há mais de 49 ciclos sob a posse do barão.
— E vocês já averiguaram se esse tal de Oberon não foi o autor do assassinato? — inquiriu a mulher enquanto, ociosamente, tateava a cintura de onde pendia a bainha ornamentada de uma curva cimitarra.

— Sim, e de maneira nenhuma nós descartamos a possibilidade... Ou melhor, Hadroth não a descartou — respondeu Prospero. — No entanto, se quiser saber a minha opinião, creio que isso seja pouco provável. Quando interrogamos o coitado ele estava em um estado deplorável, murmurando palavras desconexas acerca de rituais, livros antigos e habitantes do... — nesse momento, o guarda fez uma pausa e olhou para os lados, na direção das sombras que se alastravam por entre o jardim.

— Quanto a isso, Inquisidora, acho que é melhor você mesma ouvir — concluiu, depois de alguns segundos.

— Muito bem, leve-me até Hadroth — demandou ela, incomodada com aquela estranha hesitação.
Prospero aquiesceu, conduzindo-a imediatamente pela trilha pavimentada que cortava o exótico jardim. Enquanto caminhavam, a Inquisidora vislumbrou as estátuas que se destacavam acima dos muros de basalto que margeavam o espaçoso terreno: aqui e acolá podiam ser vistas as silhuetas imponentes dos antigos condes e dos aristocráticos patriarcas de Gadazzar; pétreas imagens, cinzeladas pelo formão de explorados artificies, retratando a falsa belicosidade dos Grandes Conquistadores que vieram com suas naus para saquear as Terras de Cá – assassinos, ladrões, estupradores de filhas de camponeses, a corja imunda exilada de Vaalbara responsável por mais de 200 ciclos de exploração e genocídio desenfreado nas regiões costeiras de Oldredia –, cães que ainda sim, apesar dos seus crimes aterradores, foram deificados por sacerdotes corruptos da Velha Religião.

Lazüe contorceu o rosto em um esgar e murmurou uma imprecação ao passar sob a sombra da última estátua que pontilhava o caminho – demonstrando intimamente a sua real opinião a respeito dos bravos conquistadores do Oeste. Suave, o cheiro de maresia se fez presente no momento em que ela seguiu Prospero até um pequeno aclive onde, do outro lado, uma queda abrupta indicava, lá embaixo, a presença do Mar de Topázio regurgitando suas águas salobras contra o paredão rochoso do estuário de Darfell. Não demorou muito para que os dois atravessassem o grande arco entalhado, coberto de runas que retratavam a árvore genealógica da qual descendia Attälus Hos Gadazzar, e galgassem o longo lance de degraus que conduzia até a soleira da rotunda moradia do barão.
Prospero se adiantou na direção da gigantesca porta que se destacava à frente. Apanhou uma das aldravas de ouro e com um movimento rápido bateu-a contra a superfície de carvalho, emitindo três toques secos. Não houve resposta. Lazüe olhou para trás, observando mais uma vez o cenário que a rodeava. Além das fontes borbulhantes, dos gramados bem aparados e das flores de asfódelo que suspiravam ao sabor da brisa noturna, ela viu, no centro do pátio no qual se encontrava, o contorno do parapeito semidestruído de um arcaico poço. Atraída pelo vazio que residia além daquela beirada, curiosa em relação à sua profundidade, a Inquisidora se aproximou lentamente, estranhamente disposta a examiná-lo de perto.

Porém, estalando em seus eixos, a grande porta subitamente se abriu. Já próxima do parapeito, quase divisando a fenda escura, Lazüe estancou ao ouvir a voz suave de Prospero chamando-a. De pronto, os dois adentraram a mansão. Os umbrais de carvalho rangeram e se fecharam. Do lado de fora, cinzelados pela noite, olhos vítreos, de dentro do poço, queimaram como jóias do inferno.

II

O saguão era amplo e bem iluminado.

Próximos de uma grande lareira, no átrio principal, Lazüe viu dois homens conversando em voz baixa. Um, de estatura mediana e compleição esguia, estava vestido exatamente como Prospero: cingia uma armadura de confecção simples, trabalhada em finas placas de cobre, acompanhada de um luxuoso manto escarlate que apresentava o símbolo dos Guardas da Fronteira. Já o outro era mais baixo; um anão robusto trajado em uma cintilante malha de anéis onde, engastada sobre o peitilho, se destacava a insígnia dourada que atestava a sua elevada posição de capitão.

Ruminando algo ininteligível, torcendo as longas barbas trançadas, o capitão se adiantou. Após questionar Prospero, olhou para a Inquisidora e se curvou em uma reverência.

— Este é Valreus Anrór Diadorim. E eu sou Hadroth Ben Adrunn, de Mörzzar. Estamos à sua disposição — disse ele ao alinhar as grisalhas melenas atrás das orelhas, a voz velada de malícia.
— E eu sou Lazüe Al’alar, Alta Inquisidora de Häramor e da Ordem da Rosa.

— Ora! — exclamou o anão, fingindo-se surpreso, os lábios se abrindo em um riso de pura zombaria. — Vejam vocês! Eis que temos diante de nós uma Inquisidora de Häramor... E da Ordem da Rosa! Deuses! É muito bom saber que os “Filhos do Sul”, diante da crise pelas quais suas cidades estão passando, começaram a se importar com os “Cães do Norte”!

— Poupe-me de suas palavras, Hadroth! — rosnou Lazüe. Pouco amor existia entre Mörzzar, no Norte, e Häramor, no Sul; muitas guerras haviam sido travadas entre os dois nos tempos de outrora, velhas feridas que nunca cicatrizaram. — Não estou aqui por conta de suas rixas infantis! O Cerco de Athardan ocorreu há muito tempo, e pouco me importa qual é o traseiro que atualmente está sentado no trono de Miróvia! Vamos, diga-me: a que horas ocorreu o maldito crime?
Hadroth franziu o cenho, blasfemando em voz baixa.

— Oberon — respondeu a contragosto —, disse que os gritos foram ouvidos pouco depois do entardecer. Assustado, ao correr na direção dos aposentos de Attälus, encontrou o lugar em uma completa desordem e o corpo do barão estirado no chão.

De frente para a lareira crepitante, observando as línguas de fogo que sibilavam entre os feixes de madeira, Lazüe digeriu as informações. Junto à porta principal, Prospero dedicou-se a examinar os contornos do corpo da Inquisidora: as pernas torneadas, as espáduas delineadas e os braços rijos da mulher indicavam o rigoroso treinamento pelo qual ela havia passado. Cauteloso, movendo-se rente ao seu exuberante objeto de escrutínio, ele devorou o ardor daquela beleza exótica e singular. Tendo-a agora de perfil, tentou ultrapassar a ingrata barreira que o longo capuz trajado por ela conferia.

— A visão o agrada, guarda? – disse Lazüe inesperadamente, seus olhos fixos nas chamas.
Pego de surpresa, Prospero engasgou. Hadroth, vendo o rosto do sujeito corar como uma maça, desanuviou as feições carrancudas e troçou:

— Veja só, Valreus! Pelo que parece o nosso novato nunca havia visto uma Inquisidora antes, hein!? Hah! Sim, Prospero, elas são lindas. Falenas que vagam nos prados do Sul, flores escolhidas a dedo e colhidas à mão dos jardins de Marobar; mulheres versadas desde a tenra infância na arte da guerra, forjadas no sangue da justiça e nos dogmas ortodoxos da Nova Religião. Sim, são as Matronas da Ordem, as Yäjd-Andorar, se ainda estou familiarizado com a velha nomenclatura... Perdoe-o, Lazüe de Häramor. Afinal, não é culpa dele que todas as mulheres da Ordem da Rosa sejam assim... Como posso dizer? Delicio...!

— Dobre sua língua, cão! — bradou Lazüe, rangendo os poderosos dentes. — Ou eu juro que teremos mais um assassinato aqui!

Hadroth abriu a boca, pronto para trovejar uma imprecação. Sua mão esquerda, em um movimento automático, buscou o cabo do machado. Entretanto, ciente do perigo que corria, moderou sua ira - o anão não era nenhum tolo e conhecia muito bem as armadilhas letais que se escondiam por detrás da aparência frágil da Inquisidora; a lembrança amarga do Cerco de Athardan ainda era fresca em sua memória.

Lazüe permaneceu estática, atenta a qualquer movimento de Hadroth. Porém, depois de concluir que não haveria nenhuma ação temerária por parte do capitão, meneou os ombros e retirou o capuz que lhe escondia a cabeça. Cortados na altura dos ombros, seus graciosos cabelos escuros reluziram diante dos homens. Boquiaberto, cuidadoso o bastante para não se deixar ser pego olhando-a diretamente, Prospero viu que o semblante pálido da Inquisidora era coroado por um par reluzente de olhos esverdeados.

— Onde está o escravo? — disse ela, liberando todos do torpor momentâneo que a sua beleza havia causado. — Tragam-no aqui!

O anão acenou uma ordem à Valreus que, imediatamente, seguiu até um corredor adjunto. Houve alguns grunhidos, sons de pés, protestos e cadeiras sendo arrastadas, mas, após alguns momentos, o guarda voltou conduzindo uma figura de cabelos brancos. O homem, sem dizer uma só palavra, sentou-se rapidamente na cadeira que lhe havia sido indicada.

— Você é Oberon? — perguntou Lazüe, ríspida.

— S-S-Sim... Chamo-me O-O-Oberon Neur — gaguejou o homem em resposta.

— Bem, temos um caso complicado em mãos — disse ela —, e, para solucioná-lo, precisaremos de toda a sua cooperação. Embora, creio que você seja o único suspeito.

— Eu não fiz nada! — arfou Oberon, suas mãos ossudas agitando-se sobre o apoio da cadeira. — Fui eu que avisei os guardas sobre o assassinato do bar...!

— Poupe-me! — trovejou a Inquisidora. — Creia-me, você não seria o primeiro a ter usado desse artifício para despistar indícios de culpa! Vamos, conte-me o que aconteceu.

— Ele está morto. Morto! — soluçou o escravo. — Eu avisei para não ler aquele livro... Tolo, tolo! Agora, o seu corpo será levado por Eles...

— Oberon! — ordenou ela, puxando-lhe os ralos cabelos. — Do que você está falando? Que livro? Quem são eles?

— “Sussurros na escuridão...” — balbuciou Oberon. — Era o que ele vinha escutando ultimamente. “Eles estão vindo, e irão me conceder a vida eterna”, era o que Attälus me dizia. Maldito, maldito livro!

— Qual livro? — bramiu Lazüe impaciente, sacando a cimitarra com tanta fúria que a lâmina afiada zuniu. — Diga-me, ou eu juro por Cernunnos que eu corto sua orelha!

— O livro... O livro que o barão conseguiu através de um erudito de Samärcand — choramingou o escravo. — Um homem, membro do Círculo, que havia dito para Attälus sobre “A ascensão à vida eterna através dos Habitantes do Crepúsculo”.

— Samärcand! — precipitou-se Hadroth ao ouvir o nome, os olhos escuros brilhando de espanto. — Inquisidora, aqui no Norte esse nome não é visto como bom agouro. Muitas coisas anormais caminham por lá e existem rumores sobre fenômenos estranhos acontecendo além da Última Fronteira.

— E o grande capitão de Mörzzar crê em dragões também? — escarneceu Lazüe. — Esse homem obviamente está mentindo! Samärcand é um lugar vazio: um vale estéril coberto de ruínas arcaicas desde as Marchas! Ah, e o Círculo não é nada mais que uma lenda absurda acerca de cultos ligados às artes da necromancia. Fantasias derivadas das mentes sensíveis de pagãos e campesinos. Você irá me contar a verdade! — disse ela voltando-se para Oberon e acertando-lhe a boca com a guarda da cimitarra. — Eu quero a verdade!

— Essa é a verdade — berrou ele, cuspindo sangue dos lábios quebrados —, os Habitantes do Crepúsculo! Sim, Eles estão vindo para levar a carcaça gorda de Attälus! O pacto foi selado sob a lua chifruda. Sim, ele terá a vida eterna que tanto queria... A eternidade desfrutada nas criptas do inferno! Presas Cinzentas, presas cinzentas! Vourdalak, Vourdalak! Eles estão vindo...

Todos se afastaram no momento em que viram Oberon convulsionar em uma crise de histeria. Gritando alto, contorcendo-se, ele terminou por se esborrachar no chão da sala. Lazüe, ao diagnosticar que o homem havia simplesmente desmaiado, praguejou.

— Valreus, cuide desse tolo supersticioso — ordenou ela, chutando as pernas do escravo com visível desdém. — Não o deixe escapar! Hadroth, Prospero, o quarto do barão fica no segundo andar? Ótimo, levem-me até lá.

III

Comandados pela Inquisidora, os homens mantiveram-se à distância no instante em que a porta foi aberta vagarosamente. Adiantando-se um pouco à frente, cruzando a soleira, ela observou o interior do aposento luxuoso onde armas de feitio fantástico, cruzadas no alto das paredes envernizadas, reluziam à luz das velas depostas em castiçais de prata. Olhou os ricos tapetes que forravam o encerado assoalho, assim como as cortinas esvoaçantes que pendiam das janelas ligeiramente entreabertas; tecidos exóticos, caríssimos, vindos da longínqua Shamir e da opulenta Tong X’har. Espalhados em profusão, enclausurados pelas altas estantes repletas de publicações antigas que cercavam a alcova, quinquilharias, objetos arcaicos e pergaminhos podiam ser vistos sobre os divãs e as poltronas luxuosas.

No centro do quarto, estirado de bruços como um montante de gordura desfeita, Lazüe pôde ver o vulto sem vida de Attälus. Aproximou-se do corpo, notando que, ao seu lado, próximo dos dedos gorduchos, jazia aberto um estranho tomo de páginas amareladas. Com mãos experientes, ela tateou a nuca e as costas balofas do morto. Consternada, murmurou:

— Impossível! Ainda está quente...

Aguçada pelo mistério, girou o torso do barão para cima, apalpando-lhe o ventre e a base do pescoço.

— Não há marcas de violência — anunciou aos guardas que a aguardavam impacientemente. — É como se ele tivesse morrido de causas naturais.

Então, num gesto que Hadroth julgou detestável, Lazüe escancarou a boca mole de Attälus e puxou sua língua roxa para fora. — Nenhum odor — ela constatou ao cheirar o seu interior varias vezes. — Esse homem não foi envenenado.

Num átimo, sua atenção se voltou para o livro que estava com as páginas abertas sobre o chão. Apanhando-o com as mãos suadas, a Inquisidora declamou, em voz alta, o seu conteúdo marcado pelas anotações apressadas do barão:

— “Noite sem lua... Clame pelas sombras. Hotath, Skelos e N’zakg! Escuridão em seu apogeu. Os mortos levantam. Promessa de eternidade... Ahuz Zatragrammaton. Habitantes do Crepúsculo... Levem-me onde nem mesmo a morte pode morrer. Presas Cinzentas... Vourdalak”.

Assim que terminou de ler a estranha passagem, Lazüe sentiu um arrepio frio tocar sua espinha. As cortinas se agitaram com uma estranha lufada de ar. Eufórica, a Inquisidora virou apressadamente as páginas em direção à contracapa, como se todas as respostas dos enigmas daquela noite estivessem escondidas ali. Sua voz soou rouca no momento em que seus olhos deram com o autor daquele livro:

— Malleus Helkär, de Samärcand!

— Por Derketo, Hanumän e Nemedius! — jurou Prospero, fazendo o sinal dos Velhos Deuses. — Então, o escravo não estava mentind...!

De repente, todos se viram estáticos em suas ações quando um grito de congelar a alma ecoou do primeiro andar.

— Valreus! — exclamou Hadroth, brandindo o machado; suas pequenas pernas desembestando em direção das escadas. Prospero, cambaleante, seguiu logo atrás e Lazüe, atirando o livro no chão, correu em seu encalço.

IV

O saguão estava em silêncio; o fogo da lareira, extinto. Forçada em suas dobradiças, a porta de entrada jazia escancarada: um cheiro mefítico entrando pela corrente de ar. Em meio à escuridão não se via sinal de Oberon, mas, agonizando em uma poça de sangue, destacava-se a silhueta de Valreus.

— O que aconteceu? — bradou Hadroth, as mãos emplastadas com o sangue do companheiro.
O guarda balbuciou algo incompreensível enquanto os dedos febris apontavam para o lado de fora. Num suspiro, seus movimentos cessaram. Automaticamente, todos olharam na direção das trevas que permeavam o exterior da mansão, sentindo a presença de uma silente ameaça.

Cimitarra na mão, Lazüe postou-se próxima da porta, forçando a visão em uma tentativa de divisar o lado de fora. Não teve certeza, mas viu um contorno difuso se esgueirar a partir do parapeito do poço.

— Oberon, seu maldito! Não pense que pode fugir de mim! — gritou a Inquisidora.
Um riso cruel gorgolejou da escuridão ao mesmo tempo em que um objeto indefinido, esguichando um líquido viscoso, rolou em sua direção.

— Deu... Deuses! — gaguejou Lazüe quando reconheceu que o objeto se tratava da cabeça do escravo; as feições, ressaltadas pela agonia, emolduradas em branca máscara de horror. — Quem está ai?

Não houve resposta, nem mesmo quando aqueles olhos faiscaram nas trevas e saltaram sobre eles. Tudo ocorreu em um lampejo de segundo onde Lazüe nem sequer piscou. Pasma, ela viu um vulto sombrio atacar Hadroth que, paralisado, sentiu presas afiadas estraçalharem seu pescoço. No mesmo momento, acompanhando o grito de morte do anão, o guincho aterrador de Prospero ressoou no instante em que alguma coisa investiu contra suas entranhas.

Então, de repente, ela se viu ali, sozinha; toda a sua autoconfiança estilhaçada pela ação ofuscante de um terror desconhecido. Trêmula, ainda tentou empunhar desastradamente sua cimitarra quando um urro inumano trovejou ao seu redor.

Depois, tudo se apagou diante de si.

V

Ela gemeu dolorosamente ao abrir os olhos. O cheiro forte de sangue empesteava todo o local e, apesar de ainda estar cercada pela escuridão, Lazüe pode distinguir o corpo ensanguentado de Prospero contorcendo-se em seus últimos estertores. Pondo-se de pé com dificuldade, enquanto acalentava o ferimento na parte central da cabeça, sentiu seus joelhos vacilarem.

Subitamente, sons de passos, estalando nas madeiras das escadas, fizeram com que seu sangue gelasse nas veias. A Inquisidora os viu descer, pouco a pouco; seus contornos se tornando mais fortes, e as feições humanoides cada vez mais delineadas pelo clarão da lua que dardejava através da porta aberta. Eram três: formas grotescas de vida, humanoides, olhos vermelhos, presas cinzentas e peles opacas vagueando na meia-luz do átrio. Sem dar a mínima atenção a ela, como fantasmas a caminho de um encontro, as figuras encurvadas atravessaram a entrada principal, uma a uma, seguindo em direção ao poço sinistro.

Sem saber que papel ocupava nesse mundo ou no outro, Lazüe se manteve imóvel. Horrorizada, depois de ter visto dois dos monstros saltarem dentro da escuridão do poço, contemplou a silhueta do último vulto parar acima da beirada destruída. Havia um grande peso sobre suas costas onduladas e ela estremeceu ao tentar divagar o que deveria ser aquilo.

Então, em um movimento brusco, o tecido ensebado que cobria o fardo se soltou e a mulher, enlouquecida, pôde ver o rosto inchado de Attälus Hos Gadazzar.

Seus olhos começaram a girar nas órbitas; a boca espumando em uma crise de nervos. Sombras cresceram e, antes de entrar em colapso, a Inquisidora escutou a gargalhada espectral do demônio no momento em que, com o corpo gordo do barão sobre as costas, mergulhou nas trevas abissais do poço.

Lazüe Al’alar de Häramor e da Ordem da Rosa, caindo em frente à soleira da mansão, convulsionando, entregou-se às asas misericordiosas do oblívio. Porém, à sua volta, sussurros ululantes ainda ecoavam cada vez mais distantes: Vourdalak! Vourdalak...



Gustavo Aquino dos Reis
Gustavo Aquino Dos Reis é paulista, formado em história pela PUC, nascido em 1987, escreve desde os 19 anos. Iniciou sua gana literária escrevendo pequenas poesias e contos baseados nas histórias de J.R.R. Tolkien. Depois, influenciado por Robert E. Howard, Lovecraft, Dunsany, Nei Leandro de Castro e Marco Carvalho, começou a se aventurar com estórias sobre terrores sobrenaturais, espada e feitiçaria, a cultura sertaneja do Brasil e os ritos africanos contidos na Bahia. Atualmente, Gustavo Aquino dos Reis encontra-se em uma difícil tarefa para conciliar o seu trabalho com o prazer de escrever.

@Facebook


***

Créditos da imagem: Olhares.com
Mercado Medieval de Óbidos, Julho 2007, por João Torres

Nenhum comentário