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E minha varanda se enche de sorrisos verdes




Crônica de Giovana Damaceno.

Lembro quando aprendi a aguar as plantas do quintal. Naquela época ainda se privilegiavam os quintais de terra, com horta e árvores, além das ornamentais. E morávamos numa casa pequena, destas que ficam lá no fundo de um terreno grande e comprido. Para mim, aliás, era mesmo grande e comprido, pois morei ali em minha primeira infância, época da vida em que tudo parece muito maior do que realmente é.

Num daqueles fins de tarde em que minha mãe se dispunha um tempo para banhar as plantas, pedi para fazê-lo. Ela me entregou a mangueira e ajustou o esguicho. Imediatamente direcionei o jato de água para o alto, para que molhasse as folhas. Queria vê-las bem verdes, refrescadas pela água em forma de chuva. Minha irmã mais velha, que estava perto, me passou um leve pito, seguido da explicação de que não se fazia daquele jeito; as plantas deveriam ser aguadas somente na terra, “porque é a raiz que precisa”.

Quanta frustração. E foi tamanha que jamais esqueci. As pobrezinhas só sentiam gosto de água nas folhas quando chovia. Pensava que sofriam, ainda mais nesta cidade que sempre viveu embaixo de pó da usina. E é claro que só respeitei a regra estabelecida enquanto não tive minha própria casa, minhas próprias plantas, sobre as quais hoje faço chover com vontade quando abro a mangueira. Depois de um dia se sol, elas ganham um banho refrescante no fim da tarde. Posso ver dezenas de sorrisos verdes na varanda e no quintal, as gotas escorrendo pelas folhas, que balançam ao contato com o jato de água.

Um tempo atrás um amigo me disse: “Você gosta mesmo deste hobby de cuidar de planta, né?”. Ao que respondi: “Não é hobby; é vida dentro de casa”. No instante em que respondi recordei uma pessoa conhecida, vítima de câncer, a quem minha irmã visitou anos atrás. A doença a deprimiu a tal ponto que se recusava ao tratamento. Ela emudeceu, se trancou em casa. E de lá minha irmã voltou com observações desanimadoras a respeito do ambiente. “A casa é fria, seca, sombria; não tem uma plantinha. Tudo lá é muito triste.”.

“Não tem uma plantinha.”. É uma consideração significativa para aquela situação. Tão bonita e fresca fica minha varanda e meu quintal durante e após a rega das plantas. Tão gratificante vê-las crescendo vigorosas, bem verdes, adaptadas. Tão revigorante e ao mesmo tempo relaxante olhá-las por longo tempo quando estou angustiada ou ansiosa. Vida dentro de casa. É bem por aí.




Imagem: Corbis

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