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O ideal de felicidade




Crônica, por Erica Gaião

Amor e felicidade são assuntos recorrentes em textos, poesias, romances e conversas entre amigos. E rendem boas teorias, geralmente. Na verdade são os temas preferidos pela maioria e comigo não poderia ser diferente, claro. Escrevo sobre amor. Invento motivos para a felicidade, quando a mão da tristeza me aperta. Alimento o meu espírito com a ideia – um pouco infantil, eu sei - de que no amor reside a cura para muitos dos nossos males, e que a felicidade é uma deliciosa consequência de uma vida marcada pela persistência. Afinal, insistir no amor e perseguir a felicidade são caminhos paralelos, que a partir de um determinado ponto até se confundem, o que torna inevitável condicionar um ao outro. De fato, o que todo mundo almeja na vida é ser feliz, sobretudo, tendo um amor do lado. E é exatamente a partir dessa ideia romântica que, para a maioria, a felicidade se concretiza, assumindo uma forma, uma identidade, sendo quase sempre projetada fora ou atribuída a algo além dela mesma. É assim que reduzimos a sua dimensão a um único ponto: O amor. Amor e felicidade rimam com sucesso, com uma vida bem-sucedida, já reparou? Somos forjados para viver assim, desde cedo. Somos forjados para buscar um ideal de vida e, amor e felicidade, são indubitavelmente as bases de quase tudo que nos completa e nos sustenta. E sofrer por eles ou por qualquer outro motivo, o que nos fragmenta. Porque enquanto ser feliz é necessário, sofrer é intolerável. Escondemos as tristezas em um canto qualquer e estabelecemos como regra o ser-feliz-a-partir-de-agora. Inventamos manuais de conduta e comportamento que nos dê o passo a passo para dissolver tristezas e inventar amor e felicidade até onde não tem. Mas, até que ponto isso é real e necessário? Quando colocamos os pés dentro da realidade, podemos perceber que nada é tão simples assim, a ponto de ser resolvido com doses diárias de amor e promessas de felicidade. Amar e ser amado, nem sempre é indício de uma vida plena e feliz. Comprar tudo e poder ter tudo aquilo que se deseja, nem sempre é indício de uma vida plena e feliz. A felicidade genuína, ou até mesmo a comprada, não cura nada e nem sustenta sozinha uma vida de contradições, privações e escassez. Às vezes, é só uma ideia paliativa ou uma forma ideal de vida, que não pode ser mantida por muito tempo. Não podemos tapar o sol com a peneira, acreditando nessa mágica visão de plenitude oferecida pelo ideal de felicidade e sabe por quê? Porque o ser humano, esse complexo indivíduo, abriga dentro de si abismos profundos, intermináveis. Seus sentimentos podem sofrer fissuras abissais, quase irrecuperáveis a curto prazo. Suas dores são sempre concretas e reais, e é exatamente aí que mora o perigo. Como lidar com uma dor concreta e estabelecer limites saudáveis entre aquilo que desejamos ter e aquilo que efetivamente alcançamos? Como estabelecer limites para o sofrimento? A resposta talvez seja esta: experimentando cada detalhe dos sentimentos, sendo dor ou alegria.

O que quero dizer com isso? Bom...

É inegável que a felicidade é o que todo mundo quer. Ser feliz é tão urgente e necessário para o ser humano que, se a felicidade fosse uma pessoa de carne e osso, talvez estivesse exausta com tanta perseguição. A verdade é que perseguimos a felicidade – ou a ideia de uma vida feliz - com afinco, desde a antiguidade. Nossa mania de ser feliz é ancestral, quase um hábito adquirido com o tempo. O próprio Aristóteles, ao elaborar a sua ética, concluiu que a felicidade é a finalidade suprema da vida, que preside e justifica todas as demais. Uma consequência merecida de uma vida bem vivida conforme a virtude perfeita, onde o individuo através da prática, encontra a justa medida para cada sentimento que experimenta, às vezes, no curso de uma vida inteira e, ao final dela, a felicidade é a recompensa. Ou, quando o universo entendendo o esforço individual, concede aquele instante de vida que vale por si só, que os gregos chamavam de eudaimonia e que nós, sintetizando toda a ideia contida na palavra, traduzimos como felicidade. Portanto, desde a Grécia antiga falamos de algo que é objetivo de vida e por ser assim, tudo aquilo que fazemos e sentimos se justifica pela ideia de felicidade – até mesmo o amor que sentimos por algo ou por alguém. Ou seja, tudo converge para o encontro com a felicidade.

E continua assim. Só que hoje a felicidade não é apenas um objetivo de vida, mas passou a ser compreendida também como um direito de todos e uma obrigação pessoal. A obrigação pessoal de buscar a felicidade e ser feliz. É isso que a sociedade nos cobra e nos impõe. E concordo quando dizem que a felicidade é um direito, mas a concebo como um direito assim como qualquer outro. Nem mais, nem menos. E o problema não está nessa questão. O problema está naquilo que fazemos quando o direito à felicidade é ameaçado pela possibilidade de tristeza. O problema está nos sacrifícios que fazemos para garantir a supremacia da felicidade e a extinção definitiva da tristeza. O problema está na forma como nos comportamos e naquilo que compramos como ideal de vida. Porque sendo a felicidade a meta; sendo a felicidade reconhecida como um direito, a tristeza, por sua vez, é uma abominação. E hoje, mais do que no passado, é intolerável sentir tristeza e abominável ter alguém sofrendo por perto. Nada ou quase ninguém - nem o amor ou a ideia que fazemos dele - tolera um sofredor por muito tempo (como se houvesse um tempo específico para o sofrimento). Imediatamente arrumamos um jeito de diminuir a dor, apresentando a quem sofre fatos ou comparando o seu problema a situações muito piores - uma espécie de tratamento de choque -, sem compreender que cada um é único e individual dentro do universo; sem compreender que o que vale para um, não vale para outros, justamente por isso. Ou ainda pregando conceitos como os defendidos pela moral cristã de resignação e culpa. Somos sempre culpados; nos culpamos; culpamos o outro; culpamos o mundo e depois, aceitamos resignados, sem luta, sem compreensão alguma acerca dos motivos. Simplesmente aceitamos. E aceitamos porque o sofrimento tornou-se um sentimento inconcebível, intolerável. Porque essa é a lógica contemporânea que permeia a ideia de felicidade: aniquilar o sentir e todas as suas vertentes. Aceitar, sem compreender; anestesiar os motivos e viver uma forma de vida reconhecida pela maioria como sendo a ideal. E dentro dessa perspectiva contemporânea de sentimentos líquidos, de respostas rápidas e alívio imediato para uma dor inesperada, nossas tristezas tornam-se curáveis em um curto espaço de tempo; nossas tristezas são anestesiadas com medicações - prescritas ou não - que encolhem o sentir, comprometem a percepção e reduzem o espaço em nossa alma para as indesejáveis sensações de desconforto, quando nós mesmos em casos superficiais e não patológicos, somos capazes de absorver e dissolver cada impressão negativa, dentro de um período particular de maturação e dissolução. É só dar tempo ao tempo. Somos perfeitamente capazes de dar conta do que sentimos.

Não quero dizer com isso que há prazer no sofrimento porque de fato, dentro do que podemos considerar como saudável, não há prazer algum na dor – exceto para os que sofrem de algum tipo de patologia. O sofrimento em si não deve ser compreendido como uma escolha consciente. Talvez, seja só uma consequência dos passos que damos enquanto existimos porque ninguém, voluntariamente, escolhe sofrer. O sofrimento é que nos escolhe, quando ousamos viver a vida com os seus prós e contras. E, provavelmente esteja aqui o pulo do gato: entender a vida com seus prós e contras, experimentando-a. A experiência pode nos livrar dessa moral que nos infantiliza, o que não significa romper com o 'dogma' do romantismo ou do ideal de uma vida perfeita. É bom idealizar amores e buscar na vida situações que despertem alegrias. É saudável e humano sonhar, idealizar. É bom viver bem. Mas viver bem implica também o sofrer, o vivenciar, o experimentar. E mais importante do que diminuir o ato de sofrer com paliativos ou falsos ideais comprados, que nos vendem formas de vida e ditam regras de como devemos viver, é entender que sofrer é um processo natural pelo qual só passa aquele que está vivo. Que o sofrimento é peculiar à vida e que ninguém o procura porque quer e precisa, mas ele vem ao nosso encontro, exteriorizado através do choque de nossa interioridade com o mundo, com a sociedade, com a natureza, com as relações que estabelecemos. Viver inclui um kit completo de alegrias e tristezas que se alternam, porque a vida em si implica em perdas, ganhos, empréstimos e dívidas; e são essas possibilidades, essas alternâncias, que conferem valor a nossa existência.

Existir, portanto, está além do simples viver por viver. Existir é entrar em contato com o corpo, com a alma, com os sentimentos, com as sensações e com o mundo exterior. Só assim é possível compreender que o sofrimento, tal qual a felicidade e o amor, também confere a nossa existência alguns sentidos: evolução, crescimento, conhecimento e, sobretudo, amadurecimento. Por isso, antes de tentarmos aniquilar, banir ou evitar as tristezas, comprando formas e fórmulas de felicidade, devemos romper com essa visão platônica de mundo ideal, onde nós devemos ser a cópia daquilo que é perfeito e imutável. Daquilo que é modelo. Não devemos ser nada além do que somos, mas podemos, sem dúvida, melhorar a nossa condição humana. O ideal deve servir de inspiração e nunca transformar-se numa obrigação. Porque verdade seja dita, somos imperfeitos, não tem jeito. Em tese, somos menores do que supomos. Somos restritos, excludentes e idealizamos, porque talvez, inconscientemente, saibamos o quanto somos limitados, embora reconhecidamente seres dotados de razão e inteligência. Mas, ainda assim, nossa consciência quando preservada de ideais, nos permite trabalhar pelo aperfeiçoamento. Perceber e reconhecer isso, já é um passo; porque existir exige, também, certas capacidades como mutabilidade, criatividade e percepção. Existir exige muito de nós e nós exigimos muito da vida por conta disso. Exigimos a felicidade como recompensa... E, talvez, a felicidade seja apenas o resultado de uma composição harmoniosa de pequenas alegrias - aquelas que residem nos detalhes -, que se encaixam nas nossas expectativas. Talvez a felicidade seja simples, sem exageros e até se entristeça, como nós, de vez em quando. Talvez a felicidade seja só mais uma invenção humana, como tantas outras. Ou, provavelmente, a felicidade seja mesmo uma consequência da vida, o que nada tem a ver com ser, efetivamente, uma obrigação. Não sei, e acho que não temos como saber. Só mesmo experimentando a vida.


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