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Um texto para ler num fim de domingo





Crônica, por Mariana Collares.


Ninguém me entendia do alto daquele domingo solitário e moroso, cheio de sono e de mim mesma, alguns poucos duendes fantasiados de gatos persa, um tapete e o sol da janela, à tarde.

Era uma paz verdadeira, dessas que a gente gosta de sentir logo cedo, quando acorda, e enquanto toma o café na sacada olhando para o céu azul, e depois, na corridinha à beira do rio, na parada para o almoço na mesa crua e sem mais pratos, e no livro aberto sobre o chão do apartamento.

Éramos eu e mim mesma, respirando um dia consolador de uma só nota, como se todo o planeta pudesse caber ali - naquela sala de estar, entre o tapete e a xícara de café recém feito, e a página em branco do computador à espera do texto que nunca visitava.

Éramos eu e ela mesma, juntas e eternamente insatisfeitas com o barulho, com o estorvo, o toque do telefone, a campainha insistente, e o vozerio dos vizinhos, e os ruídos dos carros ao longe, na esquina solitária também, e tão feliz em ser assim.

Do alto da minha paz, eu posso ser quem sou. Não há amarras, não preciso ser inteligente, tampouco burra, não há quem possa seduzir e o dia finda sem se irritar comigo por não lhe ter dito “bom dia”, quando acordei.

Do alto da minha paz, eu me viro em tantas quantas possa ser, e penso e repenso alto de dentro do meu cérebro, e tão alto que os ouvidos se chocam e pedem silêncio.

Do alto da minha paz, ninguém precisa escutar nada, calar ou me fazer calar, não há um único motivo por que rir ou chorar, e eu posso rir e chorar à toa, sem que isso sangre ou fira nada além do que os sinais deste meu rosto cansado.

Do alto da minha paz eu sou mais alta, e melhor em mim. Eu caibo em todos os meus medos e entendo os meus anseios, e até posso pensar em como seria a minha falta de paz na falta de solidão, e em como poderia viver sem ela, ou desacompanhada de mim mesma, e me sentir tão larga e forte quanto sou agora. Assim como nesse dia lento, neste domingo quieto e ensimesmado, e que serena uma tarde de plenitude e conforto e preguiça de nada ser além de um estar só.

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