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Você só ama uma vez




Conto de Leila Krüger!


Ouvi chavões a juventude inteira: “Você só ama uma vez”; “encontre um amor”, “quem ama não trai”. E uma miríade de outros conselhos que o coração insiste em contrariar. Veja bem, não somos nós, mas ele. Que é mais forte do que a gente.

Sonhei encontrar uma princesa, que acaso tivesse perdido seu sapatinho em alguma esquina; eu seria seu príncipe, outrora sapo, e me casaria com ela, e teríamos uma família e eu a amaria para todo o sempre. Veja bem, para todo o sempre. O que significa essa cultura junkie puritana?

Desculpem, estou revoltado. As palavras saem como facas, estou confuso e bebi mais rum do que deveria. Rum é a bebida dos piratas, sabia? É forte. Trinta e cinco por cento de álcool, o mesmo que aguardente e três vezes o vinho. Enfim, pouco interessa. Estou com raiva porque as coisas aconteceram tão imprevisíveis que me fizeram sujo.

Eu estou em um lugar onde muitas pessoas gostariam de estar: Cancún, México, século XXI, lugar de praia e sonhos. Então eu me lembro de que, um dia, sonhei com uma princesa...

Encontrei duas.

Dois sapatinhos, duas princesas, duas vidas. Eu, um só.

Uma é a oficial. Aquela que todo mundo conhece, que eu levo até em festinha de criança. Mãe do meu primeiro filho, usa aliança dourada na mão esquerda, dorme todas as noites comigo, me chama de seu. Às vezes me pergunto se ela sabe ou desconfia da outra. Que também é mãe, que dorme comigo e também me chama de seu. Não usa aliança na mão esquerda, nem na direita, nem nada. Eu sou das duas. Elas são minhas.

Não moro no Oriente, onde eles aceitam melhor o casamento com várias mulheres. Aqui, no Brasil (ou melhor, lá, já que estou de férias no México), não é permitido se casar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Isso se chama bigamia e é crime. É crime amar mais de uma pessoa. Eu queria pedir Isabel em casamento, mas não posso. Já tenho Sílvia, faz dez anos, como esposa.

E é engraçado como o amor pode ser tão diverso. Veja bem, Sílvia, minha oficial. Sílvia é arquiteta, pintora, escultora, morou em Paris e Helsinque, para quem não sabe a capital da distante Finlândia. Sílvia tem Mestrado, Sílvia fala japonês, francês, inglês e finlandês e belisca alemão. Sílvia sabe o que é ser chique, Sílvia é refinada. Sílvia veste muito preto, organiza suas exposições de arte. Sílvia me conheceu quando tinha 24 anos, e eu 30, Sílvia não cozinha e não tem muito tempo para o sexo.

E tem Isabel, que é simples e mal terminou o segundo grau. Mora em um bairro humilde, trabalha com costuras, tem os olhos castanho-escuros como duas bolitas delicadas. Isabel não fala muito, não xinga muito, não deve saber quem é Picasso. Muito menos Sartre. Isabel tem um casal de filhos, a exemplo de Sílvia. Isabel tem a pele morena como uma moura, tem unhas curtas, boca macia um tanto indígena, seios sem silicone e o sorriso capaz de encantar um homem.

E, mesmo Sílvia sendo às vezes desagradável, egocêntrica e esnobe, eu amo Sílvia. Isabel é distraída, esquecida, inventa mentirinhas e vive escondida, e amo Isabel também. Sílvia e Isabel dizem que me amam, mas elas não se conhecem. Elas me conhecem melhor que ninguém. Cada uma um lado meu.

Gosto de tomar cappuccino com Sílvia em Copacabana, gosto de tomar cerveja com Isabel na Zona Norte. Isabel às vezes não entende o que eu falo, mas ri. Ela sempre ri. Admiro seus cabelos negros e grossos até a cintura, me perco em suas curvas. Reverencio as madeixas loiras e curtas de Sílvia e seus perfumes caros. Amo as duas. Não fico sem nenhuma.

Já tem quase uma década. Após ter conhecido Sílvia e me apaixonado, meses depois conheci Isabel. Às vésperas do meu casamento. Já faz quase uma década que amo Sílvia e Isabel. Eu as amei no momento em que as conheci. Elas me amam e me fazem um bígamo muito feliz e realizado! Embora possa ser um crime amor dobrado.

Hoje vou jantar com Isabel, ela está comigo. Bebeu rum e foi dormir, após o sexo selvagem que não tenho com Sílvia. Vamos mais tarde jantar naquele velho restaurante da moda que adoramos em Cancún, e pediremos o mesmo prato que da primeira vez que estivemos aqui. Isabel gosta de peixes, nisso combina com Sílvia que é amante de sushi e sashimi. Já eu prefiro carne bovina, mas as acompanho.

Isabel gosta de bebidas fortes, como eu; Sílvia gosta de vinhos suaves importados. Isabel gosta de comédias românticas, Sílvia gosta de cinema europeu, como eu. Isabel planta flores no jardim, Sílvia sabe os nomes de quase todas as flores. Isabel não tem família, foi criada pela avó, Sílvia tem uma grande e exibida família italiana de artistas e filósofos. Sílvia gosta de fotografar, e fotografa bem, Isabel gosta de ser fotografada embora seja um tanto tímida. Sílvia é desinibida, Isabel é muito mais que linda.

Isabel tem vinte e sete anos, Sílvia trinta e quatro. Isabel tinha, quando a conheci, dezoito, e acabara de chegar à cidade. Sílvia é carioca da gema, mas conhece o mundo. Isabel às vezes quer conhecer sua mãe em Tocantins, mas tem medo e prefere deixar para lá. Meus quatro filhos, dois morenos como Isabel e dois loiros como Sílvia, nunca se viram, como minhas mulheres. Pergunto-me se isso algum dia ocorrerá, e como seria...

Isabel quer voltar a estudar, ela me disse. Sílvia quer Doutorado. Isabel é sábia, Sílvia é inteligente. Isabel beija devagar, Sílvia beija firme. Isabel deita no meu colo no sofá, Sílvia faz poses para mim no sofá. Isabel me chama de alemão, Sílvia me chama de @querido@.

Ninguém sabe. Ninguém pode saber. Ninguém nunca soube, exceto meus grandes amigos Roberto e Micão. Micão não é fiel, Roberto é protestante e diz que nunca traiu. Eles me entendem, ou tentam. Penso que amigos são para isso, para acolher sem entender. Tenho amigo pudico, galinha, gay enrustido, esquisito, “esponja” (desses tenho vários, e sou um deles), vegetariano, hindu, solteiro convicto... E tem eu, que tenho dois amores, duas almas, duas vidas para cuidar. Uma diferente da outra. As duas combinam comigo.

Mas por que conto todo isso? É porque, provavelmente esta noite, Sílvia vai descobrir sobre Isabel. Chegará em casa e deitará na cama onde sempre deita. Deixei, por um descuido, a câmera fotográfica em cima da cama. Mexerica como é, e curiosa, Sílvia irá olhar as fotos da câmera. E lá estaremos eu e Isabel demonstrando nosso amor. Lá estarão fotos de quase dez anos atrás até agora, como uma linha do tempo. Minha câmera de estimação, que eu pretendia levar à Cancún.

Não prevejo qual será a reação de Sílvia, mesmo a conhecendo bem.

Nunca conhecemos o pior das pessoas, penso eu, até que elas nos odeiem. E Sílvia vai me odiar. Ou não. Mas eu a conheço, ela vai me odiar. Desliguei os celulares. Estou aguardando uma ligação que quem sabe definirá meu destino, o destino de nós três: Sílvia, Isabel e eu. Pensei em dizer a Sílvia, inocentemente, que eu amo as duas. Que não amo uma menos que a outra. Que as amo com tudo o que sou, e que as quero para sempre. Mas ela, penso eu, não entenderá. Ninguém entenderia. A não ser Roberto e Micão. Uma mulher dificilmente perdoa que outra lhe tome o lugar de rainha. Eu tenho duas rainhas.

Isabel sabe de Sílvia, Sílvia nem sonha com Isabel. Eu as amo. Ficaria vazio sem Isabel, ficaria oco sem Sílvia. Como pode uma só mulher bastar a um homem? Que o digam os árabes, que podem ter haréns. Mas eu queria apenas minhas duas metades.

Ninguém entenderia. Estou esperando, quando ligar os celulares, cinquenta ligações não atendidas. Se Sílvia fosse Isabel talvez esperasse em silêncio a minha volta. Mas elas são diferentes. Terei de contar à Isabel sobre o fato, terei de ficar entre elas. Vou-me embora para Pasárgada...

Vou beber mais rum. Isabel repousa tão linda e frágil. Não irei acordá-la para que me veja chorar. Apenas o papel verá. Ele, e só ele é que guarda os maiores segredos.

Sou um criminoso, um salafrário, um idiota? Um homem que ama. Acho que todos os que amam deviam ser perdoados.

*

Créditos da imagem: olhares.com
Cinderela, por Bruna Pereira

2 comentários:

  1. Olá Leila!,é curioso como os textos literários têm a qualidade de nos transportar aos conceitos.Sua escrita,embora linear e simples,está perfeita.O tema abordado é o que nos leva a refletir,e sempre o sentimento dividido é questionado,como tantos outros,não somente o amor.Gostei da tua crônica,não o considero um conto.

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  2. Oi Mario!
    Na verdade é uma crônica sim!
    Obrigada pelos elogios. Amar é complicado, ainda mais quando o amor envolve mais de uma pessoa.
    Beijos.

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