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Contos Fantásticos: Espíritos




Junho: Espiritos.

Nota de esclarecimento: por motivos internos, não publicamos nesta seção nos meses de Maio (tema: Medieval Fantástico) e Junho (tema: Espíritos) e, por isso, transferimos as respectivas postagens para Agosto e Setembro! Estamos definindo os temas para Outubro e Novembro - novidades no site da benfazeja Press.

Agradecemos a compreensão de todos!

Veja os temas para os próximos meses e como enviar o seu conto!


OS ANCESTRAIS
Luciano Abreu


PRIMEIRA NOITE - Em volta da fogueira os mais velhos contavam histórias, lendas, ensinavam aos mais jovens a cultura do povo da região. Olhos e ouvidos atentos as palavras que detalhavam aventuras, batalhas, amores. Só que talvez nenhuma daquelas histórias cativasse mais a curiosidade daquele povo, do que a narrativa do homem tocado pelos espíritos ancestrais. Um homem marcado por um destino, uma missão.

- A cada dez anos, um homem do nosso vilarejo é escolhido, é tocado. Ninguém sabe como. Alguns dizem que os espíritos aparecem em sonhos, outros falam que são como fumaça que respiramos. O certo é que eles existem e que nós mortais somos escravos dos seus desejos.

Quando o ancião falava sobre os velhos espíritos o silêncio dominava as perguntas que certamente martelavam as jovens mentes que ali estavam. Mas naquele dia alguém resolvera falar.

- Ancião! O que acontece com aquele tocado pelos espíritos?

O ancião observou descrente a pergunta, não era acostumado a ouvir, apenas a falar, ele era o mais sábio entre os homens da vila, ainda sim decidiu responder àquela pergunta.

- Aquele que é tocado pelos ancestrais nem sabe que foi escolhido.

- Como assim? – insistiu o jovem.

- Os espíritos são sábios. Eles chegam e vão, sem que saibamos.

- O que eles querem então?

- Uma missão, uma tarefa. Apenas isso. – o ancião parecia não querer responder.

- Que tipo de tarefa? – a pergunta merecia uma resposta a altura da curiosidade.

- De morte, filho. Da morte. Os espíritos buscam a justiça, a justiça acima dos homens. Porque não há lei maior que a dos velhos ancestrais.

Entre todos que acompanhavam a conversa o ar ficou pesado, a incerteza sobre tudo aquilo, sobre os desejos dos espíritos, fez o medo arrepiar a pele daquele grupo.

- Os espíritos ancestrais escolhem um dentre nós para ser esse instrumento de justiça. Se alguém do nosso povo comete um crime grave, esse alguém precisa ser punido. Só que nós, todos nós, também somos transgressores, de alguma forma estamos contaminados. Os ancestrais são puros, por essa razão podem nos punir, tem força e poder para isso.

- E não podemos impedir? – perguntou outro jovem.

- E por que faríamos isso? – indagou o ancião. Ser instrumento dos espíritos é uma benção.

- Ancião? Ancião?

- Diga filho.

- Quando foi a última vez que espíritos estiveram entre nós?

- Esta noite completam dez anos da última presença.

Era verdade. Como o povo poderia esquecer. Há dez anos dois homens do vilarejo foram encontrados mortos num riacho. Eles haviam roubado um cavalo de uma das casas. O roubo era imperdoável, assim como a traição no matrimônio e o homicídio, e os espíritos ancestrais não esquecem as transgressões. Os homens foram encontrados aos pedaços. Sobrou pouco dos corpos, só foi possível saber quem eram, porque as cabeças permaneceram intactas. Era uma marca da ação dos espíritos, corpos destruídos e cabeças sem um único arranhão.

SEGUNDA NOITE - Entre o povo da vila os relacionamentos familiares eram profundamente estimulados. As famílias constituíam aquilo que era de melhor naquele lugar. Uma comunidade baseada na cooperação. Os homens responsáveis pela caça e construção das casas, além de garantirem a segurança do vilarejo. As mulheres cuidavam das crianças, cozinhavam, costuravam e ... dançavam.

Nas noites de lua cheia era costume a realização do Ritual da Lua, um agradecimento à deusa da noite pela vida na terra, pelos frutos, pela água. Os homens de rostos pintados embriagavam-se numa espécie de transi. Uma bebida feita de ervas, de gosto adocicado e efeito alucinógeno dava o tom à festa. As mulheres dançavam usando máscaras e colares, quase sempre, seminuas, giravam numa grande roda cantando as vitórias e conquistas dos antepassados. As mulheres eram praticamente as únicas que resistiam até o fim da comemoração. Os homens caíam bêbados e só acordavam na manhã seguinte, mas naquela noite um dos homens não bebeu tanto e permaneceu sóbrio o suficiente para transgredir.

O dia ainda não raiava quando o ancião acordou sobressaltado, as mãos sobre o peito seguravam os amuletos de proteção da família. O que ele disse sentenciava o reinício de uma sina.

- Os espíritos ... os espíritos estão entre nós!

O ancião nunca havia sentido aquela presença tão forte, afinal os espíritos não deixavam tão clara a presença deles, eram sutis em suas visitas. Um breve e marcante momento. A vila logo veria justiça e sentiria medo.

Entre os guerreiros mais fortes e respeitados da vila estava Zark, alto, acima da média dos outros homens do povoado, líder nato e companheiro devotado. A devoção à esposa Enara, algumas vezes beirava o desequilíbrio. Talvez o ciúme fosse o único ponto fraco daquele homem. Enara era de fato uma mulher de beleza única, cabelos longos, pele morena, olhos cor de mel, de brilho inconfundível, olhos que dominaram o guerreiro Zark. O casal não tinha filhos, embora o desejo de Zark fosse intenso por um menino, um substituto à sua altura para assumir responsabilidades diante da comunidade como um dos líderes daquela gente. Enara parecia não ter tanta certeza quanto aos filhos, era trabalhadora e dedicada, mas contida sentimentalmente.

Naquela manhã, seguinte da comemoração da Deusa da Noite, Enara retornava para casa quando percebeu que a porta e as janelas estavam abertas, ela estranhou porque havia deixado tudo fechado. Ela entrou na casa e não viu nada suspeito, algo que a alertasse para uma possível invasão. Zark não estava em casa, mas era natural que não estivesse, depois da festa da lua, os homens, pelo efeito das ervas, costumavam adormecer até tarde. Enara seguiu até a parte de trás da casa, ainda desconfiada de que ali estava alguém, um pressentimento angustiante acelerava a respiração, os batimentos cardíacos. Passo a passo Enara, já saindo da construção, caminhava rumo a mata, na nuca aquele arrepio de que algo apareceria a qualquer momento.

Uma das mãos sobre a boca e um braço envolto do pescoço dominaram Enara. Um agarrão forte e preciso, sem possibilidade de reação. A mulher ainda se debateu, só que não conseguia se desvencilhar do ataque. Surpresa maior teve ela ao identificar quem a segurava.

- O que você está fazendo aqui? – a pergunta veio indignada.

- Você é louco?! O que faz aqui? Me larga, me larga. – as palavras eram duras e o tom de voz baixo. Certamente Enara não queria chamar a atenção de ninguém.

Diante dela um dos guerreiros da vila, um dos mais fortes, quase tão forte quanto Zark, o nome dele era Ontar.

- O que foi Enara? Não gostou da visita? – Ontar sorria ironicamente.

- Louco! Louco! – Desta vez Enara não conseguiu conter o grito.- Como se atreve a vir aqui?! Em plena luz do dia e me agarrar dessa forma. Você me matou de susto. – ela socava o peito de Ontar que apenas sorria da situação.

- Eu não resisti. – disse ele. Queria ver você. Eu vi você se aproximando e me escondi. Tenho saudades!

Enara e Ontar foram namorados de infância. Coisa de adolescente que Ontar nunca esqueceu e que Enara, apesar do compromisso com Zark, não soube ou não quis evitar.

- Não podemos fazer isso! É errado. Zark pode voltar a qualquer momento.

- Voltar?! Ele deve estar jogado com os outros homens. Depois de encherem a cara de ervas, só devem acordar a noite.

- E você? Não bebeu com os outros homens? – curiosa Enara queria entender toda aquela disposição de Ontar.

- Eu? Não bebi tanto assim! Me guardei pra você minha dançarina da noite. – Ontar falava ao mesmo tempo em que envolvia Enara num forte abraço na tentativa de beijá-la. Ela se desvencilhava, enquanto o guerreiro insistia no beijo, até que com um forte empurrão Ontar foi jogado contra uma árvore.

- Chega! – disse Enara. Nós já erramos demais! Nosso tempo passou!

- Não! Não! Você me trocou por Zark, porque seus pais sempre acharam que eu não te daria uma casa, um lugar para viver, que eu não seria forte o suficiente para protegê-la. Eu cresci, me tornei um grande guerreiro e o meu amor por você nunca acabou. Eu sei que você também me ama!

- Pare! Pare de falar! Eu fiz uma escolha. Siga o seu caminho! Encontre uma companheira e me deixe em paz.

Ontar agarrou-a pelos braços e olhou fixamente nos olhos dela.

- Eu nunca esqueci de você. Sei que erramos, você está comprometida e não respeitei isso, você também não resistiu. Sinal de que esse amor não morreu em nós. Mas se você quer encerrar isso, não irei forçar nada. Você pode encerrar tudo agora, só que eu não vou desistir. – Ontar soltou Enara e foi embora.

Enara cobriu o rosto com as mãos e chorou. Apesar da decisão consciente de encerrar uma história de amor proibido, aquela bela mulher sabia que Ontar sempre deixou inquieto o seu coração.

Perto dali o ancião tocava na água do riacho próximo a vila, de olhos fechados pedia orientação aos espíritos ancestrais. O velho sabia que a justiça dos espíritos já estava entre eles.

- Sabedoria espíritos, sabedoria. É tudo que peço! Quero viver dignamente os dias que se aproximam. – o pedido era simples e sincero.

O dia avançava e os homens embriagados da noite anterior começavam a voltar para casa.

Enara preparava a refeição. As mãos ocupadas no afazer doméstico e a cabeça longe, perdida nas palavras de Ontar, Enara sabia que logo Zark chegaria e faminto perguntaria pela comida, que ela como mulher da vila tinha a obrigação de preparar. Os desejos, obrigações e amores, tudo confuso em pensamentos e sonhos não concretizados. Para aquela bela mulher o tempo parecia ter parado, e embora parecesse assim, Enara não conseguiu deixar de perceber que as horas avançavam, quase noite e Zark não havia retornado.

TERCEIRA NOITE - Os moradores desconfiavam, a expressão preocupada do ancião, o aviso de que os dez anos haviam passado, ninguém duvidava de que os espíritos chegariam, o que ninguém sabia era que eles já estavam lá.

Um grito ecoou pela vila.

- Morte! Morte! Os espíritos! Os espíritos então entre nós!

Todos saíram de casa, havia medo nos olhos do povo, famílias se abraçavam, crianças choravam, o ancião então falou:

- Tenham calma! Todos calados! – a voz do ancião fez silenciar o nervosismo.

O ancião dirigiu-se a jovem que avisara aos gritos sobre a presença dos espíritos.

- Jovem, me diga o que viu?

A menina soluçava e recuperando o fôlego tentou explicar o que havia visto.

- Eu vi ... eu vi ... san ... sangue perto do rio. Então eu, eu fui até lá e en ... encon ... encontrei o corpo. – a jovem caiu no choro e parou de falar.

O ancião insistiu, queria saber mais, precisava saber.

- Olhe pra mim! – dizia ele. – Olhe pra mim! Me diga o que mais você viu?

- Nada mais ancião, nada mais!

- Diga a verdade! – gritou o ancião.

A jovem cedeu à insistência do velho líder.

- Eu acho que vi a cabeça, mas não consegui saber de quem era, não tive coragem, me desculpe, me desculpe! – ela caiu de joelhos aos prantos.

O ancião não tinha mais dúvidas, aquilo era obra dos espíritos, a assinatura dos ancestrais havia sido confirmada, um corpo destroçado, decapitado.

- Fiquem aqui. Eu vou até lá! – o ancião assumiu a responsabilidade de identificar a vítima.

Quando o velho iniciou a caminhada, Enara aproximou-se ofegante. Ela parecia ainda não entender o que estava acontecendo.

- É verdade ancião o que estão dizendo? Os espíritos fizeram justiça? Por favor me diga, me diga?
- É minha jovem, é verdade!

- Não, não pode ser. – Enara agarrou-se as vestes do ancião.

- O que houve? Tenha calma. Todos nós sabíamos que isso poderia acontecer.

- O senhor não entende. Zark não voltou para casa hoje. Eu não o vejo desde ontem a noite.

O ancião então percebeu porque Enara estava tão preocupada.

- Não, meu filho não! Meu filho Zark não pode, não pode. Meu filho é justo, um guerreiro, não pode ser punido pelos ancestrais.

Zark era o filho mais velho do ancião da vila. Um homem predestinado a liderar o povo.

O ancião virou-se em direção ao rio, mas antes mesmo de percorrer os primeiros metros foi derrubado por Enara. A mulher de Zark correu pela trilha sem ouvir os apelos do ancião.
- Enara não! Não vá!

Em poucos minutos Enara chegou à beira do rio. Ela mal conseguia olhar. O rastro de sangue seguia por vários metros, era difícil distinguir os pedaços do corpo, braços, pernas, tronco, tudo destroçado, parecia que um animal havia estripado aquele homem. Apesar da cena grotesca Enara não recuou, caminhou tentando desviar dos pedaços de carne e do sangue. As lágrimas escorriam pelo rosto de Enara, num choro contido. Ela precisava saber, precisava ver a cabeça.

Enara avistou a cabeça apoiada numa pedra, ela seguiu com o rosto voltado para o chão, a mão sobre a boca, como se quisesse segurar o desespero. Tantos pensamentos fervilhando, tanta culpa, tantas verdades não ditas. Aqueles poucos metros pareciam quilômetros.

A cabeça sobre a pedra estava com a face virada para o rio. Enara ainda sem querer erguer o rosto coberto de lágrimas, agarrou a cabeça pelos cabelos, ergueu-a, virando-a para si, só aí levantou o rosto. O que se ouviu foi mais assustador do que toda a violência ali presenciada. Enara de olhos arregalados gritava sem largar a cabeça diante de si, ela parecia não acreditar, havia horror no semblante dela, medo e surpresa. Era a cabeça de Ontar. O amante, o amor de infância, estava morto, destroçado, punido pelos espíritos.

Então uma voz ecoou, quase sussurrada ao ouvido de Enara. Ela sentiu um frio percorrer todo o corpo, arrepiando-lhe a pele e mais uma vez a voz sussurrou.

- Traidora!

Ao virar-se Enara finalmente largou a cabeça de Ontar no chão. A figura a encarava, um rosto conhecido, de olhos tão brancos que reluziam como a lua. Era Zark ou pelo menos era o corpo dele. Em uma das mãos segurava uma faca, uma lâmina curva de onde gotejava sangue.

- Traidora! – Zark sem dúvida não estava lá. Os espíritos ancestrais dominavam seu corpo, sua mente, Zark não passava agora de um instrumento de justiça.

Enara percebeu a situação, ela seria julgada naquele momento por todas as transgressões que cometera, principalmente pela traição ao marido. Por mais que estivesse decidida a permanecer sempre ao lado de Zark, Enara não soube resistir ao desejo e aos caprichos do coração. Os erros cometidos até ali seriam apagados com sangue.

A mulher sentiu-se resignada frente ao destino. Ajoelhou-se diante do corpo possuído de Zark, só aí percebeu que os pés dele não tocavam o chão, estavam suspensos no ar.

- Me perdoe! – as palavras de Enara saíram abafadas pelo choro.

- Me perdoe! – disse novamente a mulher. – durante anos senti meu coração dividido, por não conseguir apagar uma paixão do passado. Mas nunca tive dúvidas de que você Zark era um grande homem. Você sempre foi a escolha certa para minha vida. Me perdoe! Que seja feita a vontade dos ancestrais.

Enara inclinou a cabeça para frente e fechou os olhos. Uma voz repetiu o nome da mulher.

- Enara! – não era o mesmo susurro de antes, e sim uma voz conhecida, era a voz de Zark.

- Enara!

Enara ergueu os olhos. Zark não estava mais com os olhos reluzentes. A mão que segurava a faca estava erguida, como se estivesse preparada para o golpe final.

- Enara! Eu perdôo você! – foram as últimas palavras de Zark. Num grito ele desceu o braço com toda a força e velocidade. Enara novamente fechou os olhos a espera do impacto da lâmina. Foi um golpe certeiro. Enara não acreditou ao abrir os olhos. A faca cravada no peito de Zark. Num rápido momento em que ele conseguiu controlar sua vontade, ao invés de cumprir o mando dos espíritos ancestrais, optou por tirar a própria vida a ter que fazer justiça às custas do sangue do seu grande amor.

O corpo de Zark antes suspenso no ar, caiu sem vida diante de Enara. O ancião chegou ao local em seguida e despencou de joelhos. O líder perdera dois grandes guerreiros, entre eles, o filho, um alto preço diante da justiça dos ancestrais.

UM NOVO DIA – Depois daquela noite o povo da vila evitava-se falar sobre os espíritos ancestrais. Enara tornou-se uma mulher reclusa, de poucas palavras, o brilho e a beleza parecem ter abandonado aquela vida. Vez ou outra os moradores do povoado viam-na encarando as águas do rio, num pranto sem fim, como se ali pedisse perdão. Era o choro daquela que escapou dos espíritos e que pagou um alto preço por essa segunda chance. Perdeu numa única noite dois grandes amores.

O ancião perdeu um filho e aparentemente a vontade de viver, já não reunia mais a vila em conversas sobre os ancestrais, tudo parecia sem sentido agora. Vagava pelo lugarejo, as vezes parecendo sem rumo, o Ancião virou um homem de poucas palavras.

No aniversário de um ano das mortes de Zark e Ontar, um grupo de jovens do lugarejo indagou ao velho líder.

- Ancião, o senhor acha que os espíritos ainda voltam?

O ancião esboçou um sorriso e disse:

- Faltam nove anos! Nove anos ... quem sabe ... quem sabe.


Luciano Cunha de Abreu Rodrigues
Luciano Cunha de Abreu Rodrigues. Luciano Abreu. Jornalista formado pela Universidade Federal de Roraima, com especialização em Literatura Contemporânea. Trabalha como repórter na TV Amazonas, Rede Amazônica. Apaixonado por cinema e literatura.

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O VÔO DA BORBOLETA
Michelli Mortari

As cinzas ainda espiralavam das chamas que a brisa fraca soprava do leste. O sol, tão impiedoso quanto o ato que destruiu aquele lugar, baixava no horizonte, como se também estivesse banhado de sangue, igual a terra sob os pés da garota. A única sobrevivente.

Que poder ela possuía para que tivesse escapado?

Pequenas lágrimas desciam pelo seu rosto sujo de fuligem, enquanto os olhos observavam o vôo da borboleta. Uma mancha de cores entre as plantas secas que rodeavam a paisagem local devastada.

Havia três dias que ela nada comia. Bebera água com dificuldade, em um poço artesanal que fora abandonado tempos atrás, mesmo com o gosto de lodo e lama, ela ficou grata por diminuir um pouco sua sede. Sua roupa rasgada e imunda balançava junto com seus cabelos negros ao soprar do vento. A sua frente à estrada estava desimpedida e aguardava sua decisão de segui-la. Não havia mais nada para ela ali. Durante estes três dias, procurou incansavelmente por vida entre os escombros. Nada.

Desejou profundamente ser uma borboleta e ter asas ao invés de sentimentos. Assim, poderia fugir para bem longe daquele lugar e das lembranças que assomavam em sua memória a todo momento.

Eliza, como se chamava a garota, tenta se aproximar da borboleta, mas esta não estava ali apreciando a seca e a morte, apenas fugia em busca de campos floridos onde pudesse recomeçar. Com passos lentos e desajeitados, Eliza segue o vôo da borboleta sem saber por que faz isso. Quando o sol já estava em seu último ato, ela chega à beira de um abismo. “É fácil, basta imaginar as asas” – sussurra-lhe uma voz que ela imagina ser da borboleta. Se lançar-se dali, poderia partir para uma outra vida, ou para a escuridão eterna. Quem pode saber?

Quem ela poderia vingar? Quem ela poderia culpar pelo incêndio devastador que queimara tudo e todos que conhecia? Se um dia houvera um culpado, ou este estava junto aos outros, mortos, ou sua identidade seria sempre desconhecida.

A borboleta parece entender os pensamentos de Eliza e pousa em seu ombro lhe trazendo algum conforto. Nesta terra, acredita-se que isto signifique sinal de boa sorte. A garota tenta toca-la. Está tão fraca e ferida que não consegue erguer a mão. Tinha vertigens e seus joelhos teimavam em curvar-se. Ela que fora valente em toda sua curta vida, podia render-se agora.

Sem qualquer aviso, ou som, a borboleta bateu suas asas e voou na imensidão escura que se abria a sua frente. Eliza que desejara com toda sua alma ser uma borboleta flutuava agora para um reino distante, onde não havia medo, nem dor.

Michelli Mortari
Formada em Direito, chefe de seção no DETRAN de Rondônia. Trabalhos publicados em diversos sites, como o MLV séries & Sagas, Accio News, Dark Writer Project, Central Rondônia, Correio Popular, Diário da Amazônia. Colunista, Newsposter, e atualmente escrevendo livros. Lançamento da primeira obra, um livro de ficção infantil para 2014. Selecionada pelo MEC e a Editora mais que Palavras, para imersão literária, Write inCanela 2013 - infantil, com obra a publicar. Profissionalizada em escrita de ficção, pelo renomadíssimo James McSill, York- Inglaterra, com o curso Write In São Paulo - ficção. Diploma inglês em literatura/ficção. Atuando como parceira de sites local, publicando artigos a pedido. Apaixonada por literatura, a qual é parte da sua essência.

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ELUCUBRAÇÕES DE CRIANÇA
mario saroka

Nem todas as vezes que estivera naquele lugar, eram iguais, nem todas elas, de um infortúnio; ou sentimento outro, e que a gratidão à alguma lembrança, remontava.
Ia com a avó, dois dias antes...,ia para lá, em caminhada compassada, por entre aquelas gramíneas da superfície do morro, resvalando arbustos miúdos onde aromas exalavam, profundamente bucólicos, e o que fora um dia um descampado rústico e natural. O branco da cal cobria os olhares mais perscrutadores, embora findos.Lápides sonolentas,num dia ensolarado de outubro, e onde a primavera brincava de plantar cores nos valões dourados dum regaço.

Cair o túmulo do avô, era daquelas oporturnidades onde observar outros mausoléus chamava atenção,principalmente o do jovem; conhecido,e filho de gente graúda.Tinha no alto do pináculo,um bronze de nada mais que a figura de um pé,sim!,um pé,e bem ao meio desse pé; fincado, um prego. Todas as vêzes ,na opoturnidade do finados,ou no dia da caiação, ficava lá,e estupefacto,observando aquela figura estranha, apenas pé.As sombras dos ciprestes ao derredor dava ares lúgubres às tumbas, um funesto cinza escuro.
Contudo, o que relato, foi fato ocorrido naqueles dias, a mim relatado pelo protagonista que o viveu. Quando se tem pouca idade, as formas e o em torno geográfico, pouco tem haver com os frutos de imaginação, e nestes , o sentido das coisas; normalmante , ganham outros significados.

O detrás das montanhas, a que via muito longe; terras perdidas e vazios de habitação, provavelmente ocupados por animais selvagens, e se houvesse alguém, seriam índios, apenas eles, perambulando entre árvores em maciços verdes. Barulhos, silvos da vespertina, o murmúrio de pássaros não vistos, a prova perene para que, no além noite, essas imagens tombando o coração ainda inexperiente e pouco afeito às horas desfazendo em penumbras,...disparasse.

A cal, passado no cimento apodrecido do túmulo, que mais parecia um jardinzinho cercado por muretas, ou cama; bercinho, onde uma pequena torre e ali repousando uma cruz, a fotografia do avô, antiga e amarelecida pelo tempo, ou enfumaçada das velas acesas por tantos finados decorridos,...pouco branqueava.

Nestas vezes, nestas visitas, ano a ano, contrastava com outras, que ao contrário das expectativas, ou duma simples caiação da tumba do avô, esta, que vos relato, tornara-se em expectativas de aventura. O fato de ser, em alguma situação real a pouca idade, delapida-nos de alguma maneira peculiar o caráter, ou de contenção; ao que espoem às vistas, ou de externação , ao mesmo tempo, visto e pensado. Era comum, naqueles dias, pai e filho, irem em busca dos canteiros brejosos ou de pequenos lagos, escondidos em grotões, e muitos desses lugares, escondidos em lugares insuspeitos a qualquer que por perto passasse. A mata de espinheiros, e ao redor do cemitério havia muitos, junto de Vassourinhas, que encobria como um camuflado verde escuro por sobre a pequena lagoa, logo atrás do cemitério, e um barranco, que era por onde se entrava naquele emaranhado, elevava-se à trilha, um corpo inteiro de criança, meio corpo de adulto comum, o que punha a qualquer pessoa que por ali passasse, um desanimador campo de exploração. O barulho de um marulho gorgolejante, refrescante aos ares do meio dia , do escoar de água soltando-se paulatinamente da lagoa, grotão abaixo, onde o matagal fechava sobre o risco de riacho, até não saber-se onde , até silenciar.

Para uma boa compreensão, quem ali estivesse, mesmo ao claro do dia, teria à trilha estreita de carroceiros, vinda em ramal da entrada maior, acima , e à esquerda , subindo , dava pela entrada no cemitério, e à direita, e sumindo ao longe, chegava-se ao bairro onde moravam.

As cores e figuras imponentes nas tumbas do velho cemitério, contrastavam à velha vila, chamada e alcunhada vila perdida, às estruturas suntuosas e requintadas dos mausoléus, as casas taperadas, com seus telhados barrentos, suas paredes de olaria a vista. As tumbas pertenciam aos defuntos ricos, de fazendeiros de nome, e comerciantes e políticos da capital, e enterrados no rincão ,humilde ,onde nasceram. Imagens de anjos, madonas, cristinhos sonolentos,.. santos desconhecidos pelas crianças, e por vezes, encantadoras figuras, simpáticas com ares muito parecidas com a gente comum.

Um deles, que se encontrava num canto mais afastado, à entrada, em não muito formoso túmulo, ou mesmo portentoso, era do negro; muito negro, Sebastião, frechado nas costas.Na vila havia um negro assim, muito velho, de cabelos muito brancos, costumava chamar-lhe Tião.O preto ria, e ao rir, curvava-se, o corpo baixando e levantando em circunspecção, e ao movimento das risadas, -chamo Bento, Bento!,moleque,... Bento-,e se ria muito.

O bêbado Rufino, também muito preto, contava história de que ,ele e o coveiro leléu; o Lindoufo, teriam visto, no dia do finados e logo a tardinha; princípio de noite; o São Sebastião sair do alto do túmulo, e que era apenas, estátua,mas não sem antes arrancar as frechas, fincadas no próprio corpo, e caminhando muito calmamente, até sair do cemitério.Ao seguí-lo, viram o santo ir bater ao terreiro de dona Zéza, que ficava no rincão mais escondido do vilarejo ,e entrando ,passara a noite toda num batuque ferrado, e que antes da manhãzinha chegar lá no mato; eles, que haviam cochilado; viram sair, lenta e calmamente, alguns homens e algumas mulheres, e que trabalhavam nas fazendas vizinhas...homens e mulheres negros como a noite, que ia findando, e viram o santo, à soleira da porta da casa , e viram o negro cumprimentar,batendo de ombros; direito e esquerdo; com a própria Zéza. Não tardou, foi o negro voltando para o cemitério. Lá chegando, e os dois abelhudos(assim frisou Rufino) de olhar por sobre o muro, viram a figura catar três frechas, e uma a uma, recolocar trespassando o próprio corpo negro.Um pulo rápido, e lá estava o Sebastião posto sobre túmulo, olhar vago para o chão, e suportar mais um tempo de dores.

Os moleques sabiam que o bêbado Rufino era vagabundo e contador de histórias, afinal, tinham visto,na igreja do padre Miguel,a figura do são sebastião, e era moreno, contudo o Rufino ataviava que se tratava de Oxóssi, mas calavam ao seu desafio,-duvidam?,...seus moleques, não conhecem a força dos atabaques e ganzás!...,vão até lá, pela noite do finados!,...e vão ver,-falava muito sério, o negro Rufino, tão sério, que a molecada espalhava

Naquele caminho, a pequena trilha de carroceiros, apenas atalho aos comerciantes e mascates da vila do Tombamento(vila do Tombo para os mais velhos),era que naquelas paragens o Pontes e seu filho Hernane chegavam ao grotão, entre os dois rochedos de vegetação e no caminho de quem ia para adiante, na vila do Tombamento. No morro, no alto desse morro os muros brancos do cemitério, eram perfeitamente vistos e uma floresta espessa e verde de Ciprestes; muito antigos; circundavam, pelo lado de dentro, a cidade dos mortos.Pontes e Hernane; pai e filho; Hernane o garoto, que juntamente com a avó e bisavó(ainda ia uns tempos visitar o túmulo do filho), mãe e sogra, juntamente com elas, Hernane conhecia e muito bem aquela terra sitiada, e morada de mistério, o sem razão.

Passar a cal no túmulo do avô era passeio ao moleque. O pai não tinha não tinha lá muito misticismo, nem muita saudade, dizia que morreu, fedeu. Hernane não gostava disso, era cristão, e achava que os mortos ainda viviam em algum lugar e sempre os imaginava , vivendo naquelas altas serras ao longe, onde a neblina costumava cobrir nos dias mais frios. Uma vez , uma única vez, a mãe, dona Ernestina, mandou passar panos, com linimento e álcool, no corpo da velha senhora, dona Verdita, que conhecida por Dita, uma espanhola que morrera dormindo, e sentiu como era frio o corpo da velha. Tocou seu braço muito enrugado, e aquela mulher, parecendo algo tosco e sem vida, o fez correr para fora da casa, e sem saber das coisas da vida, vislumbrou a serra, longínqua, toda branca da serração. Um calafrio percorreu-lhe o corpo, e nada mais.

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No dia em questão, e das vezes que Hernane estivera naquelas paragens, naquelas lagoas e brejos, tudo se passara igual aos dias correntes daquele tempo, dias de sol, de escola, de farra e de céu aberto, de ventos tranquilos na copada das árvores.

Cabeça infantil tem o mundo maior, muito maior em tamanho, em calor, em frio ou chuva intensa, em risos e em façanhas quixotescas. Hernane mal sabia dos ímpetos dos adultos, nem das suas decisões atabalhoadas. No dia em questão, durante uma partida de futebol, Nestorzinho caiu ao chão em choro. A molecada correu. Tinha uma lasca de pau , uma farpa, fincada no pé , de quase um dedo no tamanho, e quando Ferdinando; o mais velho de todos; puxou a lasca, o Nestorzinho berrou, berrou forte. A mãe do Nestorzinho levou-o para casa dando-lhe cascudos e impregnando à molecada alcunha de arruaceiros dos infernos.

No mesmo instante do evento, Hernane lembrou-se do busto de bronze(diziam os adultos que era de bronze), e sentiu aquela mesma sensação de quando tocou a pele rugosa da espanhola morta, e que morreu dormindo, porventura, passou muitas noites com medo de dormir relembrando o bloco frio, de metal e de carne, simultâneamente. Embora o sol quente, e o produto natural da correria debaixo daquele sol escaldante, essa lembrança o fez vingar a imagem, com peso semelhante ao próprio bronze, porém mais forte; quase um retinir de sinos na alma, assim beirava muito mais suores à testa.

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Coincidências à parte, a tarde era quente, ofegante, e nela recendia um perfume agridoce das Gardênias do quintal da Tereza. No poente um rubro metálico, se fosse alcançado com uma colher de pau, ressoaria vibrante, como a qualquer outro rompante de sentidos, ou de sentimentos...,mas os corações, ora enfiados em pensamentos de mulheres cozinhando uma janta cheirosa, ora pulsando em fitar as bodas diárias desse arrebol, em Hernane compassava uma quietude ascética, que o deixou; um bom tempo, amuado ao canto externo da casa, sentado ao chão e segurando com as duas mãos, as pernas flexionadas.

Temia de certa forma lembrar-se daquele busto,que tantas vezes o impressionara, cuja miragem, repentinamente, punha sua imaginação a trabalhar. Via agora acima do busto; que era apenas pé e um teco do tornozelo, e aquele prego cravado bem no meio da planta , via agora a figura preenchida de Nestorzinho, o moleque protegido da mamãe , ser apoderado naquele pé de bronze. O pavor do moleque gritando, pela dor que causava a farpa, agora se transformava na agonia de ter um pé de bronze, e uma farpa, , que não era, mas era um prego , que o perfurava. Como batidas imponentes e persistentes, ininterruptamente eclodindo na sua cabeça...,como batidas intermináveis de gotas de água, brotando à torneira enferrujada, duma água pútrida e enferrujada, uma injeção subcutânea, melindrando o cérebro.

Levantou-se, não podia mais

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O pai chegara cedo nesse dia, uma sexta feira, e normalmente era o dia preferido ao que Pontes escolhia para ir apanhar rãs; gosto esdruxulo; diziam os amigos de boteco. Aliás, ninguém respondia aos convites do Pontes, para se aventurar caçando rãs. Hernane, postado no portão, observava ao pai, e provavelmente convidando alguns dos amigos bebados,..pensava ele, mas não, a conversa era com o negro Rufino, que ainda se mantinha de pé. Conversa rápida, e o Rufino foi rua abaixo,na direção da olaria.
A angustia de Hernane aumentava, quando o pai, ao passar, foi logo dizendo-se prepara,vamos pro lado do Tombamento, pegar rãs-, mas pai!,retrucou o moleque,-mas o quê ?-, o homem tinha tomado algumas cachaças, e para não encrencar com a mãe,disse meio acabrunhado,-nada, nada não-.

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No início da noite, um sinal claro e prateado, dava os indícios necessários a que haveria luar, e Hernane sabia que isso, o luar, e a chuva, desanimava o velho de sair no encalço dos sapos. O luar nem tanto, dizia ele, quanto a chuva,ou mesmo o tempo frio, gélido,, quando os bichos se recusavam sair a comer insetos, mas o luar era tolerável se o tempo quente perdurasse por toda a noite. Dia quente e chuvoso,bom!...,com luar, bom também. Não lua cheia. A lua cheia em céu muito limpo, significava que o lampião não taparia totalmente o vulto do caçador, e movimentos preciptados, espantariam as ariscas rãs. Por isso, lua cheia, chuva,e frio eram motivos para que o velho desanimasse de sair.

Naquela tarde em questão, Hernane viu-se frustado, embora o luar estivesse lá, um corredor de nuvens espessas interpôs sob a alvacenta. Bom,..pensou, talvez essas nuvens ainda desabem forte chuva, mas o velho estava decidido, e não demorou, saiu de mochila às costas, os dois garfos gigantes, e um cigarro à boca- vamos,avisa a tua mãe-,Ernestina, dificilmente retrucava, e apenas pedia que se cuidassem,principalmente quando no brejo.


Passavam, inevitavelmente, pelo caminho do campinho, onde pelo início da tarde, o Nestorzinho afundara a farpa no pé. Era comum que alguma molecada ainda restasse por lá em algazarra. Eles sabiam o destino de pai e filho, sabiam que iam para as bandas da vila distante, meio ricão, meio fim de mundo, mas buscar as bandas da vila do Tombamento, e mais!,à noite...era caminho de abatedouro.

Hernane pegou para ajudar o pai, dos dois garfos. Fernandinho, Lúcio, Ananias, o filho do vendeiro,..Alcimar, o Neneco; filho da viúva Guiomar, o Rene; que se chamava Renevaldo, e o Buga; que era filho do entregador de leite, mas ninguém sabia ao certo o seu nome.

Todos se calaram, e como era muito comum naqueles dias os cortejos fúnebres,correrem pelas ruas até o cemitério, a circunspecção do povo que ladeava a pequena ou grande procissão ,..isto dependendo de ter sido ou não,boa pessoa...,assim fizeram os moleques,...olhavam as duas figuras, sumindo-se no escuro do começo da noite.

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No grotão, à noite, não distinguindo-se a mesma verdura vista a luz do dia,as vinte horas eram chegadas;-consultara o velho-,consultou num antigo relógio de bolso. A luz vinha do lampião a carbureto, e num movimento rápido, recolocara a relíquia novamente no microbolso da calça, na altura do cinto.

Hernane, nestes dias, onde o ermo lugar, junto à noite espessa, e o coaxar de rãs e sapos, costumava apreciar os detalhes da natureza a volta, os reboliços de pernilongos, quase um turbilhão, que contrastava ao voo rasante de mariposas marrons; cor do lodo , e de rasantes sobre a laguna, encoberto pelas estepes. Eram comuns as aranhas dágua, que deslizavam de canto a canto na superfície barrenta do lago. Por vezes, não raro, cobras finas e esverdeadas, cruzavam a margem, e se afundavam em meio a vertente e embocadura do riacho.

Das primeiras vezes em que Hernane viera acompanhar o velho, naquelas paragens, algo que o o impressionara demais e ao cair da noite, foi quando, e da mesma maneira em que desta vez, e novamente,voltara ao lugar de caçadas, pelo lado de dentro,acima do barranco. Acocorado e vislumbrando o espelho taciturno da superfície da água, silenciosa e praticamente imóvel, alí,...como num recanto, obstruído acima pelas pontas dos arvoredos, por detrás o barranco, onde tinha-se a necessidade de apoiar-se pelas mãos e impulcionar o corpo acima, para atingir o nível da viela,....alí, quieto, um grande susto, um som grave, um som que se imaginaria um ronco, ou rosnado, até um pio grave de assombração...uh!Uh!uh!, repetidas vezes.

O pai lhe garantiu que era uma coruja, mas onde?, em qual lugar ?,nada, até que em opoturnidade, quando da aproximação do lampião, isto tarde da noite, o claro batendo num canto de galhos, logo acima da água, e a tal lá estava: grandes olhos, toda estufada, com seu bico recurvo e pequeno, quieta e imponente,:uma velha feiticeira empolada no seu galho, e conversando com a lua.

Como noutras vezes, o lampião foi adentrando pela margem do lago, afundando no escuro até sumir a figura do velho, engolido pela noite escura, e restando apenas aquele ponto amarelo, que oscilava aqui, acolá, como vaga-lume.

As horas e seus minutos ganhavam aparência de lago, e os minutos gorgolejavam intermitentes, mas incessantes, dependentes apenas de alguma distração. Um voo de coruja, um galho estalando ao fundo, um leve meneio de vento à face das árvores. Hernane não queria, naquele momento, naquela situação, pensar. Pensar para uma criança torna-se logo imaginar, e isto...?.

Evitava pensar. O Ditinho, da venda, vivia dizendo que gostava de assobiar , porque assobiar espantava as preocupações. Então começou assobiar, primeiro algumas cantigas, ensinadas pela avó, depois assobiou, por assobiar, mas sem lançar olhares ao derredor. Cansou a boca, parou a olhar ao fundo; onde o lume do lampião fazia ponto. Magneticamente buscou o vão entre os arbustos à volta do lago, e achou algumas estrelas.

Evitou o canto esquerdo do olhar, dali o alto do cemitério, e seus altos ciprestes, poderiam ser vistos. Suspirou por um instante, mais aliviado, embora as nuvens, e agora o início dum nevoeiro, impedissem que alguma visão do jardim dos mortos, fosse vista.

Mas de que lhe adianta?...Hernane tinha na lembrança aquele alto, sabia que um muro branco da cal , percorria toda extensão, desde o rebaixo do morro, logo acima de onde estava, até a entrada principal e seus portões de ferro elevados, todo recurvado e modelado de rococós. Quase se transportava para aquela entrada, mas relutava bravamente para não sentir-se lá. Mãos à face, joelhos encolhidos em meio a cócoras, terror ,...estava lá, como de outras vezes, não trazia a cal dos túmulos, mas lembrava tão nitidamente do acontecimento, que a voz da avó, obscurecendo-lhe momentaneamente, se estaria sonhando, ou apenas imaginando.

Algumas borboletas azuis, que eram comuns ao meio dia, agora lhe apareciam com intensas luzes de neon azul esverdeado, voando entre os mausoléus, e lançando holofotes às tumbas, dando-lhes impressão de vida, onde não havia. De repente, todas, num combinado e ele cambiante, e desafortunado por seu turno à noite, viu-as formarem em conjunto , um corpo,...,um corpo luminoso sobre o busto pé, aquela figura esdrúxula de pé, cravada do enorme prego, viu contrastar a figura tétrica do bronze ao neon azul esverdeado e quando já buscava a face, que lhe sorria, acordou,...Nestorzinho, Nestor...Olhou em volta, suando frio, e verificou que fora um sonho, a noite seguia, e ele ainda ocupava seu canto, recostado ao barranco.

Verificou à volta buscando a presença do velho, e lá estava o ponto de luz amarelo; a lagoa tinha a lisura de um óleo muito denso, o velho era como a cortiça em movimento , muito lento e compassado, e o lampião, num repente, acendia o pavio, formando tudo, em formato de candeia, das velhas lamparinas a óleo,...suspirou mais tranquilo, e riu-se do sonho, pensou-amanhã contarei o sonho aos moleques, no campinho, eles cagavam de medo mesmo-,aquietou.

Passado algum tempo, e isto nunca se sabe o quanto de tempo, suspirou e respirou forte em sobressalto, quando o clarão prateado do luar, veio revelando os cantos e tocas da vegetação, mas também percebeu descortinar aquela parte do cemitério, que tanto de esforço evitara olhar. O luar empalidecera o miolo por entre os arbustos, e também empalidecera o próprio Hernane, aquela luz, pensou-a luz perpassa o melindroso Unha de gato, que só espinhos, é envolvido tão maciamente por esse clarão,...agora é quase dia, opaco, mas é-.
Enquanto a noite seguia seu rumo de noctivaga, Hernane concentrou-se em pensamentos:o que estaria, a mãe, fazendo?, pensou-,talvez, e isso ele conhecia bem de sua mãe, rezando, ajoelhada defronte da santa mãe de Deus, ou de sua imagem, feita de mármore. E o Nestorzinho, ah!,não, não, pobre Nestorzinho e aquela sua mãe protetora, ..o pobre ferrou o pé naquela farpa medonha, e a escola?,ah!,a escola, a professora, Dona Emilia, tinha feito elogios as últimas provas, pensou, e continuou assim, quem sabe?...até que percebeu um luar mais intenso sobre o lugarejo. Os sapos coaxavam mais compassadamente, e de repente,...de repente aqueles batuques, sim!, eram batuques, e vinha por entre os morros, das bandas da vila do Tombamento; sons roucos e abafados, quase solitários naquela imensidão de silêncio.

Seus pensamentos curiosamente, agora, batucavam acompanhando os sons, e aos poucos, somando-se a uma noite muito calma e tranquila, os ecos foram-lhe acalmando, e suas atenções, que não encontravam paragens certas, centrou-se no luar. De abrupto, interpondo aos sons dos batuques, Hernane exitou, aprumou-se ao barranco, e saltou o coração em disparada. Vozes, algumas vozes brotaram de repente no meio da noite, logo detrás no bosque, logo à entrada e no caminho de volta para casa, de um lado onde um valado, cheio de minas d’água, fazia do terreno, um lugar pantanoso, e cheio de atoleiros .

Um conjunto de vozes- pega, ele esta vindo, pega, pega, não, não, por ai não, esta escuro demais, não dá para pular, pega, pega-.
Para espanto de Hernane, as vozes estancaram naquela paragem, mas o que se passou a seguir, e propiciou-lhe sentir um tremor por todo o corpo. Por sobre o lugar onde estava, aquela sombra enorme, medonha, deslizando por sobre as árvores, e provocando uma escuridão tétrica, fria, gelada, uma sensação deslocando do escondido inconsciente do céu, provocando aquela escuridão, como se um pedaço desse céu noturno houvesse desprendido do infinito, ou algum dos ciprestes, arrancado do cemitério, e arremessado com força sobre sua cabeça, fez que ele de um salto, atingisse a parte externa da rua.

Apavorado , pois o clamor das vozes aumentava, não notou a presença do velho, que saíra do mato e com seu lampião jogando claridade ao grande vulto negro, que estava parado na curva do caminho...,do outro lado as vozes incendiando-passa, passa, vamos pegar, corre, deixa, pega-...

Hernane tinha as mãos fechando o rosto, mas percebeu o velho e relutou em olhar, e onde a claridade fez revelar o espectro que apartara de sobre a vegetação, o prateado claro e puro do luar.

-Calma-,sentenciou o velho a Hernani, e percebendo agonia do moleque,-calma-,e com a claridade do lampião lambendo sorrateiramente indo na direção daquele mistério, as vozes foram também sessando aos poucos, apenas restando um leve rumor, e tremer de dentes, no fundo daquele valado. A claridade mostrou todo o canto do caminho em curva, e hernane abrindo devagar as mãos pode ver, num misto de terror e desfalecer, o que se revelava.

Lá estava, o espectro, o pedaço de gelo negro, que destacara dentre o seio da noite macabra. Um pio da feiticeira, de seu bico recurvo, pôs um suspense mais forte à noite macabra. Numa voz branda de alívio,disse ao velho:-é um balão-, e repetiu,- é apenas um grande balão-,e sorrindo, o velho confirmou,-é sim!, e vamos pegá-lo-.

Conforme enrolavam o amontoado de folhas de sêda,cheias de fuligem negra, as vozes repeliam aos dois,dizendo-se donos do balão. Bastou que o velho, levantando do lampião em sua direção e no escuro, e interpondo entre a luz do lampião e as vozes no escuro,..o tridente, um garfo por se dizer, para que uma correria se ouvisse,-pronto-,disse o velho,e gritou,-sumam, seus merdas, ou pego voces-.

A lua tinha sua posição mais alta no céu, e a luz mais clara, o cemitério era visto com mais intensidade, agora o caminho de volta. Hernane respirou fundo ao vislumbrar o lugar se perdendo. Subiam,na direção onde à esquerda ia-se para o cemitério e a vila do tombamento, e à direita,o caminho de volta a casa,na vila Perdida.

Faltando pouco antes de chegarem ao trevo, Hernane perguntou ao pai,-teve medo?-,ao que o velho, com algum enlevo na voz, e também surprezo da pergunta foi logo dizendo,-qual nada moleque, está para nascer alguma coisa dessas, que me ponha medo,-,...nem do cemitério?,-completou Hernane,- ao que o velho acrescentou,-lá somente há os mortos,nada mais,-,e aquele pé dourado, com um prego enterrado no meio da planta do pé?,e o resto do corpo?,pergunta o moleque,e o pai sorrindo, discretamente,-aquele pé, não foi somente enterrado um pé, não, o que você viu no alto do túmulo, em bronze, foi apenas uma lembrença,uma lembrança triste sentida pelo pai do jovem Artemiro C.,e também para que aqueles que ao visitarem o cemitério, pudessem ser alertados pela causa da morte que o filho fora levado. Naquele tempo, como naqueles dias até hoje, as pessoas não le varam-no a sério, isto sobre essa mesma estátua , amputo de um corpo de metal,e que depois foi exposto numa explicação póstuma,logo abaixo do pé de bronze. Era uma placa do mesmo bronze, onde as seguintes palavras foram escritas:Em memória de Artemiro C.,de um pai já, morto junto, eis o motivo desta dor,que só um pai clama.O prego rasgou-lhe a carne, oTétano, o vitimou, e a ignorância fincou neste peito de pai, a faca do arrependimento:.

O pai, notando algum temor na incompreensão e inocência do filho,ainda atinou uma pergunta-está com medo, Hernane?,e o moleque confiante,-qual nada, velho,nunca-.

O trêvo era já pressentido à pouca distância.

Um fato diferente e inusitado, pela hora avançada que iniciara a madrugada, veio se passar aos dois caminhantes, e causar um novo sobressalto. Algo mais inusitado,de certa maneira estranha, já que naquelas paragens ter gente passando, era um fato novo naquele dia em questão. Das vezes que estivera ali,na condição que agora se repetia, Hernane paralizou, e avistando um vulto negro, que adentrava na direção do cemitério, nada fez senão olhar para o pai, e calar. O velho, num cumprimento corriqueiro lançou voz- boa noite, quem vai lá?,-ao que o vulto parando,voltou-se. De fronte, à alguma distância, o moleque fixou olhar na direçõao do tal e viu como que reflexos na figura espectral, como se houvesse perfurações nele, e refletidos pelo luar.

O batuque ao longe tangenciava ao largo, e agora esse vulto, essa forma perfurada, bastou, e Hernane soltando um grito de pavor ,saiu num arranco em disparada pelo caminho contrário. O velho, sem saber o porque, ouvia o filho gritar, enquanto corria em disparada,-é ele, é o são Sebastião, é são Sebastião, é ele ,o Sebastião-,e sumiu no caminho em direção da vila perdida.O velho, quando voltou-se para a figura que ia pelo escuro para a banda do cemitério, na luz do luar,ficou surprezo ao ver o negro Rufino se chegar, e rindo, rindo muito ,até se escangalhar.

O velho Pontes,meio atordoado, alteou a voz - Rufino,por que tanto riso?, e por que esta vestido com o estandarte do são Jorge?, não era apenas para a festa no terreiro?-,e Rufino, sem muita vontade, que não a de gargalhar respondeu- era sim !, patrão, mas resolvi colocar para experimentar, patrão-, e Rufino não parava de rir. Tomando do seu caminho para o terreiro da Zéza, como vulto da noite, foi sumindo, embora suas risadas não,-e ainda não é finados,não,não é finados,ah!,ah!,ah!,não é finados,- e assim se foi, rindo às espensas.



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O velho calou-se,e também se foi, meio intrigado, meio perplexo.

Nas redondezas do velho cemitério, ainda os sapos coaxavam. O luar refletia no centro da lagoa. O gorgolejo da água no pequeno trecho, grotão abaixo, e o som dos batuques e atabaques, do terreiro ao longe, continuavam...eram as únicas coisas verdadeiras naquela noite, e daquela vez.



Mario Saroka
Formado no segundo grau.Trabalha como mecânico, usando da literatura como hoby.É morador em São Paulo, e participa, esporadicamente de concursos literários.



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Créditos da imagem: Olhares.com
ecos no silêncio..., por António Maia

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