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Domingo



Conto de Luigi Ricciardi


Era domingo, mãe, logo de manhã. Foi quando eu comecei a morrer mais cedo. A música que tocava ainda era da normalidade, rádio tateando os sentidos dos parentes. Crianças fabulavam no correr, no prazer de suas conquistas de mundo dentro da cerca do quintal. Iam todos chegando, bebida na mão, tempero no rosto.

Mas foi ali, mãe, pai com a galinha comprada na feira. Achei lindo, fagulha de inocência de quem nunca viu além da balaustra da frente. Depois desse quadro que achei bonito, mãe, foi que a morte começou a me torcer o pescoço.

Aquela fome era de morte, mãe, ou do que mais? Tudo se fazia como antes, mas porque pai teve de sair com a galinha pendurada e ir lá pro fundo? Pus-me questões infantis sobre o fato, devia estar levando-a um abrigo de galinhas, onde futuras gerações seriam criadas. Fui atrás. Curioso!

E foi de um só gesto, sujaram olhos imaculados. Pai torceu o pescoço da galinha, mãe. Golpe desferido. Necessidade? Mal dado. Ela se batia como se quisesse fugir das mãos da morte. Parou nos meus pés, olhar a se esbranquiçar, mas com tempo de olhar-me fundo, profundamente vivo.

Olhar de finitude, sorriso de convenções. Gargalhadas à mesa, preparação do alimento que nos salva da morte. Copo vazio, logo cheio. E lá fora, agonizante cocoricar. O pescoço do mundo está mole.

Hoje aquela mão do pai me persegue, mãe, mas já não é do pai não. É mão que vira à esquina, mão que me toca o peito às vezes e o faz doer, mão que me empurra pra rua movimentada sem olhar os lados. Mão que brinca comigo, que me acha bonito, que me compra na feira, que me leva do almoço de domingo. Um dia qualquer há de me levar pro fundo do quintal, mãe, e me torcer o pescoço.

À noite ela vem, passa-me por todo o corpo, amante indesejável, inevitável. Que inocência perdida eu tinha, mãe, hoje criança-adulta sem rumo. Iniciou o fim naquele gesto, o pai. Hoje conheço pessoas no trabalho, aperto mãos, enquanto uma já marca meu pescoço.

Depilaram aquela galinha em água quente. Fervem-me já o caldeirão. O que sentiu aquela galinha se assando no forno? E hoje quando como sinto um enjôo desconfortável, uma embriaguez incessante. Ânsia sem explicação. Inconformismo dessa fantasia que é viver ou do terror que nos espera? A galinha é a morte, mãe. Eu gostava da galinha, mas seu pescoço torcido hoje ataca meus olhos de menino.



Luigi Ricciardi
nascido Luís Cláudio Ferreira Silva, descendente de italianos, é londrinense instalado quando criança em Maringá. É formado em Letras Português/Francês pela Universidade Estadual de Maringá e tem mestrado em Estudos Literários na mesma instituição. Tem um livro de contos publicado intitulado Anacronismo Moderno. É idealizador do projeto cultural Mutirão Artístico Maringaense e da revista literária Pluriversos. É professor particular de francês em Maringá.



Créditos da imagem: olhares.pt
A galinha altiva, por Reynaldo

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