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Memórias da Pele. - primeira parte




Memórias da Pele. - primeira parte.
por Alex Azevedo Dias.

Seus olhos ardiam feito brasa. Rômulo, tremendo nas bases, ao vê-la incandescente, sentou-se na cama. À sua frente, Pâmela se contorcia sob efeito de uma quentura que lhe subia pela espinha. Ele abriu uma gavetinha da mesinha ao lado da cama, pegou um colírio e ofereceu à mulher. Numa quase erupção, Pâmela contraiu o cenho, enrijeceu o punho, espichou o braço e desferiu uma bofetada na cara de Rômulo. Ele abriu a mão instintivamente ao levar o golpe e o colírio, um frasquinho de vidro, espatifou em contato com o piso frio do quarto.

Seu rosto não ficou menos vermelho do que os olhos vulcânicos dela. Pâmela agarrou os ombros do homem e os sacolejou. Depois, ao soltá-lo, enquanto Rômulo, numa tentativa frustrada, desamarrotava sua camisa, ela o empurrou com toda força, na altura do tórax, e ele desabou na cama. Ela desafivelou seu cinto, arrancou a calça jeans com a cueca e tudo - deixando-as emboladas no chão -, rasgou-lhe a camisa já toda amassada e enganchou as coxas em seu quadril. Alguns botões da camisa estalaram no teto e voltaram para as costas nuas da mulher.

Os suores de seus corpos se converteram num só, indistinguíveis. Foram muitos sobe-e-desce até explodirem nos acordes finais. Com o máximo acúmulo de tensão e a descarga apaziguadora, seus corpos se separaram, jogaram-se um para cada lado da cama, de braços abertos, exaustos.

Ao amenizar a respiração ofegante, o suor secar e a vermelhidão clarear, ambos se olharam. Quiseram se tocar, mas tiveram algumas reservas. Pâmela se levantou antes de Rômulo. Vestiu as roupas íntimas e a longa saia. Ele quis ajudá-la com a blusa. Ela recusou, empurrando sua mão. Rômulo se afastou. Também se vestiu.

- Não vamos mais nos ver? - Disse Rômulo com os olhos úmidos.

- Acho melhor não. - Respondeu Pâmela, secamente, sem nem ao menos olhar para ele.

Rômulo abaixou a cabeça, andou ao redor da cama, chegou perto da porta, deu meia volta, virou-se e disse:

- Mas eu te amo..!

Pâmela continuou sem olhar para ele. Sentou-se na cama, fingiu ajeitar algo na gola da blusa, finalmente suspendeu o olhar e fitou Rômulo profundamente. Uma lágrima acanhada escorregou, adormecendo em seus lábios entreabertos.

- Faz tanto tempo... Você vai embora novamente... - Disse Pâmela já com discretos soluços.

- Viramos só bons amigos. O amor combina com a amizade apenas até certo ponto. Essa paixão que tivemos hoje foi porque a amizade acabou. Já o amor...

Pâmela se levantou rapidamente, foi ao encontro de Rômulo e colocou os dedos em sua boca, deslizando-os, delicadamente, até o queixo áspero pela barba malfeita. Ele se aproximou para beijá-la. Ela recuou. Ela se aproximou para beijá-lo. Ele deixou. Os dois se abraçaram com ternura e deram as mãos. Assim, de mãos dadas, seguiram até a cozinha.

Ela fez café. Ele se sentou à mesa. Ela puxou a cadeira para perto dele. Sentaram juntos, saboreando o cafezinho. Ficaram lá, conversando, contando as coisas que fizeram quando não estavam juntos. Riram e choraram com a lembrança da antiga união. E lá ficaram se olhando, ela com a mão sobre a dele, até o raiar de um novo dia.

Ela acordou antes dele. Olhou ao redor um pouco desorientada. Assustou-se por ter caído no sono, sentada à mesa do café. Rômulo dormia debruçado sobre a mesa, com a cabeça repousada no antebraço direito. Pâmela notou uma suave mancha de café na toalha branca. Perdeu-se em pensamentos vagos, fixando o sujinho amarronzado.

Quando se deu por si, sentiu um leve espasmo à altura do ventre ao notar que sua mão continuava sobre a de Rômulo. Sem querer, adormeceram na mesma posição que atravessaram a madrugada. A diferença era que seus dedos amanheceram entrelaçados aos dele.

Pâmela não quis se mexer para não acordá-lo. Mas um forte sentimento a fez suar e vibrar a mão, despertando Rômulo. Ele ergueu a cabeça, virou o pescoço para um lado e para o outro, assimilando a realidade antes pulverizada pelos sonhos. Parou o movimento no instante em que se encontrou com o olhar de Pâmela e, de repente, suas feições mudaram. Pâmela sentiu um peso no peito como se a despedida se aproximasse.

Ele conferiu as horas e disse que já estava atrasado para o trabalho. Pâmela suspirou de alívio, contemplou-o e disse suavemente, umedecendo os lábios, que era sábado. Ele demorou para se recobrar do sobressalto, balançou a cabeça, tentando afastar um resíduo de incômodo, olhou novamente para Pâmela e deu uma deliciosa risada. Ela se deixou contagiar e riu intensamente com Rômulo, recordando os tempos em que a alegria transmitia-se a todos os cantos da casa.

Era a mesma casa em que eles moraram juntos por tantos anos. Ela conhecia cada qualidade e imperfeição daquele homem e daquele lugar. Algumas mudanças de móveis foram feitas. Uns novos, outros envelhecidos e outros ainda fora de lugar. Teve medo que ela também estivesse fora de lugar para ele. Após a separação, ela foi morar com uma amiga, em outro estado. Na noite anterior, depois de mais de um ano distantes, ela apareceu na casa dele sem avisar.

Não sabia se ele ainda morava lá, se estava sozinho ou na companhia de outra mulher. Mas arriscou mesmo assim. E, razoavelmente, sentia-se satisfeita. Talvez não o tivesse mais, mas tinha aquele momento. Aquele momento mágico era só dela. Só dela e dele, dela com ele.

Rômulo se levantou. Contornou a cadeira na qual Pâmela estava sentada. Chegou à parte de trás e se apoiou com os dois braços no encosto. Ergueu um dos braços e acariciou os cabelos sedosos, longos e encaracolados da mulher. Aproximou o rosto da nuca de Pâmela, deixou que alguns fios de seus cabelos deslizassem entre seus dedos e sentiu um perfume adocicado. Elogiou o cheirinho que ele tanto gostava. Ela sorriu, contente por ele se lembrar daquela fragrância.

Jogou os cabelos para o ombro esquerdo dela, despindo a nuca e a beijou, dando mordidinhas, até que um calafrio percorresse todo o corpo de Pâmela. Ela encolheu o pescoço e jogou a cabeça para trás, contorcendo-se pelo estímulo que lhe despertava sensações de outrora. De súbito, Pâmela pulou da cadeira e agarrou Rômulo pela cintura, beijando-o na boca com fúria titânica.

Ele a pegou no colo e a levou até o quarto. Ao encostar seus joelhos no colchão, Rômulo a jogou na cama e a despiu inteira. Logo em seguida ele também tirou a roupa enquanto ela o esperava com os joelhos dobrados, a planta dos pés sobre a colcha e as coxas levemente separadas, favorecendo o encaixe. Ele abraçou o tronco de Pâmela entre suas pernas e se entregaram à volúpia da paixão. Durante todo o enlace carnal, além das fantasias de excitação, a única coisa que Pâmela pedia era que aquele momento jamais terminasse.

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