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o crusp é como o mundo todo (1)




Crônica de rogério fernandes



 faculdade de letras, filosofia e ciências humanas, foi assim que o professor antonio candido corrigiu a mim e alguns outros colegas quando nos apresentamos para ele como estudantes das letras na usp. éramos meninos e meninas com vontade de saber do passado, beber o presente e sem muita certeza do futuro. quinta feira passada, conversando numa noite de cerveja com alguns desses meninos e meninas, me dei conta que já se passaram dez anos.


quando entrei na fflch, alguns amigos me observavam em silêncio como um caso perdido entre os devaneios que criava. enquanto eles se preparavam para formar famílias, carreiras ou simplesmente parecer respeitáveis aos olhos da namorada, eu me preparava para ingressar numa jornada  de literatura, de teatro, de música, de posições estranhas sobre o mundo e a política, sobre o amor. não fiquei surpreso e sorri divertido quando soube que uma amiga do tempo do colegial me julgava "um caso perdido" e pouco promissor para um relacionamento sério. talvez ela tivesse razão.

a angústia que sempre senti e disfarçava com um humor que até hoje é a minha principal defesa, conheceu poucos pares. era engraçado, pois descontando a sara, minha namorada naquela época, eu não tinha amigos com quem conversar sobre tudo isso que via, as formas que a cidade tomava aos meus olhos e as ruas que, cada vez mais, ficavam com uma cara de filme ruim americano. ingressar na fflch me salvou da loucura.

morei no crusp, residência estudantil da usp, e pude sentir que algumas das minhas ansiedades poderiam fazer eco com as ansiedades de outras pessoas. lá, no 204, fiz amigos e convivi em um clima de Hotel Chelsea ou Solar da Fossa, com artistas falidos, bêbados reincidentes, engenheiros diletantes, garotas  de nova odessa, meninos poetas, ex-seminaristas, viciados, músicos e hippies anacrônicos. dividia o apartamento com estudantes de letras que, ao longo de nossa jornada em busca de um diploma, foram agregando mais e mais amigos e náufragos das cidades vizinhas, construindo uma fauna rica de histórias, construções e desconstruções de percusso.

tudo isso veio a tona, como disse, numa noite de quinta quando encontrei tegnus e elis, dois amigos dessa época. como cantou joni mitchell "all romantics meet the same fate". muita coisa tinha mudado, mas ainda estávamos por ali, fazendo nossas caminhadas.

fazia algum tempo que não me encontrava com o tegnus lamas, o almirante, com quem compartilhei o 204 por alguns anos, ou meses, junto com outra amiga querida, letícia, e o poeta e editor paulo eduardo lacerda. não me lembro bem quando ele veio morar com a gente. ou de quando eu o conheci. sei que deve ter sido por intermédio do eduardo que tinha o dom de arregimentar pessoas e convidá-las para passar as noites por lá, vendo filmes, ouvindo música e bebendo cerveja. tegnus era um rapaz do interior, de uma cidade chamada salto. havia sido seminarista e gostava de metal melódico. como muitos meninos que nascem no interior de são paulo, era mais moderno e bem informado do que o mais atualizado dos meninos da rua augusta.

a grande força da informação sobre os movimentos da juventude contrastavam com o deslumbre de ser adolescente em são paulo, livre e em uma comunidade de vanguarda. a suposta contradição de forças fazia dele uma pessoa singular, como o seu nome, tegnus lamas, que muitas vezes inventávamos ser grego, ou de alguma origem exótica, para um novo recém chegado a turma. acho que foi com ele que conheci o pouco que sei sobre o subterrâneo da rua augusta, quando ela ainda era tomada por autenticidade. o almirante era o mais destemido nestas aventuras noturnas.

em algum momento que não pude acompanhar - talvez quando eu passei a me dedicar mais e mais ao mestrado, não sei - ele mostrou a enorme capacidade de fazer amigos, intuir as pessoas ao seu redor e traçar os passos que o levaram ao emprego, ao casamento, ao mundo das microcervejarias. olhando para trás, talvez ele tenha sido o mais coerente da turma.devo confessar que tivemos nossas tensões, mas como me disse uma amiga em comum, seu coração é generoso e sabe perdoar.

escrevo de um quarto de hotel em upper west side, me recuperando de um voo confuso e uma aventura em chinatown devido a uma confusão de reserva. dias atrás, estava em são paulo, nos espaços da quinta e breja, antes ainda, estava em havana, cuba. em perspectiva, o meu andar errático pelo mundo se mantém, e beber cerveja em são paulo, feita pelo almirante, tirada do porta-malas, me trouxe um orgulho de andar por lugares que sempre me levarão de volta ao crusp e partilhar de histórias com essas pessoas.

no meio do caminho, provavelmente em uma tarde de fevereiro, tenho certeza de que foi no verão, conheci elis. o contato com pessoas no crusp se dava muitas vezes através da solidariedade, ou de alguma festa, as pessoas circulavam pelos corredores, meio de pijama, descalços, arrumados para o trabalho, numa informalidade de intelectual de esquerda que parece fora de moda.  tenho certeza que não foi o caso com elis. ela provavelmente veio por meio do paulo eduardo, que nos dias de matrícula arregimentava as "bichetes" para o apartamento, numa excursão antropológica que fascinava as novatas.

era uma garotinha de tênis, camiseta, fã do "the clash", que tocava baixo e que tinha um acento do interior que fazia o seu charme. diferente do almirante, não era do heavy metal, gostava de punk, e acho que discutimos alguma vez ou outra sobre isso. certamente ela estava mais para canções como "sheena is a punk rocker" dos ramones, ou "Whole Lotta Love" do led zeppellin do que qualquer um de nós. em algum momento escolheu o francês como habilitação, e foi uma surpresa saber, anos depois, que foi devido a influência do 204.

falávamos de literatura, tentamos ler juntos o primeiro volume da recherche do proust, mas não fomos em frente.  me lembro de uma conversa que tivemos sobre memórias de um sargento de milicias que me interessou muito, certamente a literatura brasileira a interessava mais do que proust, não tenho certeza. em minha cabeça,  a conjunção de gostos, do punk ao romance brasileiro, a pegada delicada de adolescente em formação, com suas cervejas e noitadas, e também com o batom e os primeiros vestidos, a fazia parte essencial de nossa trupe, que contava com marmanjos um pouco desengonçados.

um belo dia foi para a africa. o que por si só daria um livro. já não nos víamos muito. casei, separei, escrevi um livro, ingressei no doutorado, me tornei professor de literatura. ela fez a trilha dela: o francês est mort!, a experiência africana a levou para o inglês, os imperativos de uma vida em são paulo parecem ter moldado a sua carreira para o universo das aulas nesse idioma.

quando a vejo, não fico surpreso, a beleza sempre foi parte de seu estilo.a garotinha roqueira deu lugar a uma mulher de um filme da sofia coppola:  cool, divertida, brincos e perfume. música e letra. acho que crescemos sem perder a ternura, e quando nos falamos, a força de nossa trajetória gira em torno de emprego, grana, amigos, diversão. ficamos adultos, finalmente?

o crusp é como o mundo todo, cada querido amigo uma parte, vou escrevendo sobre eles aos poucos...

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Créditos da imagem : flickr.com
crusp, por Olívia Brenga

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