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Pelotas





Crônica, por Mariana Collares.



Para meus avós: Nona e Beta.


Volto no tempo cada vez que retorno a Pelotas.

As casas velhas, das antigas e abastadas famílias que aqui viviam, continuam em pé, e do mesmo modo em que estavam no início do século passado.

O tempo envelheceu a madeira das portas, a tinta descascou há muito e marcas de umidade se espalharam pelas paredes deixando sulcos negros e profundos em cada construção. Mas ainda estão rijas, lembrando um tempo de abastança muito remoto, quando trajes elegantes desfilavam pela cidade nova, regada à cultura e a charque.

Hoje caminho pelas mesmas ruas e o sol as ilumina por igual. Poucas árvores e muitos espaços abertos neste bairro de casas baixas, com portas pregadas às calçadas, denunciando olhos vivos na vida alheia, e mocinhas na soleira das janelas, esperando o amor chegar.

Olho para o lado e vejo a mesma igreja dos meus tempos de menina, quando andava pelas ruas com minha avó, falando baixinho.

“Silêncio!” – ela dizia – “Os homens podem ouvir”.

Os homens... Quem eram?, não sabia. Sabia que existiam e nos impediam de falar alto e sobre algumas coisas que parece que todo mundo fazia e gostava, como jogar no bicho, por exemplo. Nunca soube bem como esse jogo funcionava, mas tinha pena dos animaizinhos. Imaginava-os sendo abatidos com tiros de espingarda, presos como alvos em campos verdes e sujos de sangue. Um horror nos meus sonhos de criança.

Naquele tempo, e talvez pela consciência de família, tudo cheirava a desconfiança e "ditadura" era uma palavra que ungia o medo nas ruas. Aliás, o silêncio era regra. Não se falava em muita coisa, quase ninguém se reunia e tudo era proibido, menos brincar. Menos ser criança. E ainda bem que a criança era eu.

Lembro do cheiro de café que perfumava as ruas, perto da fábrica de moer grãos, de manhã bem cedo.

Lembro de andar com minha avó a percorrer casas e casas das antigas clientes do Avon. Lembro de vê-la, de cabelos já bem brancos e preenchendo a totalidade da cabeça, e com as mesmas rugas que tem hoje, mas um pouco menos profundas, talvez, a andar com pés elegantes pelas calçadas altas, comigo pela mão. Lembro do cheiro de naftalina que tinham suas roupas bonitas e limpas, e de me segurar pela mão, tendo na outra as bolsas com os cosméticos que vendia.

A igreja já era rosa, como hoje ainda é.

A casa do padre ainda está aqui. Mas ele não.

O colégio em que estudei mudou muito pouco. Os professores se aposentaram, as crianças cresceram e outras vieram e ocuparam todos os bancos do recreio. Muito barulho. Isso sempre igual.

A zona do porto intacta. Sem porto, sem navios, mas com aquele ar melancólico que os portos abandonados têm.

As grandes fábricas, onde antes fervilhava o progresso, hoje estão fechadas. Hoje são grandes armazéns de passado.

A aristocracia de outrora sorri silenciosa pelas janelas das casas grandes. Vejo fantasmas andando pelos jardins, lendo ao sol de um meio-dia incerto, enquanto os escravos colocavam a mesa do almoço e levavam a lenha ao porão.

Vejo carruagens passarem pelas ruas recém-abertas, de basalto novinho em folha, e sombrinhas coloridas escondendo faces rubras de mocinhas vestidas de juventude.

Dou-me por conta de estar sentada no meio do mistério desta cidade adormecida no tempo, olhando algo que jamais vivi.

Um vento sopra um sabor morno de um dia de outono e agora ando até minha antiga faculdade e vejo o fantasma de meu avô em frente à sua casa, me esperando para tomar o café da tarde, com pão e manteiga, antes da aula da noite. E então vejo-me sentada em frente à porta daquela casa, pensando num futuro improvável em que estaria também sentada escrevendo numa tela fria o que antes uma folha conteria e só ela.

Naquele tempo, eu era jovem. Feliz também na minha crueza.

Hoje o tempo azeitou o que tinha de novo, tocou minha face e meu corpo para me deixar mais móvel, segundo sua vontade, mas não me levou a memória.

E nesta cidade, a memória é tudo e o melhor que ficou. O resto é saudade.


***


Crédito da Imagem: Liana Coll.


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