Novidades

Um breve estudo sobre o silêncio



Conto de Sel!

Ela está parada. Um corpo longo e distorcido se aproxima. Um corpo longo e distorcido como uma tempestade de areia se aproxima e perturba seu torpor diário. Ela corre. Seus olhos expressivos não escondem a dor. A dor são seus olhos. A dor circular e imensa que lhe invade a face e reside sem consentimento. Ela corre apesar da dor. Nas pernas ainda circulam frequentemente sangue. Os músculos ainda são fortes e ela corre como se o tempo atrás lhe perseguisse e quisesse lhe devorar. E devora.... lentamente; mas ela ainda corre até seu quarto. Seu quarto rosa que não tem cor, vazio. Monocromático. As dores esféricas e úmidas degelam, liquefazem-se sobre a pele. Arrepiam. O assoalho duro e carcomido já não mais causa desconforto. As nádegas, o ventre já suportaram maior dor. Apenas os olhos incham e caem como pequenas peças de vidro. Não quebram. Mas ela quebra vidros. Olhos de vidro e um nariz que não suporta mais o cheiro. O horror dos minutos fede e nada lhe dessensibiliza. Tudo é sensível, tudo é visível com a rara formatura de sua face sem boca. A boca são seus olhos e nariz. É raso abaixo de seu nariz. Uma menina sem boca, uma menina com três bocas. O vento lhe desestabiliza. Mais chorume, as dores tumeficam. Elas não quebram, mas quebram vidros. E os cacos pelo chão, a face sem boca em chamas com a marca de uma mão, sua mão acolhe um de seus filhos. O sangue morto e sem cor corre fraco pelas brechas reabertas. A dor não comporta as suas dores, bocas tumefeitas com o fétido odor que trazem as tempestades. Sua mão cor sem cor de vermelho morto não morre. E seu pequeno e irregular bastardo se impele à sorte: rasga-lhe a face lisa. Um segundo e o mundo escurece... O grito.



*
Créditos da imagem: olhares.com

Sem saber de quem fugir., por Catarina

3 comentários:

  1. Também gostei muito do teu conto. Segue um ritmo rápido e é muito bom de ler.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado, Fabíola... fico feliz que tenha gostado tb... abraços!

    =)

    ResponderExcluir
  3. Gostei do estilo bem poético e acelerado.

    ResponderExcluir