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O Caderno Amarelo





Crônica, por Mariana Collares.


A menina gostava de amar.

Tinha um caderninho de capa amarela, que ela carregava consigo para quando desse vontade de contar um segredo ao tempo. E assim fez por muitas vezes: sentava na beirada da calçada, e colocando os pés sobre os paralelepípedos irregulares ,desenhava as letras devagar, primeiro caprichosamente, depois, conforme lhe assaltavam os pensamentos, e rabiscava com força na folha, quase que automaticamente, como se não pudesse pensar, somente reproduzir um eco longínquo que vinha de de dentro.

Ela amava outra vez, mas sempre a mesma pessoa. Primeiro foi o menino loiro de nome esquisito, depois o coleguinha da escola, e então o vizinho do lado de casa, -moreno, a pele muito branca, os olhos de um negro impossível, tinha um apelido que nunca soube direito dizer, por isso o apelidou a seu jeito: "Baese". Nunca soube se isso era sobrenome. Nunca soube o que queria dizer.

Amou o menino, tão mais velho do que ela, por muito tempo - ao menos o que parecia ser para aquela vida que prenunciava-, mas nunca, jamais teve coragem de dizer-lhe ou mesmo de mostrar a ele o amor que sentia.

Foram dois os anos em que conviveram, brincando sempre juntos, e tão puros em sua inocência e sempre amando-se desesperadamente como convêm a duas crianças e a um caderninho de amor que se preze.

Foi assim até que ganhou outro caderno, e então os amores e os meninos recomeçaram.

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Créditos da imagem:

Horta do Papel

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