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O menino




Conto, por Maximiliano da Rosa

Abro a porta e dou de cara com o vazio. Entro em casa e vou acendendo as luzes. O silêncio é uma coisa louca. Para afugentá-lo, ligo a tevê no último volume. Depois vou até o banheiro e me alivio. Meia-hora depois, saio, e vou procurar alguma coisa pra comer. Na geladeira, quase da nada de comida. Meio litro de leite longa vida desnatado, meia maçã, meia lata de ervilhas, meia salsicha. No armário encontro meio pão francês. Pra hoje, isso dá.

Pego o leite, a maçã, as ervilhas, a salsicha e o pão. Esquento o leite, coloco numa xícara de porcelana, e com o restante faço um meio cachorro-quente. Coloco tudo numa bandeja, incluindo a maçã, e levo para a sala de estar. Sento no sofá, deposito a bandeja sobre a mesinha de centro, e ligo a tevê. Fico zapeando por alguns instantes pelos canais. Nada de interessante. Deixo no noticiário noturno. Pego o meio cachorro-quente e o levo à boca. Antes da primeira mordida, o telefone toca.

Não o atendo. Pela bina, sei quem é. Mas não atendo. Várias vezes, o telefone toca. Não é comum ele ligar para a minha casa. Ligar para o meu celular, não dá. Está desligado há dias. Finalmente, ele desiste, e tudo silencia, a não ser pelo barulho da tevê. Termino de comer o meio cachorro-quente, e deito-me no sofá, controle remoto na mão. E durmo. E ao dormir, sonho. Sonho que estou à deriva num pequeno barco em alto-mar. Acordo no meio da noite, o estômago roncando. Levanto, vou tomar um banho quente. Fico embaixo d'água até as minhas mãos ficarem enrugadas.

Depois saio e vou pra cama, onde deixo o meu corpo cair. Minha alma pesa. Alguma coisa estala na cama. Fico deitado durante muito tempo, sem conseguir mais dormir. O relógio marca três da manhã. Um mosquito fica zunindo em volta de mim, próximo ao meu ouvido, até que pousa na minha nunca. Num gesto rápido, eu o esmago. Em seguida olho a minha mão suja de sangue. Olho as minhas mãos sujas de sangue.

Levanto, vou ao banheiro e lavo as mãos. Mas o sangue continua lá. O sangue em minhas mãos. E lembro do menino. Lavo o rosto. E lembro do menino. Do menino com o tiro no peito. E da mãe do menino, incólume, com o filho morto nos braços. A mãe com uma ferida no peito. A mãe, morta por dentro. A mãe em prantos no meio da rua. E eu ali, abalado. Eu, que jamais me abalo com nada. Que sou uma pedra. Uma rocha, sem sentimentos. Um homem que mata pessoas. Não por prazer. É apenas a minha profissão. Negócios, apenas negócios. Mas o menino. Era só um menino. O menino morto. Com um tiro no peito.

Sou só um menino dançando com a angústia em meio à escuridão da noite.

Sou só um menino. Um menino só.



Maximiliano da Rosa
Gaúcho de Novo Hamburgo, Maximiliano da Rosa é blogueiro, escritor e poeta. Autor do livro de contos "Meia-noite num quarto escuro". Venceu o 7º Concurso Nacional de Literatura da Fundação Cultural de Canoas, RS, em 2004, com o Conto “Eu Sou Triste”; e o I Concurso Nacional de Contos “Darques Lunelli” da ASES de Santa Rosa, RS, em 2005, com o conto “Filhos Versus Pai”. Obteve Menções Honrosas no 2° Concurso de Contos e Poesias da Editora Guemanisse, com o conto “Mais Cachaça Que Pão”; e no 17° Concurso Paulo Leminski com o conto “O Land Rover Negro e a Caixa de Drops”.

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Créditos da imagem: (pode deixar que eu preencho isso)
Destroçado, por Cristina Piedade

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