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Os mortos reconstruídos



Crônica de Marcelo Sousa!


Alguns mortos simplesmente ficam conosco. A terra fria que os cobriu não é suficiente para enterrá-los, e as pequenas criaturas que se nutrirão do seu corpo não os farão deixar de existir. Depois de meses, eles permanecem, desconstruídos e reconstruídos. Sua memória se confunde com a nossa memória, e ele renasce por nossa vontade, e vê com nossos olhos, e sente com a nossa pele.

Esses mortos, reconstruídos, são o que muita gente chamava de fantasma. Os da roça tinham mania de dizer: "Toda assombração sabe muito bem pra quem aparece!" Sábios, esses matutos. Foram os primeiros a descobrir que os mortos voltam, mas não como eram antes. Voltam piores ou melhores, mas nunca os mesmos, porque foram reconstruídos por quem não os deixará ir embora jamais. Seus pecados podem ser redimidos, ou jamais perdoados. Suas marcas de nascença, ou são apagadas ou criam a aparência de um borrão. E ficam enormes suas mãos e seu rosto. E vagam por caminhos que, quam em vida, talvez eles nunca tiveram passado, mas que por nossa vontade, hoje passam, e caminham com desenvoltura. Os reconstruídos deixam de pertencer a si mesmos, e perdem a liberdade de viver a sua própria morte, posto que haverá semore alguém que o reconstrói a cada amanhecer, e não o deixa morrer em paz.

Pobres desses dois, os reconstruídos e seus construtores. Ambos são assombrados. Um pela presença imaginária daquele que já nada é. Outro pela insistência patológica e melancólica daquele que não sabe perder, nem prosseguir, e por isso reconstrói muletas das quais não precisa usar, como a bengala que os dândis de antigamente usavam, não por necessidade, mas porque era bonito, era de uso comum um cavalheiro sair com seu chapéu e sua bengala. Mas, efeito colateral, esses que usavam a bengala como apetrecho de moda, acabavam mancando por tanto usá-la daquele lado, colocando o peso ali, o que os entortava aos poucos, tornando o que era fútil, de repente, necessário, essencial.

Assim reconstruímos os que já não nos pertencem, por que os queremos nossos por mais tempo. E por acostumarmo-nos com o seu uso, perdemos o senso da sua realidade. A memória do que foi vai aos poucos sendo substituída pela memória do que poderia ter sido. E depois disso, nem o vivo nem o morto serão os mesmos. Ambos mancos, andarão apoiados um no outro, claudicantes, para sempre (e por vontade própria) aleijados.

Tenho meus fantasmas. Porém evito reconstrui-lhes a história como se sua cronologia fosse acompanhar a minha. Em algum momento da vida a história deles cessou, a minha continua. Cessará também um dia, e como um barbante esticado é subitamente cortado por uma tesoura, assim o tempo nos separa, e interrompe nosso caminhar.

Meus mortos pertencem a si mesmos. Digo que são meus apenas por vício de linguagem, por escolha semântica, propósito cruel para criar um paradoxo no texto que flui, umas vezes iluminando, outras confundindo. Mas, em suma, esses que se foram já não pertencem a nada nem a ninguém, mas existem de uma forma especial. Sei quem são, que tinham virtudes e vícios. Sinto mágoa de alguns, mas saudades de outros. Porém, quando sinto que podem aparecer na minha frente, para o castigo ou o carinho, trato de mandá-los embora. Recuso-me a reconstruí-los, pois urge-me viver, e tentar recriar o que está morto é procurar morrer junto, os poucos. E talvez este seja um segredo importante: saber chamar os mortos de mortos. Dar-lhes um nome para sua nova e eterna condição é tocar a fria realidade, para depois poder acalentar-se nas boas lembranças, que é o que eles deixam: lembranças, exemplos, ensinamentos, sentimentos. Mas nunca pedem para nascer de novo, tampouco reconstruir-se de cacos de vida que sobraram espalhados aqui e acolá, como se fossem mendigos a nos suplicar migalhas.

Aos meus queridos fantasmas dedico esta crônica, este ensaio. E aos vivos, peço que lembrem-se de permanecerem vivos, construindo vida, porque disso nem mesmo os mortos esquecem:

- Toda assombração sabe muito bem pra quem aparece.



[Marcelo Sousa]




2 comentários:

  1. Quando a chuva
    Encharcar nossos ossos
    E fizer silêncio sobre nossos túmulos
    O que saberemos
    Da vida que tivemos?

    Nossas cicatrizes
    estarão para sempre
    Ocultas

    E nossas frases derradeiras
    Serão repetidas
    Por mais algumas semanas

    Depois o esquecimento
    De tudo aquilo que fomos

    Um esquecimento puro e simples
    Que pouco a pouco
    Nossos nomes
    Vão apagando...

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  2. mario tadeu saroka9 de novembro de 2013 00:58

    Eu gostei mais do poema,do que do conto.

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