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Quem tem medo da solidão?




Crônica de Erica Gaião

Um dia desses uma frase do Saramago saltou diante dos meus olhos, enquanto assistia a um curta-metragem de animação, intitulado A Ilha. O filme é genial, mas o que despertou mesmo a minha reflexão foi o Saramago: É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós. A frase ganhou voz e ecoou dentro de mim: Não nos vemos se não saímos de nós... Imediatamente, pensei na solidão, nas suas tantas versões e no quanto somos solitários - como um náufrago perdido numa ilha -, mesmo quando achamos que não. Mesmo tendo à disposição tecnologias e mídias que nos conectam a tudo e a todos; mesmo tendo à disposição uma pluralidade cultural, redes sociais, informações; mesmo assim, somos solitários. É tudo tão rápido e instantâneo atualmente, que não há tempo para se estabelecer vínculos reais e solidificar as relações. A solidão é uma consequência dos efeitos causados pela pós-modernidade...

Eu já tive medo da solidão, confesso. Quem nunca teve, que atire a primeira pedra. A solidão é o pavor de muitos e o alívio de poucos. É controversa até quando buscamos definições para entender o seu significado. Há quem diga que a solidão é a ausência de alguém para dividir a vida, o sofá, a cama, um livro, um saco de pipoca... Há quem diga que a solidão é uma escolha consciente de quem cansou de viver cercado de nada que acrescente. Há quem diga que a solidão é um encontro do [eu] consigo mesmo. Há quem diga que a solidão é deprimente e o solitário, um deprimido, um pobre coitado. Há quem entenda a solidão como uma condenação, um carma, uma consequência inevitável do abandono ou do descuido - quando alguém, por descuido, abandona o outro à própria sorte e o 'condena' a viver só; ou quando você se deixa de lado, desistindo de ser quem é, para ser aquilo que o outro quer que você seja. Tem coisa mais solitária do que se perder de si mesmo? Pois é... A solidão é tão confusa, que pode ser rasa ou profunda. Ela é rasa quando você supõe precisar do outro para conhecer o que é plenitude. Profunda, quando você precisa de você para conhecer e entender o que é plenitude. A solidão enlouquece quando você não consegue descobrir o que você realmente precisa. A solidão é completa quando você, conscientemente, se encontra com o seu próprio eu, para desconstruir velhos conceitos, arrancar armaduras, organizar seus afetos. Nesse caso, a solidão pode ser o fim ou o ponto de partida, vai saber...

Mas, como eu disse, já tive medo da solidão. Medo de ser sugada pela sua imensidão e me perder da vida enquanto ela – a vida - acontecia fora de mim. Eu tive medo de não conseguir voltar ilesa; de não conseguir fazer parte do mundo habitado, do mundo além do meu próprio mundo e das mudanças que ocorrem enquanto nós estamos nos descobrindo. Eu tive medo, não da solidão, mas da ausência. De não sentir mais a mão do outro dedilhado as minhas camadas mais profundas, para descobrir os meus segredos. De não ouvir mais a voz do outro interrompendo o meu discurso. Eu tive medo de não ser mais uma mistura entre o mundo, o outro e as nossas tantas conexões. Eu tive medo, confesso, muito mais pelas convenções sociais, que apontam o dedo para quem vai sozinho ao cinema, por exemplo. Que apontam o dedo para quem opta por ir sozinho a uma festa, não pela falta de companhia, mas pela falta de paciência, ou por não querer passar uma noite inteira com vontade de sair correndo. Quantas pessoas solitárias andam em bandos ou criam vínculos com qualquer um, pensando, assim, espantar a solidão. Bobagem! Ter alguém, ter companhia, não afasta ninguém da solidão. A solidão é algo existencial e pode ser habitada por vidas que nada acrescentam ou por bom-senso, o que é uma questão de escolha e respeito a si mesmo. Pensando nisso, na melhor versão nietzschiana - o que pode ser muito perigoso, quando não há cautela -, descobri a liberdade quando entendi que a solidão pode ser a coragem da renúncia. A coragem de renunciar uma realidade enfraquecida pelas tantas intervenções do outro, para viver uma realidade fortalecida pelas minhas próprias intervenções. A solidão pode ser o limite entre o meu espaço e o espaço que acolhe o resto do mundo. E, ao contrário do que antes eu supunha, a solidão não tem dentes, nem garras, nem nos condena a nada, pelo contrário; pode ser reveladora e consistente, quando você usa todos os recursos disponíveis, para fazer dela a sua melhor companhia. Quer liberdade melhor do que essa? Um livro ou vários, um café, uma música, um caderno vazio e o silêncio da reflexão, que nos convida a experimentar o mundo, enquanto observamos. Você, o silêncio, e no meio dele, o sussurro da sua respiração contrapondo-se ao barulho e aos gritos do seu próprio pensamento... A solidão é um atributo do espírito para encontrar a paz. A solidão, nesse caso, tem cheiro de paz e alívio. É quando você despe a sua alma da conveniência e passa a ser você, com você mesmo. E assim, eu me sinto uma ilha, buscando nos arredores de mim, nos outros, no universo, elementos que me fortaleçam e garantam a minha sobrevivência, no além de mim.

A verdade é que, temer a solidão, todo mundo teme. Sobretudo, porque é na solidão que você descobre o seguinte: Quanto mais nos conhecemos, quanto mais conhecemos o outro, percebemos o quanto somos solitários. E somos solitários porque esperamos sempre alguém ou alguma coisa que nos sustente. Somos solitários porque compramos imagens e ideais que não existem. Somos solitários porque esperamos uma compreensão que não vem,  pois ninguém compreende aquilo que, visivelmente, não é compreensível - eu estou falando da alma humana e das suas oscilações. O comportamento humano é sempre baseado em algo que se esconde e se revela, às vezes, de maneira equivocada. Convivemos com todo mundo, mas estamos sempre apontando para algo no outro que nos reflete, sem perceber que nos reflete, já reparou? Ver os nossos defeitos no outro é o que mais nos incomoda e isso é tão devastador, quanto a própria ideia de viver só para o resto da vida. Mas, depois de um tempo, você percebe que dar um tempo no mundo é fundamental para que tudo se organize internamente. É preciso estar só para de fato compreender o que é não estar só, pois, geralmente, quando temos muitas pessoas por perto, emitindo opiniões e conceitos, a tendência é a dúvida, a perda da percepção... E o não-saber-o-que fazer da própria vida, diante de tanto disse me disse que existe no mundo, muitas vezes, nos leva à inércia.

Como diriam alguns existencialistas, estar só é a condição original do ser humano, não tem jeito. E o que diferencia uma pessoa da outra, dentre tantas coisas, é a forma como cada uma lida com a sua própria solidão. Portanto, pensando racionalmente, não há o que temer, pois já nascemos solitários e conviveremos com a solidão até o final dos nossos dias. Somos uma ilha, dentro de uma ilha composta por outras ilhas e assim por diante... E sair dessa ilha, significa entrar em contato com aquilo que está além,  muito distante da nossa zona de conforto, para adentrar um mundo novo, desconhecido. Significa, também, desconstruir a ideia que fazíamos de nós, para enxergar o que somos, efetivamente, sem máscaras, falsos ideais e rodeios. Talvez, por isso e pela insegurança que desperta, a solidão seja tão temível e assustadora.

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Créditos de imagem: Olhares.com
Fotografia de Danny Bittencourt"Que minha solidão sirva de companhia...", foto integrante da exposição "Algumas Letras em Outros Poros" de 2011


* a frase do Saramago citada é do conto: O Conto da ilha desconhecida.

** O filme de curta-metragem A Ilha pode ser assistido aqui: http://www.youtube.com/watch?v=7C3Ug43Xzaw&list=PLrWREYwPF2Y41VV0s2yEAzR_XIZWSaSt1

Um comentário:

  1. Não tenho grande medo da solidão, desde sempre ela me acompanhou quando mais precisei... a solidão é a melhor amiga às vezes, ela não te trai... não há mesmo o que temer, temer a solidão é como temer a própria companhia. Talvez isso seja o assustador, apenas você e você mesmo em um único lugar, sem intervenção dos pensamentos e confortos do outro... de qualquer forma, seu texto é lindo, parabéns!

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