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Sem parar




Nova crônica de Giovana Damaceno.


Parece lugar comum dizer isso, mas é tanto o que fazer, que a gente se esquece de viver. Sério. Difícil uma paradinha que seja, para fazer nada ou fazer algo que não esteja na lista de ‘trocentos’ compromissos semanais. Tudo necessário, lógico, quem vai dizer que não? Tarefas relacionadas à casa, ao filho, aos bichos, ao marido, aos estudos, à produção literária. Terapia, consultas, exames, reuniões, aula de Inglês. É coisa pra comprar, gente pra ligar, serviço a contratar e a acompanhar. Roupa pra lavar, despensa vazia, quintal sujo, vasilha de água e comida esperando uma boa alma pra limpar e repor, e aqueles pares de olhinhos aguardando.

Aula no fim de semana inteiro, portanto a semana fica mais curta. Passagem pra comprar, mala pra arrumar, viagem na sexta à tarde. Artigo e crônicas para escrever, quatro livros para ler, mais meia dúzia para estudar, fora as apostilas. Um livro pra lançar, capa pra aprovar, lançamento ainda nem agendado está. Quando penso que vou ter um tempo sobrando pra sentar e produzir, já estou com caneta e papel à mão para listar os afazeres de amanhã, com os olhos ardendo de sono. Quem é que consegue escrever desse jeito?

E quando, enfim, consigo interromper tudo, colocar os tênis e ganhar a beira-rio para minha caminhada, é quase impossível fazer com que a cabeça siga o prazer do corpo. O esforço é dobrado: o primeiro, de caminhar rápido para alcançar os resultados desejados; o segundo, parar a mente e tentar fazê-la relaxar, curtir a paisagem, a Lua flertando com Vênus, sentir o vento na cara, respirar fundo e agradecer aos céus pela oportunidade rara.

Mas, não.

A cabeça está a 1255 por minuto. Só consegue montar e desmontar uma agenda imaginária, que a ansiedade não permite escapar. A tal agenda vai-se construindo e desconstruindo sozinha. Quando a semana mental termina e já me vejo retornando das aulas, minha cabeça começa novamente a agendar o dia de amanhã. Entre um compromisso e outro marcado pela minha ansiedade autônoma, ainda lembro-me de gente com quem preciso falar, amigas com quem tenho ao menos que tomar um café, minha mãe, aff, minha mãe! E assim concluo meu percurso, sem que a mente descanse um segundo sequer.

Um instante, uma paradinha na janela, e a questão vem com a brisa da noite: será mesmo necessário tudo isso? Um suspiro vem junto.

O quê realmente necessito para viver, para sobreviver, para ser feliz, para me manter plena no dia a dia? De tudo o que faço, confesso, um bocado de coisa poderia ser eliminada. Porém, falta a coragem, falta o aprender a dizer não, falta dar o verdadeiro o valor à liberdade.

A vida ensina (mais um lugar comum). E a prova disso é que já é possível me questionar. Encerro o dia com a crônica pronta e a reflexão feita por meio das palavras soltas, na ânsia de cumprir mais este compromisso. Amanhã, tudo de novo.


*

Imagem: corbisimages.com

Um comentário:

  1. Veio a calhar a leitura, Giovana. Costumo me perguntar sobre tudo com frequência e a resposta é sempre de que a decisão, no fim e no começo das contas, é só minha. Um fardo e tanto.. risos

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