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Sobre certezas, sereias e dragões




Crônica de Libério Lara

E por um momento, um pequeno momento, eu me sinto cansado de tanto não saber. Minha paixão pelo incerto já me machucou um tanto bom, a ponto de desejar – por um momento, um pequeno momento – o sossego de um canto, a companhia de um cão, a moça do meu amor dando notícias do mundo e dos "hojes" nos desjejuns diários, a leveza que vem de ter optado pelo que é seguro, pelo que deve ser certo... será?

Porque num tempo você é o dono da caminhada. Pode escolher seu próprio rumo e partir, entrar no barco e ajustar as velas. Noutro, todas as certezas se vão e você é um pedaço de alguma coisa, num pedaço de alguma coisa, boiando em águas profundas e desconhecidas, absorto, seduzido, embriagado pelo canto lamentoso duma sereia que espera sua carne cair no mar. A morte te espera num emaranhado de ondas e se a sorte não te desperta, é pra lá que você vai – pra onde, Deus do Céu?

É a vontade insana de voar pra mais longe e o medo de outras quedas que me coabitam hora dessas. Emoção por razão? Minhas cicatrizes contam histórias que nem seriam! E eu acabo voando só mais uma vez...

Pois minha vontade de não ficar é um dragão com um par de asas, sete cabeças e sonhos que não se esgotam. Um fogo dum ser de sagitário que queima todas as incertezas por dentro pra clarear do lado de fora tudo que a gente não é e não sabe ser.

Posso até crer – por um momento, um pequeno momento - em canto de sereias e fogo de dragões. Mas quando penso em certezas...

Ah!

Certeza que esse negócio de certeza não existe...


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Créditos da imagem
O Homem e o Mar, por Raphael Bonelli

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