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Um outro olhar sobre as coisas da vida e a morte




Crônica de Libério Lara

Eu nunca estudei não senhor, doutor! Há setenta anos eu era moleque e essa cidade aqui era um mato que só vendo! A escola mais próxima ficava na capital. Era quase o dia inteiro no lombo do cavalo pra chegar, imagine! Mas eu era menino curioso e acabei aprendendo a ler com a dona Maria, esposa do coronel Valério que era dono de mais da metade das terras dessa cidade.

Quando escurecia, a luz da lamparina clareava as folhas do punhado de livros que eu levava pra casa. E eu gostava era demais das poesias do Bernardo Guimarães! Pense, doutor! Um molequinho matuto que nem pelo tinha ainda, lendo:

“ Pelo campo etéreo voga
Qual piroga
Cortando o cerúleo mar.” *



 Não entendia era nada daquele palavreado todo, mas achava bonito aquele jeito esquisito de falar das coisas da vida. Pena foi a dona Maria ter se aprumado mais o coronel pra capital e eu ficar ano e ano e ano e ano sem ler um livro só de mais poeta nenhum. Eu queria ser poeta, doutor! Imagine! Poeta Francisco Neto Correia! Ia falar das coisas da vida que nem ele, o Bernardo Guimarães. Ia ser fácil igual empinar papagaio por essas bandas daqui no mês de agosto, quando o vento sopra o dia inteirinho refrescando a quentura que o sol manda pra gente.

Porque a vida é isso, doutor! A vida é a feitura dum poema. É aquele poeta aflito demais da conta, sapecando os dedos naquela máquina de escrever que nem um pianista faz enquanto toca sua música. A vida é um poeta, doutor! Cria histórias, estórias, arranca emoção do peito da gente, conta graça e desgraça, e faz a gente se enveredar pra todo canto, num mundaréu de vírgulas sem fim. E no finalzinho o poeta escreve: “E de vírgula em vírgula faz-se o ponto.” E o poema fica pronto. E o poeta cai mortinho da Silva!

Ah, doutor! Mas eu ia falar demais das coisas da vida se eu fosse um poeta! De morte não. De morte a gente não tem muita coisa pra falar, a não ser pra contar casos de assombração pra assustar a meninada em noites de lua cheia. Fora isso, ia escrever era letra nenhuma pra falar de morte. Porque eu ia ser poeta. E a morte, doutor!

A morte é o poema pronto.



* Bernardo Guimarães - Minha Rede - Rio, Abril de 1864

*
Crédito da imagem:
Sem título, por Fernando Lima

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