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Aula Cancelada



Conto de Maurem Kayna.

Atrasado novamente. O café desceu torto, escurecendo a garganta e o fundo do olhar. Esse mau começo de semana atiçou a discussão com o zelador pelo mau funcionamento do elevador e azedou o passo – o som maciço dos sapatos sobre a dureza dos degraus parecia querer traduzir ou purgar o desagrado. Desgastara-se de maneira desproporcional, pensou ao passar pelo jardim ressentido com a seca, deveria se desculpar com seu Joaquim quando voltasse, mas até lá haveria esse quê.

Na lotação, um suspiro comprido demarcava a persistência do incômodo. Hoje era dia das turmas do último ano – adolescentes que lhe despertavam oscilações entre ira e ternura. Seriam quatro aulas seguidas a enfrentar, mas antes da primeira explicação para os ouvintes sonolentos, uma ligação anunciou a necessidade de mudar os planos da manhã. Tomaria o rumo do crematório, mas antes havia as providências legais a resolver.

A cena da mãe pedindo ajuda para vestir o casaco de lã azul-marinho voltou com a força de um soco no estômago. Aquilo aconteceu quando ele era criança ainda, foi no dia em que o pai não voltou nunca mais. Tentou lembrar se aquilo também teria acontecido no início da semana, mas naquela idade tenra, os dias corriam sem a distinção das obrigações que vieram com a escola e, depois, com o trabalho.

Concentrou-se nas ações práticas e deixou as memórias da infância, mais ácidas que dignas de saudade, para procurar o endereço do cartório onde teria de registrar o documento de anuência à cremação.

O esforço pela praticidade foi vencido pelo uniforme das atendentes do tabelionato. A movimentação barulhenta delas entre os arquivos e o balcão trouxe as lembranças da irmã nos tempos da escola normal, e a imagem embarcou no táxi junto com ele e com os papéis carimbados.

O motorista era de pouca conversa, felizmente. Perguntou apenas o destino e disse o preço, sem romper o ritmo das recordações do passageiro esquisito.

Mariana fazia ballet na adolescência e ele, naturalmente chato como são os irmãos mais novos, troçava das sapatilhas cor-de-rosa. Explosiva que era, a irmã reagia, mais com fúria que choro e não poupava esforços para fazê-lo sentir vergonha na frente dos amigos da rua e da escola. Franzino e desproporcional, ele era apontado por ela com apelidos maldosos. Aos pais Mariana fazia queixas exageradas das perturbações causadas pelo irmão.

A madeira escura e muito polida da urna lembrou o assoalho que acolheu os pés descalços e o volume todo dos cabelos da bailarina debutante. Refez, num filme acelerado, as passagens que se seguiram: a ira doída da mãe, a expulsão dele para a fazenda dos avós e, depois, um depois sem prazo nem perdão. Só pode voltar à casa depois do serviço militar obrigatório, quando Mariana já tinha ido estudar no exterior.

– Mariana? Dulce está aqui comigo, no meu colo.

– Como diabos conseguiu meu telefone?

– Mariana, escuta. A mãe agora é cinzas em uma pequena caixa de madeira, soluçava ele.

Silêncio as vezes intimida e acusa mais que grito, ele pensou, e teve de disparar:

– Eu não te obriguei, Mariana.

Mais demora sem palavras e o celular esquentando a sua orelha. Finalmente a voz dela – igual a que se recordava:

– Se a mãe morreu, ao menos não tem mais de aturar as tuas alucinações, Pedro. Eu não tenho como viajar agora, nas férias descubro o local do túmulo.

Não tem túmulo, ele disse, e ainda perguntou se ela queria receber os restos, mas ela já tinha desligado o telefone para ir remexer no baú de fotografias. Sobravam poucas, muitas já tinham sido queimadas., mas fez delas objeto de ritual para purgar o que sobrava das manchas que ninguém, exceto a mãe, viu no vestido dos quinze anos.



* uma versão ainda mais sumária que esta foi publicada no Portal Literal 2.0, em 2008.


Créditos da imagem: Os Cisnes das bailarinas, por Paulo Oliveira

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